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sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Jénifer, uma vez mais


N
uma ilha, as coisas esquecem-se mais depressa. É a única maneira de fazer o tempo andar para a frente.

Joel Neto, Jénifer, ou a Princesa da França


    Primeiro, a grandeza literária da novela do Joel Neto, Jénifer, ou a princesa da França. A ficção deste género, para ser grande, tem de obedecer a alguns protocolos teóricos. Saber contar uma breve “estória” com princípio meio e fim, criando personagens que o leitor percebe por inteiro, a sua interioridade, a sua realidade total, como se fossem alguém com que nos cruzamos ou quem nos identificamos de imediato. É um dos géneros mais difíceis de um escritor conseguir. Tem de ser breve, tem de saber manipular as suas linguagens, tem de saber fazer o leitor sentir que sabe tudo sobre os seres inventados, reinventados. Um escritor nunca parte do nada – parte de si e das suas experiências, parte dos que lhes foram próximos ou observou com cuidado, com quem se relacionou, cada um parte do saber da sua sociedade, da sua história, da sua pertença feliz ou infeliz. A novela de Joel Neto é a sua visão que nos relembra, que nos recria, que nos confronta tanto com o passado, como sobretudo com a nossa contemporaneidade. A arte literária é sobretudo a nossa consciência reativada, tudo o que permite o chamado prazer do texto. Não literatura sem esta memória, sem o testemunho de um tempo, não há literatura sem a angústia coletiva, não há literatura ou qualquer outra forma de arte sem respingar a miséria humana ou angústia do se ser e estar num tempo e num lugar, sem os seus sofrimentos, sem as suas felicidades e infelicidades vividas ou imaginadas. Jénifer tem os Açores como fundo geográfico, histórico e político, como poderia ter qualquer outra ilha ou terra mais extensa. Ofende? Tanto melhor. Jénifer passa a ser a nossa personagem, a sua história a nossa vergonha, a sua vida e os seus sonhos com meio milénio de idade a confirmação do que são e sempre foram os Açores e o seu povo. O paraíso na terra para alguns – e para os outros?

    Jénifer, ou a princesa da França provocou alguma celeuma entre nós. Pudera. Eu por mim li a novela de imediato sem qualquer complexo. Acharam alguns que dava uma “má” imagem dos Açores, como se a realidade pudesse ser escondida de todos e para sempre. A grande ficção tem esta outra característica – é a mentira verdadeira, a tal reinvenção do que vivemos e vimos, do que sabemos. A pequenez de uma qualquer comunidade é quando acusa um artista seja do que for. Só que Jénifer nasce de outras fontes muito seguras – da inteligência de um grande escritor açoriano, um dos mais distintos da sua geração e de nós todos, e de uma outra que parte da sua própria vivência quotidiana e de um estudo de uma das maiores e mais distintas fundações investigadora da realidade portuguesa dos nossos dias, nada menos do que a prestigiada Fundação Francisco Manuel Dos Santos. Tudo quanto Joel Neto ficciona – que se apresenta corajosamente como narrador da sua novela, nada de novo na literatura universal – está fundamentado na realidade. Jénifer representa a vítima da nossa História, a inteligência dos que sempre sofreram o seu tempo e os nossos dias, dos que sofreram a terra dos capitães-generais, dos capitães-donatários, em que ainda hoje só servem para que na cabeça deles pousem as garças e os melros pretos em certas praças municipais nossas. A grande literatura portuguesa, principalmente a dos anos trinta, a de todos os nossos anos de chumbo, transfigurou do mesmo modo toda a sociedade portuguesa. No caso açoriano, insinuaram esses nossos supostos nobres fundadores, sempre e ainda figuras que nunca puseram os pés nas nossas ilhas, simplesmente receberam, herdaram, as terras que não eram deles e recriaram aqui os feudos aristocráticos da suposta mãe-pátria.

    Os homens e mulheres que hoje nos governam são diferentes? São. São os nossos governantes, agora sim, legitimados pela democracia centralizada em partidos políticos. Falta saber se a sua imaginação poderia ir um pouco mais além dos séculos da fundação – das caravelas que cá chegaram com os desgraçados e desgraçadas à beira do rio Tejo, e sem mais escolha no reino, os caídos no reino.

    Não sei de outras ilhas. Conheço as minhas, mais ou menos, como todos os outros. O que conheço do passado é da minha freguesia açoriana, de onde saiam quase todos os que podiam. Estamos nos anos 50, com caminhos de lama, com água sem ser tratada em depósitos para os que tinham a possibilidade mínima de esse “privilégio”, da eletricidade que ainda vi chegar às ruas e depois à casas mais ou menos de uma classe média sempre à rasca, de uma pequena elite que não conhecia na “cidade”, e agora sei que não queria conhecer, de um ano no Liceu Nacional de Angra do Heroísmo, sem saber que estava destinado aos crimes dessa mesma estirpe, quase toda ao serviço da então Ditadura Nacional. Enverguei, sem saber o seu significado, a farda da Mocidade Portuguesa que vesti aos doze anos de idade – era para que eu fosse mais um criminoso do regime dominado por um cidadão rural que calçava botas pretas e tinha vindo de uma aldeia qualquer. Agradeço à minha geração por ter desmontado na literatura toda esta farsa, demasiado universal, não só portuguesa. Agradeço ainda mais à geração que nos segue por não ter esquecido nem dar tréguas a nada desta história, agora numa democracia também viciada, oportunista, corrupta, ambiciosa e a querer ser dona de isto tudo, como agora se diz de outra figura de família muito “honrosa”, muito conhecida entre nós, e já sem memória de nada.

    A suprema novela de Joel Neto, Jénifer, ou a princesa da França, traz o subtítulo de As ilhas (realmente) desconhecidas. Sublinha o que restou a Raul Brandão e a Vitorino Nemésio dizerem. Escreveram o que hoje resta aos amados e e bem-vindos turistas – nada de mal nessa prosa de descoberta e saudosista nos anos 20 e 40. Só que a minha e as novas gerações de escritores têm outros projetos ou ideias em tudo que toca à nossa terra a meio mar, à terra de outros que quiseram e querem partilhar connosco por uns dias ou por toda a vida. A nossa nova elite já não vai passar despercebida, num caso ou outro respeitada, ou simplesmente como personagens do nosso riso e desprezo

    Eis a razão de toda arte. Recriar o que temos por realidade, reinventar a outra realidade que a maioria deseja, e que uma minoria ignora em proveito próprio, os nossos novos capitães-generais. Jénifer, ou princesa da França: As ilhas “realmente” desconhecidas é um dos mais eloquentes e belos testemunhos da vergonha da minha própria geração.

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Joel Neto, Génifer, ou a princesa da França: As ilhas (realmente) desconhecidas, Lisboa, Fundação Francisco Manuel Dos Santos, 2023.

BorderCrossings do Açoriano Oriental de 26 de janeiro de 2024.




sexta-feira, 24 de março de 2023

“Somos uns cínicos e vaidosos – começando por mim” 3/3


Uma Conversa com Joel Neto

       O que motivou esta entrevista inclui, como já referi em edições anteriores, o papel dos escritores, a temática da literatura e sociedade, da Educação, Cultura e Comunicação Social no combate por uma sociedade muito mais justa e igualitária. Nesta terceira e última parte da nossa conversa abordamos outros aspetos da já vasta obra de Joel Neto, sempre numa perspetiva do escritor consagrado e do seu impulso literário de nunca deixar de fora as questões sociais, económicas e culturais que definem o lugar de qualquer cidadão – personagens fictícias que simbolizam, por assim dizer, a condição existencial de cada um na sociedade que é a nossa, várias gerações que refletem a caminhada à procura da sua própria dignidade. “Todos os meus livros – diz-me – são, em larga medida, autoficção. Toda a literatura é, em alguma medida, autoficção. Tudo aquilo em que estou a trabalhar neste momento é, em fortíssima medida, autoficção”. 

     O seu mais recente livro, Jénifer, ou a princesa da França: As ilhas (realmente) desconhecidas, recentemente lançado aqui em Ponta Delgada, aborda diretamente todas estas questões sociais e literárias. 

*

     O que motivou o teu regresso aos Açores depois de uns bons e criativos anos em Lisboa, deixando uma obra jornalística nalguns dos nossos melhores periódicos nacionais, que aliás manténs a partir da Ilha Terceira?

     Vim para escrever o Arquipélago, sobretudo. Portugal afundava-se na infame crise financeira de 2008 (entre nós, 2011) e de repente eu olhei à volta e perguntei-me três coisas: até quando eu vou conseguir manter, enquanto escritor e jornalista, uma vida que me custa cinco ou seis mil euros por mês?; interessa-me verdadeiramente viver em Lisboa com menos dinheiro, sem gozar a cidade como deve ser, talvez até forçado a mudar-me para algum subúrbio indistinto?; e não será este o momento que eu esperava para escrever o romance que há tanto tempo prometi a mim próprio escrever, e que tenho vindo a substituir por livros mais ou menos dispersos, e sem coerência entre si?

     Foi o que fiz, e valeu a pena. Passei a dedicar-me inteiramente à escrita (embora incluindo crónicas de jornal), e os resultados corresponderam. Os meus livros sucederam-se, os leitores apareceram, a crítica reforçou-se. Entretanto, nunca deixei de ter encomendas dos jornais nacionais e, embora depois lhes tenha juntado alguma rádio (Antena 1), alguma televisão (RTP Açores) e basto podcasting (diferentes projectos), consegui sempre não depender da economia ou da administração pública locais. Nestes onze anos, fiz um ou outro trabalho para a iniciativa privada e (que me lembre) um trabalho para a Região, mas felizmente mantive sempre o grosso da minha subsistência dependente do mercado nacional. Isso deu-me muita liberdade, inclusive de intervenção e pensamento. E, como se tal não bastasse, a minha vida pessoal também deu um salto quântico: casei-me com a Marta, a mulher mais incrível que alguma vez conheci – uma terceirense das Fontinhas, imagina, da tua freguesia –, e os dois fomos, no último Outono, pais de um bebé bonito e saudável.

     É um milagre, tudo isto. Um milagre que devo em primeiro lugar a esta paisagem. E não penso voltar a partir. Sou muito feliz na Terceira, a cultivar o meu jardim, a escrever os meus livros e a cuidar da minha família. Só não me esqueço é que uns metros acima vivem dezenas de pessoas na pobreza extrema. E que uns metros abaixo vivem não dezenas, mas centenas de pessoas na indigência absoluta. Tenho uma vantagem: sou da Terra Chã e, aliás, nasci numa família de classe média-baixa que, com o passar das décadas, ainda empobreceu. Conheço entre os vizinhos, até entre familiares, diferentes graus de pobreza, e que em vários casos ultrapassam os limites da indignidade. Não posso ser indiferente. Não o conseguiria, mesmo que tentasse.

     O que distingue a tua geração literária nos Açores? Sentes que há continuidade com os da minha idade? Queres citar alguns nomes que são referências para ti?

 

Não cito nomes da minha geração. Nós somos peixes grandes porque vivemos num lago muito pequenino; se nos mudássemos para um lago grande, a nossa pequenez tornava-se logo muito evidente. Portanto, temos todo o interesse em acompanharmo-nos uns aos outros, mas não devemos ser mais do que vagas coordenadas uns dos outros. As nossas referências têm de ser os grandes escritores da história da humanidade. Os clássicos fundadores. Os grandes narradores. Os homens de coragem. Salman Rushdie acaba de levar 20 facadas e de perder um olho por escrever um livro inofensivo, ser alvo de uma fatwa e, ao fim de uma década a fugir, ter decidido viver livremente em Nova Iorque, sem seguranças e sem medo. Já nós nem contra as injustiças de um sistema político e social cujos resultados são estes levantamos a nossa voz – para não arranjarmos inimigos, para não perdemos uma homenagem, para não ficarmos sem um subsídio. 


     Portanto, o que distingue a minha geração, do ponto de vista literário, não sei exactamente. Não sou crítico, e ademais sou um leitor anárquico. As sistematizações que faço são em favor do meu trabalho, que é o da ficção, o da insanidade. Se há um padrão que encontro, é esse. Os escritores açorianos da tua geração resistiram a uma ditadura, embora de forma desigual, e depois empenharam-se em erguer todo um edifício temático, melódico e até lexical de que, no fundo, resultou (em parte) a própria consolidação da autonomia, da qual eles foram ao mesmo tempo bardos e compositores. Disso somos todos herdeiros, com certeza: desse universo de que Antero é o avô, Nemésio é o pai, o João é o filho pródigo (etecetera). De resto, somos uns sobreviventes cínicos e vaidosos – a começar por mim.

     Há espaço no teu pensar e escrita para algum otimismo quanto ao rumo da sociedade açoriana? A nossa comunicação social está a desenvolver o seu papel quanto à discussão cívica sobre estes problemas que te preocupam a ti e a muitos outros?

      Por definição, a comunicação social é sempre resultado da sociedade para que comunica. Com a sociedade depauperada que temos, não podíamos ter melhor comunicação social. Em muitos aspectos, a nossa comunicação social é até melhor do que merecemos. Mas só agora, ao fim de muito esforço, começa a despertar para esta urgência.

     Esperança, tenho. Se não, não intervinha – escrevia os meus livros e marimbava-me para o resto. Mas, neste momento, vivemos uma autêntica alucinação colectiva. Ao fim de 47 anos de autonomia, e com os índices de desenvolvimento humano que conseguimos com os milhares e milhares de milhões de euros que a Europa nos deu, a única coisa que nos ocorre fazer é exigir o reforço dos poderes autonómicos. Eu acho que não estamos bons da cabeça.

       A autoficção, termo muito em voga nos últimos anos e premiado o ano passado com o Nobel atribuído à obra de Annie Ernaux, diz-te alguma coisa? Que romances teus, se alguns, colocarias dentro desta classificação crítica e temática? 

     Todos os meus livros são, em larga medida, autoficção. Toda a literatura é, em alguma medida, autoficção. Tudo aquilo em que estou a trabalhar neste momento é, em fortíssima medida, autoficção.

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    Joel Neto, Jénifer, a princesa da França: As ilhas (realmente) desconhecidas, Lisboa, Fundação Francisco Dos Santos, 2023.

BorderCrossings do Açoriano Oriental, 24 de março de 2023.

sexta-feira, 17 de março de 2023

“Somos uns cínicos e vaidosos – a começar por mim” - 2/3

 

Uma Conversa com Joel Neto 

     Nesta segunda parte da minha conversa Joel Neto abordamos outros aspetos da sua já vasta obra, sempre numa perspetiva do escritor consagrado e do seu impulso literário de nunca deixar de fora as questões sociais, económicas e culturais que definem o lugar de qualquer cidadão – personagens fictícias que simbolizam, por assim dizer, a condição existencial de cada um na sociedade que é a nossa, várias gerações que refletem a caminhada à procura da sua própria dignidade. “Todos os meus livros – diz-me no último passo desta entrevista, que será publicado na próxima semana – são, em larga medida, autoficção. Toda a literatura é, em alguma medida, autoficção. Tudo aquilo em que estou a trabalhar neste momento é, em fortíssima medida, autoficção”.

*

 A tua extensa obra ficcional tem, para mim, o grande romance Arquipélago no centro do cânone literário de toda uma geração que se segue à minha. A ficção volta a ter de abordar a temática social em linguagens artísticas?

     Fico grato pela qualificação, ademais vinda de quem vem. Não é uma visão em que eu me detenha, mas evidentemente sensibiliza-me. O Arquipélago é um livro com muito significado para mim: porque é o livro em que, no fundo, eu já estava a trabalhar com todos os livros que publiquei até então; porque catalisou o meu regresso aos Açores, a melhor decisão pessoal que alguma vez tomei; porque gerou à volta do meu trabalho uma comunidade de leitores que ainda hoje me acompanha; e, sobretudo, porque é nele que eu tento levar mais longe a decifração do que significa esta paisagem dos Açores, do que significa este povo e do que significa o olhar que eles produziram em mim. O facto de ter recolhido atenções entre a comunicação social e a crítica é, digamos, um complemento (muito) feliz.

     E, sim, já estão lá as minhas preocupações sociais. Ao longo de todo o livro, e em particular num infame almoço em que, determinado a perceber as ilhas de que é originário e a que agora regressa, José Artur Drumonde se reúne com o advogado João de Brito e este lhe sugere: «E agora o senhor professor vai chegar a casa, vai ligar o computador e vai abrir o site do Instituto Nacional de Estatística. Vai conferir todos os rankings de subdesenvolvimento humano que lhe ocorrer: analfabetismo, alcoolismo, abuso sexual, violência doméstica, gravidez precoce, insucesso e abandono escolar, desemprego, pobreza persistente… E a seguir vai ver qual é a região portuguesa que, hoje em dia, está à frente em todos eles. (...) É nessas ilhas que o senhor professor se propõe viver. E eu só quero que perceba bem que lugar é esse e do que se alimenta o sistema em vigor. Ou a sociedade, se preferir um eufemismo. Leia um pouco sobre a história da Córsega e veja como tudo começou.»

     Mas, claro, o romance é extenso, e muito mais se atravessa no caminho tanto de José Artur Drumonde como do leitor. De certa maneira, parte do que estou a fazer agora, com os ensaios e com a Jénifer, é isolar essa matéria para poder iluminá-la como deve ser. Até porque, infelizmente, os números são hoje mais perturbadores ainda. Alguns deles pioraram em termos absolutos e quase todos restantes pioraram em termos relativos. Em geral, os Açores estão hoje ainda mais evidentemente atrás das médias nacionais. A crise financeira atrasou-nos e, agora, a crise sanitária acentuou esse atraso, como o provam os últimos dados relativos ao chamado risco de pobreza. O que vai acontecer com a crise inflacionista, portanto, não é difícil de adivinhar.

     

Agora, se a literatura tem realmente de reflecti-lo, disso já não estou certo. O escritor, enquanto escritor – repito –, não pode ser-lhe indiferente. Já os livros propriamente ditos estão sempre para além do escritor. Os livros pertencem em primeiro lugar às suas personagens e em último lugar aos seus leitores. O escritor é um intérprete, um veículo, o operador dessa máquina diabólica a que poderia talvez chamar-se intuição. Entretanto, às vezes as personagens tomam as melhores decisões. Foi o que – creio – fez a ‘Jénifer’. Assim que deu por si na posse de suficientes contornos, meteu os pés à parede e proclamou: não saio daqui enquanto não contares a minha história. Fez bem. Estou convencido de que é uma das minhas melhores personagens e que este é um dos meus livros mais importantes – a par do Arquipélago, dos volumes de A Vida no Campo e do Meridiano 28.

     Tiveste num passado recente uma experiência nos bastidores de um dos nossos partidos políticos, creio que como assessor ou conselheiro, sobre muitas destas questões que envolvem miséria e desigualdade nestas nove ilhas. Onde colocas a Educação e Cultura como arma de combate ao que entendes ser inaceitável numa sociedade moderna e aberta?

     Tive uma participação como coordenador do programa eleitoral e de Governo do PSD-Açores, no ciclo 2012-2016, e foi um desastre por uma série de razões. Primeiro, a actividade político-partidária resulta sempre mais ou menos deplorável; depois, a actividade político-partidária resulta sempre especialmente deplorável nas sociedades ocidentais, cínicas e entediadas, onde a agenda pessoal se sobrepõe a qualquer quimera em favor do bem comum; depois, o PSD é sempre um saco de gatos; depois, o PSD-Açores está cheio de caciques paroquiais semi-letrados, à volta dos quais serpenteia meia dúzia (se tanto) de líricos, efectivamente bem-intencionados, na expectativa de uma conjuntura humana; e depois ainda – o que provavelmente até foi o mais importante de tudo – as distâncias ideológicas entre nós eram insanáveis.

     O PSD-Açores é ainda mais conservador do que o PSD nacional, como aliás os Açores são mais conservadores do que o país. Como eu escolhi a equipa das áreas sociais e culturais e (por desconhecimento dos possíveis contribuintes) aceitei a equipa escolhida pela direcção do partido para as áreas económicas e financeiras, o programa resultou esquizofrénico: socialmente, era de centro-esquerda, como eu; economicamente, era de direita, como o partido. Naturalmente, podia perguntar-se o que estávamos, afinal, a fazer juntos, eu e o PSD. Mas na altura eu acreditava que, desde que nos mantivéssemos dentro do espectro democrático, o mais importante era interromper o ciclo político em curso, já a caminho dos 20 anos. Além de que, vindo de Lisboa, era menos responsável ideologicamente do que a realidade dos Açores me tornou.

Os resultados, claro, foram desastrosos. Mas nunca me esqueci de como em todas as filas à minha frente, sempre que subia ao púlpito e tornava a alertar para a tragédia humana que o agravamento dos nossos índices de desenvolvimento ia desenhando, havia militantes revirando os olhos: outra vez a mesma conversa? A única coisa que me traz algum alento é que, entre os poucos que não o faziam, estavam Duarte Freitas e José Manuel Bolieiro. Que me decepcionaram, naturalmente, no dia em que assinaram um acordo com a extrema-direita, mas que em todo o caso sei terem o coração no lugar.

     Quanto ao lugar que a Cultura deve ocupar na estrutura governativa, e nomeadamente como arma de combate à indigência (social e não só), é central. O primeiro passo em qualquer tentativa de inverter esta rota desastrosa será o de dizer aos açorianos todos, e em especial aos mais pobres: vocês não precisam de viver nesta miséria, e aliás não deviam viver nesta miséria. Agora, para que eles consigam – para que nós consigamos! – percebê-lo, é precisa desde logo um mínimo de cosmovisão, de mundividência. A Cultura é, portanto, o primeiro de todos os passos – a ideia de justiça, a noção das proporções. E a seguir vem a Educação, a que ela deve estar inextricavelmente ligada. Elas são os únicos motores de arranque possíveis para a corrida de fundo que precisamos de empreender. Faz sentido estarem juntas, e a decisão do Governo de  mudar a Direcção Regional de Cultura (agora “dos Assuntos Culturais”, e mal) para o âmbito da Secretaria Regional de Educação e Cultura foi inteligente. 

     Só que a nomeação do director regional foi entregue ao PPM, ao qual se entregariam sempre as nomeações menos importantes. Só isso já foi mau sinal. Como se não bastasse, o PPM nunca conseguiu produzir um quadro sólido para a tarefa, pelo que vamos com dois anos de Governo e a caminho do terceiro director – e com a secretária regional não só incapaz de resolver o problema com celeridade, mas inclusive concentrada em exclusivo na Educação. Este Governo tem tomado boas e más decisões, tem tido fracassos e sucessos. O futuro há-de ajudar-nos a fazer a melhor historiografia deste tempo. Mas uma avaliação, pelo menos por este mandato, já não se vai conseguir mudar: os seus resultados na Cultura são um desastre.

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    Joel Neto, Arquipélago, Lisboa, Marcador Editora, 2O15.

BorderCrossings do Açoriano Oriental, 17 de março de 2023.

    

sexta-feira, 10 de março de 2023

“Somos uns sobreviventes cínicos e vaidosos – a começar por mim” - 1/3

Uma Conversa Com Joel Neto

     Por certo que  Joel Neto, um dos mais distintos escritores e jornalistas açorianos, a residir na sua Ilha Terceira após uma estadia em Lisboa durante mais de vinte anos, não necessita de uma única palavra minha como apresentação nesta entrevista, que mantive com ele por escrito. Conhecido também pelo seu inabalável compromisso com a luta contra a pobreza no nosso arquipélago, acaba de publicar uma novela que aborda de modo artístico toda esta questão dramática entre nós – Jénifer, ou a princesa da França. Aliás, vem num seguimento de quase toda a sua obra, tal como o leitor descobrirá nas palavras que se seguem. O que motivou esta entrevista inclui, pois, o papel dos escritores, da Educação, Cultura e Comunicação Social no combate por uma sociedade muito mais justa e igualitária. Numa segunda e terceira partes desta conversa abordamos outros aspetos da sua já vasta obra, sempre numa perspetiva do escritor consagrado e do seu impulso literário de nunca deixar de fora as questões sociais, económicas e culturais que definem o lugar de qualquer cidadão – personagens fictícias que simbolizam, por assim dizer, a condição existencial de cada um na sociedade que é a nossa, várias gerações que refletem a caminhada à procura da sua própria dignidade. “Todos os meus livros – diz-me no último passo desta entrevista, que será publicado nesta sequência – são, em larga medida, autoficção. Toda a literatura é, em alguma medida, autoficção. Tudo aquilo em que estou a trabalhar neste momento é, em fortíssima medida, autoficção”. Fiquemos por agora nesta primeira parte, um testemunho arrebatador do seu trabalho contra o que considera ser a miserável realidade de se ser pobre nos Açores, de uma vida de indigência, que para outros parece nunca mais ter saída. 

     O facto do seu presente livro, a ser lançado brevemente também em Ponta Delgada, ter sido publicado pela prestigiada Fundação Francisco Manuel Dos Santos, diz muito. Está integrado numa coleção intitulada “Retratos”, que congrega alguns dos melhores escritores portugueses da atualidade.

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     O teu recente e longo ensaio no Expresso sobre a pobreza nos Açores impressionou muitos leitores aqui nas ilhas. Digo “ensaio” porque esse trabalho é algo mais do que um “artigo”. Um reconhecido escritor como tu sente a necessidade de intervir mais na nossa sociedade?

     Mais do que a necessidade, sente a obrigação. Ou devia sentir. Como já escrevi noutro espaço, o silêncio é cúmplice, e o escritor nunca é cúmplice. Evidentemente, está no seu direito constitucional, enquanto pessoa, de calar a boca, seja por conveniência pessoal, seja por preguiça, seja por outro motivo qualquer. Não o digo com moralismo: acredito tanto na cidadania passiva como na cidadania activa. Cada um faz o que quer – até a abstenção, para mim, é um exercício democrático tão legítimo como os outros (embora, em escala, seja também um sinal de inércia social). Mas, quando se cala perante a injustiça, um escritor está a demitir-se do papel de escritor. Deixa de ser um escritor.

     

     Eu não vou deixar de ser um escritor perante a realidade da pobreza nos Açores. Os números são tenebrosos. Regularmente ou em permanência, somos a primeira região do país no incesto, no abuso sexual, na violência doméstica, na gravidez na adolescência, nos crimes contra as pessoas e no ritmo de crescimento da criminalidade violenta (71% de crescimento em 2021); somos a primeira região do país no analfabetismo, no insucesso escolar, no abandono escolar precoce (o triplo da média nacional e a maior taxa da Europa) e no défice de consumo cultural; somos a primeira região do país no alcoolismo, na obesidade infantil, na diabetes, no suicídio jovem, na mortalidade infantil, na produção e consumo de drogas sintéticas e, evidentemente, na baixa esperança média de vida; somos a primeira região do país no desemprego, na taxa de pobreza (o dobro da taxa nacional), no risco de pobreza, na desigualdade na distribuição dos rendimentos, na exclusão social e no défice de ascensor social; somos a primeira região do país na dependência do RSI, no assistencialismo e na subsidiodependência em geral; e somos a primeira região do país na taxa de abstenção e no défice de participação cívica das mulheres. 

     Portanto, chamamos-lhe “pobreza”, mas é muito mais do que isso. É a economia, mas é também a educação, é também a saúde, são também as violências, é também a participação cívica – e cada uma delas nas mais variadas dimensões. Não falo de avaliações subjectivas, nota. Isto não são impressões pessoais minhas: são estatísticas oficiais, coligidas e/ou reflectidas pelo Serviço Regional de Estatística dos Açores, pelo Instituto Nacional de Estatística, pela Pordata, pelo Eurostat, pela OCDE, pelo PNUD. Vêm todos os dias nos jornais, embora durante anos ninguém as tenha ligado ou sistematizado. Portanto, pode dizer-se pelo menos que ainda não conseguimos vencer este paradoxo: à autonomia dos Açores correspondeu tudo menos a autonomia dos açorianos – das pessoas (ou de muitos milhares de pessoas). 

     Temos a sociedade mais jovem do país como África tem as sociedades mais jovens do planeta. Um em cada quatro dos nossos jovens dos 15 aos 34 anos não trabalha nem estuda. Entretanto, a toxicodependência cresce sem controlo, as violências crescem sem controlo, a corrupção cresce sem controlo. E eu não vou olhar para trás, ao chegar a velho, e dizer de mim mesmo: “Habituaste-te ao conforto material e aos elogios da sociedade do teu tempo, e calaste-te como um rato.” Nem o meu filho recém-nascido vai olhar para mim um dia e dizer: “Calaste-te como um rato.”

Naturalmente, isto tem custos pessoais, sociais, até (eventualmente) económico-financeiros. Tenho sido alvo de telefonemas, insinuações e esforços de “sensibilização”, alguns até cómicos, desde logo porque vêm muitas vezes de gente dita de esquerda – inclusive de autoproclamados herdeiros da Revolução, daqueles que no 25 de Abril sobem ao palco para cantar a Grândola e acender uma velinha “ao Zeca”. Lamentam que, tanto com o ensaio no Expresso como com a publicação de Jénifer, 

ou a princesa da França, na colecção Retratos da Fundação Francisco Manuel dos Santos, eu esteja “a dar uma má imagem dos Açores”. Isto é: como se a imagem dada do arquipélago fosse mais importante do que qualquer esforço de alerta para os (ou socorro aos) que vivem na indigência.

     Enfim, é o kitsch de que nos falava Kundera, “a negação absoluta da porcaria, de tudo o que a vida tem de essencialmente inaceitável”. Se ignorarmos a porcaria com toda a força, talvez ela pareça menos verdade. Mas, numa altura em que caminhamos a passos largos para o 50.º aniversário do 25 de Abril, e depois deste para o 50.º aniversário da Autonomia, deixem-me pelo menos perguntar: até onde nos trouxeram a democracia e a autonomia? Até onde nos levaram? 

Bom, em muitos aspectos, levaram-nos a um novo lugar. Para muitas pessoas, vive-se muito melhor nos Açores, hoje, do que se vivia em 1974 ou 1976. Só as infra-estruturas já fazem imensa diferença, e não são só elas. Mas, ao mesmo tempo, só alguns têm direito a essa nova vida. Há milhares de famílias para as quais continua a não existir saída. Os Açores são o melhor sítio que conheço para a classe média viver; os ricos, evidentemente, vivem tão bem nos Açores como em qualquer outro lado do mundo; já ser pobre nos Açores é uma fatalidade, uma condição de que simplesmente não se consegue sair. Até porque, ainda por cima, os ciclos políticos são longuíssimos.

     A verdade é esta: milhares, dezenas de milhares de crianças, adolescentes e jovens destas ilhas jamais conseguirão suplantar a condição social dos seus pais. Não existe elevador social. E isso é tão mais absurdo quanto há quase 40 anos temos uma torneira de dinheiro europeu a jorrar no quintal. Para quê? Precisamente para desfazer as desigualdades: as desigualdades dos entre os Açores e as restantes portuguesas e europeias (que continuam a agravar-se); e as próprias desigualdades entre açorianos (que, na melhor das hipóteses, estão estagnadas). Há mais de dez anos que escrevo sobre isso, e durante uns bons oito anos ninguém ligou. Entretanto, sinto-me aliviado por o tema estar, finalmente, a entrar na agenda política regional. Tiro o meu chapéu a José Manuel Bolieiro, que fez dele bandeira programática. Mas as palavras são sempre o mais fácil. Falta-nos dar todos os restantes passos.

     Ser um democrata e um autonomista também é exigir melhor democracia e melhor autonomia. Nenhuma delas pode resumir-se a uma proclamação constitucional.

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   Joel Neto, Jénifer, ou a princesa da França: As ilhas (realmente) desconhecidas, Lisboa, Fundação Francisco Manuel Dos Santos, 2023. 

BorderCrossings do Açoriano Oriental de 10 de março de 2023.