Mostrar mensagens com a etiqueta Carlo Matos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Carlo Matos. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Ainda Carlo Matos e o reencontro com as suas raízes açorianas

    

    Carlo Matos é um autor bi+/poly que publicou 13 livros, incluindo We Prefer the Damned (Unbound Edition Press) e As Malcriadas: or Names We Inherit (New Meridian, 2022). Os seus poemas, contos, ensaios e recensões têm saído em inúmeras publicações. Os seus livros foram recenseados em publicações como Kirkus ReviewsBoston ReviewIowa Review e Portuguese American Journal. Carlo recebeu bolsas e apoios da Disquiet ILP (Portugal), CantoMundo, Illinois Arts Council, Sundress Academy for the Arts e La Romita School of Art (Itália). É membro fundador do coletivo de escritores luso-americanos Kale Soup for the Soul e vencedor do Heartland Poetry Prize. Vive atualmente em Chicago, é professor nos City Colleges of Chicago e foi lutador de MMA e kickboxer. A nossa conversa foi feita por escrito, com trocas continuadas a propósito desta entrevista. Nesta versão para o Açoriano Oriental parte da resposta que se segue foi cortada a favor do espaço desta página.

*

    Na minha recensão  A School for Fishermen, publicada aqui nos Açores, escrevi: “Fishermen do açor-americano Carlo Matos é uma viagem persistente por geografias vividas e imaginadas, uma narrativa com várias vozes, todas elas ligadas a uma mesma família que tenta apaziguar a ansiedade provocada pelas sombras de um certo passado, tanto em dias luminosos como em tempos mais sombrios...” Como chegou a esta necessidade artística?

    Costumo dizer que Fishermen é o tipo de livro de poesia que um dramaturgo poderia escrever. Embora tenha começado como poeta, apaixonei-me pelo teatro muito cedo na faculdade, e apaixonei-me a sério. Ao contrário da poesia, tive quase sucesso imediato (na medida em que isso existe) no teatro, enquanto lutei por anos para escrever poemas suficientemente bons para serem publicados. Acho que isso se deve, em grande parte, a todas as ideias erradas sobre poesia que herdei de filmes, séries de televisão e até de alguns professores bem-intencionados. Não tinha os mesmos preconceitos em relação à escrita dramática, por isso não tive de perder tempo desaprendendo maus hábitos.

    Curiosamente, o meu pai também escreveu peças quando era jovem, e eu sempre estive envolvido em teatro como intérprete, por isso, o teatro fazia parte da cultura da minha família. Não é que os meus pais fossem propriamente apoiantes da minha presença em palco, mas também não resistiam nem denegriam — o que, em minha casa, era o mais próximo de apoio que se podia ter. Ainda assim, nunca tinha escrito uma peça antes da universidade.

    Mais ou menos na mesma época em que escrevia, encenava e produzia peças, consegui pôr as mãos em Fernando Pessoa & Co., de Richard Zenith. Se não me engano, cronologicamente, terminei a minha primeira peça em 1997 e o livro do Zenith saiu em 1998. Estava há uma vida à espera de encontrar um livro de poesia portuguesa em tradução. Consigo ler português, mas muito mal, e nunca seria capaz de lidar com poesia ou prosa sofisticada com alguma fluência.

    

    Um dos meus cursos académicos é em teatro, e os outros, em literatura; por isso, estudei incontáveis autores europeus. A minha tese de doutoramento, por exemplo, foi sobre Henrik Ibsen. Na escola, estudei escritores de toda a Europa, mas nenhum de Portugal (ou de descendentes de portugueses). Nenhum! No secundário, lemos muitos autores da “lost generation” como Hemingway e Fitzgerald, mas não Dos PassosManhattan Transfer é um livro excelente, mas tive de descobri-lo sozinho. Ninguém mencionou que Emma Lazarus, a autora do célebre poema da Estátua da Liberdade, também era de ascendência portuguesa. E eu cresci num lugar cheio de portugueses; por isso, o que se passava ali? Porque é que passava todo o meu tempo a ler, sobretudo, escritores ingleses?

Não me interprete mal: ainda adoro muitos desses escritores; gostar ou não gostar deles não é a questão. A questão é que os escritores do país de onde vem a minha família foram praticamente apagados do currículo das minhas várias escolas. Ainda hoje, embora esteja muito melhor, o número de livros traduzidos para inglês é relativamente pequeno comparado com escritores de outros países. Foi preciso o Saramago ganhar o Nobel, em 1998, para as coisas começarem, finalmente, a mudar a sério.

    O livro do Zenith foi o que eu queria há tanto tempo. E o Pessoa, claro, é um escritor selvagem à partida, tornando as explorações de persona de poetas como Eliot e Pound em brincadeira de criança. As heteronímias de Pessoa conduziram-me indiretamente à ideia de escrever poemas de persona por meio da dramaturgia. Dessa forma, podia escrever sobre os temas que vinha explorando há anos, mas a partir de uma perspetiva mais distanciada. Eu ainda era um homem muito jovem quando comecei a escrever os primeiros poemas que viriam a constituir Fishermen. Os poemas mais antigos dessa coletânea datam de 1998, quando eu ainda estava no penúltimo ano da faculdade. Precisava de sair da minha frente, por assim dizer, e fiz isso criando personagens como fazia nas minhas peças.

    João Filipe — a voz de “Stonemasonry” — torna-se pedreiro, como o meu pai, e desenvolve, por assim dizer, toda uma metafísica em torno da construção e destruição de muros. Eu também tentava associar a cantaria a outras formas de conhecimento esotérico: o pedreiro como maçom ou outra espécie de sociedade secreta que diz guardar saberes ocultos.

    A voz do Filipe surgiu quase totalmente formada. Foi um daqueles raros momentos quase místicos de que costumo desconfiar. Não é que não faça espaço para o acaso; simplesmente não tenho paciência para o misticismo levado demasiado a sério. Parte do trabalho de escrever é estar aberto ao acaso, estar aberto à musa, por assim dizer, mas há uma diferença entre isso e ficar sentado à espera de que algo venha do nada. Se ficarmos à espera da musa a sussurrar-nos ao ouvido, como ainda é tão habitual nas dramatizações populares de artistas e escritores, nunca fazemos trabalho nenhum, ou, pelo menos, não muito...

    Uma das minhas obsessões da chamada “meia-idade”- middle age - é a ideia de ter os sonhos errados. Não sei como é nos Açores, mas na América a noção popular de sucesso é patológica. Ensinaram-nos a nunca desistir. Ouvimos esta frase, nunca examinada, em todos os contextos imagináveis. Há algum mérito nisto, claro. Não podemos queixar-nos de falta de sucesso se não nos dedicamos de forma suficiente ao trabalho duro de lá chegar; contudo, também há perigo nesta ideia. Se nunca desistirmos, aconteça o que acontecer, nunca poderemos distinguir as buscas que valem a pena das que devemos abandonar. Há uma diferença entre trabalhar arduamente e passar a vida a bater a cabeça numa porta fechada até ficarmos em sangue...

    A minha coleção de ensaios breves, The Quitters, lida com a ideia de falhar e desistir repetidas vezes, tentando mostrar como esse “nunca desistir” se torna uma ideia cancerígena, em vez de um caminho para o sucesso.

    Mas a minha primeira abordagem séria desta ideia deu-se com o Felipe. Ele debate-se com os seus muitos fracassos internalizados, alguns já ligados à sua queeridade escondida, que se tornaria um tema central anos mais tarde em We Prefer the Damned. Ele tem uma paixão por um novo heterónimo que inventei, o filho de Alberto Caeiro, o verdadeiro “guardador de rebanhos”. Quis acrescentar o meu heterónimo ao panteão do Pessoa. Foi a minha maneira de me situar na tradição literária do modernismo português. Com algumas referências a Camões e ao fado, foi uma das primeiras tentativas de me ligar a coisas portuguesas para lá da minha experiência pessoal.

    Curiosamente, a árvore genealógica, no início do livro, foi uma das últimas coisas a surgir. Não foi ideia minha, gostava muito que tivesse sido. Veio de um dos meus melhores amigos da altura, que tinha lido praticamente tudo o que eu escrevera até então. Percebi imediatamente que era a ideia certa. Colava tudo.

    Este livro demorou 10 anos do começo ao fim, e foi a minha primeira tentativa de pôr um pé nos Açores e outro nos Estados Unidos, como um colosso. E, como a estátua grega original, sabia que, quando tudo estivesse dito e feito, o mais provável era que só sobrassem uns pés desmembrados para marcar que alguém tinha estado ali, quem quer que fosse.

___

  De Gávea-Brown, VOL. L, N.º 2, 2025. Tradução de Diniz Borges. Agradecemos à Gávea-Brown e ao seu diretor Onésimo T. Almeida por permitir que a plataforma Filamentos a publicasse.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental, 19 de dezembro de 2025

 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Parte de uma longa conversa em inglês com o escritor luso-americano Carlo Matos para a revista Gávea-Brown numa tradução de Diniz Borges

 

Como está a viver, enquanto escritor, a situação política e cultural atual nos Estados Unidos?

    Não creio que o surpreenda se disser que é um pesadelo. Custa-me acreditar que um país tão obcecado com a Segunda Guerra Mundial se encontre agora a descer na loucura do fascismo e do totalitarismo, mas uma parte de mim sempre soube que a narrativa superficial da democracia era apenas uma cobertura num bolo de racismo, guerra de classes e suposta supremacia branca. Um país “bem-sucedido” – o que quer que isso signifique – acaba sempre por cansar-se de si próprio e auto-devorar-se. Acordo todos os dias sabendo que haverá mais disparates para enfrentar e, de repente, tudo passou de absurdo a assustador, como suponho acontecer sempre nestes casos. É a pior espécie de paralisia, porque toda a gente sabe onde isto acaba e, no entanto, quase ninguém faz grande coisa. Quando actores e apresentadores de concursos se tornam figuras políticas, é sinal de que os dias estão contados. Fomos tão bons a criar repúblicas de bananas que, de alguma forma, acabámos por nos tornar uma. Há nisto um certo tipo de poesia, suponho. Pela primeira vez na vida, considerei seriamente obter a dupla cidadania e mudar-me para os Açores, mas é fácil dizer isso. A vida real é bem mais complexa do que fugir. Pensei muitas vezes em reformar-me nos Açores, mas falta pelo menos uma década para isso. Nos últimos cinco ou seis anos, tenho trabalhado no meu segundo romance, In the Alien Field. É um desvio em relação à maior parte da minha obra, na medida em que é a minha incursão na ficção especulativa. À superfície, é uma história de vampiros contra alienígenas, mas o livro não trata disso. O livro é uma fantasia utópica. Estou farto de distopias. Vivemos numa, por isso não sei que valor tem de continuar a repeti-las, sobretudo quando, no fim, a humanidade encontra sempre uma forma de se tornar a heroína. Se eu tivesse escrito Terminator ou The Matrix, não haveria sequelas, porque os humanos teriam perdido — e, com o que a IA está a fazer ao nosso mundo, ainda podemos perder essa batalha, custa-me dizer. O meu romance centra-se numa comunidade de vampiros chamada Bruxa. A sociedade bruxa é tudo o que eu desejaria que o nosso mundo fosse. É uma cultura não hierárquica, poliamorosa, areligiosa e bissexual, devotada à arte, à música, à filosofia e a todas as coisas desta vida que têm valor real. Chamam-se bruxas porque chegaram aos Açores com os portugueses. Assumiram traços culturais e linguísticos dos colonos e se escondem à vista de todos. No meu romance, são eles que fundam a povoação de Mosteiros, que, como sabe, é de onde vem a minha família. Estes não são os vampiros pálidos, sedentos de sangue, mortos-vivos sensíveis ao sol que vemos em filmes e livros. Estão bem vivos. Comem comida normal, reproduzem-se como a maior parte dos animais e não são repelidos por crucifixos, água benta ou luz solar. Sim, bebem sangue, e é o sangue que lhes confere imortalidade, mas é a única ligação à tradição dos vampiros a partir de Bram Stoker. Os alienígenas, por sua vez, também não são monstros. A sua característica definidora é ser silenciosa e inescrutável. Os aliens nem sequer conquistam a Terra no sentido convencional. Chegam e encontram o planeta devastado, em ruínas, pois uma praga global matou quase toda a humanidade. Fui profundamente influenciado pela pandemia quando comecei a escrever este livro. Os aliens limitam-se a aproveitar a oportunidade e iniciam um projeto para reparar os estragos causados pelos humanos no ambiente. Em meros 50 anos, transformam o planeta num paraíso natural, algo que as bruxas chamam de Renovação. Fazem-no para cultivar, num ambiente saudável, a sua planta misteriosa. As bruxas estão finalmente livres do medo de serem caçadas e mortas por humanos e vivem num mundo que já não se encontra permanentemente à beira do colapso. E os humanos? Há alguns, uma fração minúscula, que sobreviveram, mas trabalham nas quintas alienígenas, já sem serem senhores do planeta nem de seus destinos. O único motivo de conflito entre bruxas e alecrim (como chamam aos aliens) é o facto de as bruxas precisarem de sangue humano para manter a imortalidade. Não posso dizer muito mais sem revelar demasiado. Estou perto de terminar o livro e impressiona-me perceber quanta realização de desejo está ali. A cultura bruxa é o lugar onde eu pertenceria, mas não creio que exista, neste mundo, uma cultura assim. E o meu país afasta-se cada vez mais disso, tornando-se mais grosseiro, ganancioso, cruel, anti-intelectual e hipócrita. Sempre foi um lugar difícil para um artista, pois confunde o quanto algo rende com a qualidade, e sabemos que essa relação muitas vezes é inversa. Não digo que uma boa arte não possa fazer dinheiro – às vezes faz – mas quanto dinheiro algo faz não é medida de mérito artístico. É por isso que hoje há pessoas famosas por serem famosas, e não por fazerem ou criarem algo.

Vamberto, Alex e Carlo Matos
Quando fomos visitar (os Açores), o Alex disse que gostava do meu trabalho porque era sofisticado, tal como lhe afirmaste. Não tem ideia do que isso significou para mim. Acho de um cansaço extremo ser constantemente considerado – mesmo em críticas muito positivas – um escritor difícil, críptico ou obtuso. Não digo que explique tudo, porque não explico, mas o meu trabalho está bem longe de ser críptico. O meu filho adora The Quitters, por exemplo, e tinha 15 anos quando o leu. Senti que estava a ser dolorosamente óbvio em We Prefer the Damned, muito mais do que me agrada, mas isso não alterou a minha perceção crítica. As redes sociais pioraram isto porque o nível de “dificuldade” para o entretenimento popular é hoje ainda mais baixo. Os criadores sabem que estão a falar para um público provavelmente ao telemóvel, por isso reduzem tudo a pedacinhos digeríveis, para que o espectador distraído não perca o fio. O que se ganha, para além de uma simplificação perturbadora, é um diálogo que, basicamente, volta a dizer o que a imagem já mostra. É como ver um filme ou uma série numa câmara de eco. Torna-se rapidamente tedioso, a interatividade perde-se, o envolvimento intelectual esvai-se e os efeitos emocionais são superficiais. O problema do meu romance, além de oscilar de forma perigosa entre obra literária e ficção especulativa, é que a minha única resposta ao nosso dilema é a humanidade praticamente se extinguir. Não é solução nenhuma. Talvez nem seja particularmente produtivo; não sei.

O que torna tudo isto tão enlouquecedor é o facto de ser completamente desnecessário. Não há, agora, nem há muito, qualquer justificação para a disparidade de rendimentos que está na raiz de tantos dos problemas que enfrentamos. Não há razão para trabalharmos tanto. Não há razão para inventar todos os cargos administrativos desnecessários para manter um sistema que já não funciona. Quando os industrialistas rasgaram as promessas feitas aos trabalhadores, ao confiscarem para si os ganhos da mecanização, condenaram-nos a esta farsa ridícula. À data de hoje, devíamos todos estar a trabalhar um mínimo de horas e o resto do tempo a viver experiências significativas, enquanto a IA e as máquinas tratavam do grosso. Mas, quando a imaginação se empobrece, esta ideia pode ser mais assustadora do que trabalhar até cair. Caso contrário, não entendo o que estamos a fazer – e provavelmente nunca entenderei.

_____

De Gávea-Brown, VOL. L, N.º 2, 2025. Tradução de Diniz Borges. Agradecemos à Gávea-Brown e ao seu diretor Onésimo T. Almeida por permitir que a plataforma Filamentos a publicasse.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental, 12 de dezembro de 2025.

 

sexta-feira, 12 de julho de 2024

O grande salto literário de Carlo Matos


Disse a todos que eu era
gay, o que não é exatamente verdade mas também não é mentira.

Carlo Matos, As Malcriadas or Names We Inheret

    O romance As Malcriadas or Names We Inheret/As Malcriadas ou Nomes que Herdamos, do luso-americano Carlo Matos (com raízes muito próximas ali nos Mosteiros), é, simplesmente dito, magnífico. Consegue a um tempo ser um grande contributo para a nossa Tradição literária na América do Norte, enquanto quebra genialmente com o mesmo cânone já existente. São poucos os escritores com esta audácia e saber. Conhecia a sua inquietante obra poética desde há algum tempo quando recenseei A School For Fishermen (2009), uma eloquente homenagem aos seus antepassados açorianos, à vida no mar atlântico e em terra americana. Viriam alguns outros depois, mas o seu título de poesia mais recente já traz um sinal também denotador do seu desassossego interior, da sua capacidade de se situar sem apologia em liberdade nos seus mundos americanos, We Prefer the Damned/Preferimos os Condenados (2021). Cada autor, sabemos, quando fiel a si próprio, carrega várias geografias humanas dentro de si, reais ou imaginadas, e no livro aqui em foco vamos da sua cidade natal, Fall River (São Miguel a ocidente) a Chicago (onde vive há anos e é, para além de coisas mais, professor universitário), com ainda uma breve passagem por Merced, um outro poiso de muitos ilhéus nossos na Califórnia. Vamos ao que nos interessa nesta sua mais recente ficção. A primeira linha na nota biográfica não pede licença a ninguém: “Carlo Matos é um bissexual+, que tem onze livros publicados...” Dirão alguns outros, e vai daí? Tudo e nada – seguido de humor, ironia e paixão. Um grande romance, responderei ainda, em abono da sua grandeza artística, do seu assumir nestas páginas que uma comunidade pode professar as suas crenças e conforme os seus preconceitos, mas não se livra de ser espelhada na sua diversidade humana por uma geração que se apresenta por inteiro no seu próprio modo de vida enquanto reclama para si o lugar firme de pertença, sem qualificativos nem reticências. O presente liberto do autor conjugasse com a memória e o respeito pelo passado dos seus, e de outros mais. Se isto não seria novidade noutras culturas mais abertas, é-o sim, entre nós, por falsas razões religiosas, e muito particularmente entre a nossa gente na lUSAlândia, essas ilhas rodeadas de América por todos os lados, nas palavras de Onésimo T. Almeida, que cristalizaram em muito, mesmo na ebulição social e cultural americana, no muito que levaram consigo destas ilhas em décadas passadas. Não se trata aqui de qualquer transgressão provocadora. Trata-se, isso sim, de ficção que transmite a verdade, ou da “verdade” que, pelo menos entre nós, sempre transmitiu ficção.

    As Malcriadas or Names We Inheret é esse grande romance na sua forma e conteúdo da literatura americana contemporânea, e também da nossa literatura em inglês, essa que reconstrói, testemunha, o como sobrevivemos ao longo dos tempos numa terra estranha, mas já onde não somos estranhos em qualquer quadrante da vida na grande sociedade a oeste. Não conhecer este facto diminui a nossa própria História insularizada. A língua não é a pátria de ninguém, absorvemos meios de comunicação de qualquer território do nosso coração, somos nós que definimos as nossas nacionalidades, que poderão ser oficializadas ou não. Ninguém melhor do que a escritora luso-americana Amy Sayre Baptista descreveu o essencial deste romance por ela prefaciado. “Somos apresentados a um rol de personagens, quatro desajustados, cujas estórias são uma espécie de saudade aguda, nostálgica mas nunca muito indulgente. Manny, Em, Gomez e Gilga são como que uma tapeçaria e Matos um mestre tecelão”. Seguimos as suas vidas num tempo em que quase todas as perguntas não tinham respostas definitivas, a procura desenfreada de uma vida satisfatória num mosaico humano sempre em construção, cada um a tentar dar um passo para além da mera sobrevivência e na busca de uma vida com sentido, nunca negando o peso do passado descentrado de pais e avós que trabalhavam como escravos na indústria têxtil da Nova Inglaterra, o proletariado fechado nos seus bairros, mantendo as suas linguagens de origem, insistindo em permanecer fiéis a tudo o que em séculos de existência a meio mar foi e é o seu legado.

    As Malcriadas é título do riso para uma banda de música dos anos do liceu em Fall River, uma homenagem cómica aos nomes desagradáveis com que nos classificavam os nossos pais, e outros, aqui traduzido pelo autor com bonomia, saudade e leveza: brats, traquinas que quebram as regras, ou algo semelhante. De casa em casa, de escola em escola, de amor em amor, sem que o género tenha qualquer significado de isolamento, o leitor vai rindo com as peripécias exigidas na luta de luso-americanos e americanas pela sua vida radicalmente distante de tudo o que esperavam as suas famílias, acompanha os momentos de choro e abandono entre o grupo de amigos que partem em direções diferentes na continuidade da descoberta da sua própria dignidade por entre verdades e mentiras nas suas relações. Eles somos nós, o inevitável corte radical sem o esquecimento dos que lhes deram vida e incutiram os valores que julgavam permitir paz e tranquilidade na efervescência social e cultural da América em movimento imparável. São eles o outro retrato das novas gerações que deixaram as fábricas da escravidão, para uma vida que se supõe maior nas academias, nas artes, no desporto. Carlo Matos, este autor empático e capaz de, uma vez mais, urdir e exprimir entre mãos e mente a prosa que faz de cada linha um poema do quotidiano, a musicalidade heteronímica que existe em cada um de nós, as imediações e o mundo em geral que ora nos aprisiona, ora nos liberta. Quando o romance vai chegando ao fim, após amores e desamores, ganhos e perdas, o narrador sente a solidão de uma modernidade que parece enlouquecida.

    O grande poder da minha avó, no entanto, não a pode proteger de Alzeimer’s, tenho sido forçado – diz o narrador nas últimas páginas deste romance a ver a sua grande luminosidade a escurecer durante duas décadas. Eu deveria ter estipulado certas condições, deveria ter escrito uma nota em letras minúsculas. Ela já não me conhece, o que é uma crueldade selvagem. E isso nem é o pior tudo. O pior de tudo foi a leviandade com que entrei na minha vida adulta, foi tão fácil para mim seguir em frente, desviar-me da mulher que me amou acima de tudo. Eu não sei que magia a mantém agarrada a este mundo – a minha ou a dela – mas espero que esta condenação termine em pouco, mesmo que a sua morte me encha de mais medo e angústia do que senti como criança...”

    O que é ou não estritamente autobiográfico neste romance pouco interessa. O seu riso e choro (nunca alheios a nenhum de nós em qualquer tempo e lugar) tem a particularidade, a originalidade, de misturar instantes eufóricos e melancólicos, num quotidiano que mais parece uma roleta russa mental, levando o leitor de um passo a outro numa narrativa em tom e andamento absolutamente diferenciados. Entre homens e mulheres não há amarras aqui, o que contradiz toda tradição das origens mais remotas e da hipocrisia que ainda pesa nas sociedades que se dizem modernas, tolerantes, conhecedoras da natureza humana e da ciência que tudo diz e contradiz. Não é um romance, digamos, libertário, As Malcriadas or Names We Inheret é muito mais uma denúncia de como as suas personagens se ocupam do que é insignificante até que a curva na estrada lhes mostre o que perderam em si próprios e perante os outros. O género da comédia literária do autor – acompanhamos a juventude e depois o evoluir da idade e das coisas – insinua em si mesmo, ou di-lo como na citação que fiz aqui, que há mais vida e morte à nossa espera, os inevitáveis ganhos e perdas de tudo e todos. No contexto da literatura luso-americana, esta é uma obra singular, alegremente atrevida, o que faltava contar sobre toda uma geração que entrou na meia idade tão perplexa como no início da rejeição e aceitação de quem é, de quem somos, e como.

    Carlo Matos não só escreve com desusada originalidade, como, pelo que sei dele das notas biográficas que acompanham os seus livros, tem uma vida, como já referi, que vai desde ser professor universitário ao desporto nas mais perigosas formas – pugilista, esgrima, e do nada menos perigoso roller-skattering, especialmente quando exercido por mulheres em corridas loucas em volta de uma apertada pista, tudo requerendo, suponho, muito cuidado com a pele, cabeça, e o coração. Tudo isto está também presente As Malcriadas or Names We Inheret, em atos de comédia pura, mas por vezes a escorrer sangue real ou emotivo. Aliás, como na sua brava narrativa. Há momentos cómicos quando dizem que ele ou ela “é dos nossos”, querendo dizer luso ou açor-descendentes, sempre nomes conhecidos mas não etnicamente descodificados. A brincadeira chega à muito famosa escritora de romances cor-de-rosa, Danielle Steel, que a “lenda” diz ter raízes na Ribeira Grande. Noutras ocasiões não têm a certeza, vão investigar, e nós rimos com eles, com o que pode ser uma futilidade de alguma (escondida) importância identitária.

    Eis a imagem de um grande escritor, em muito virada ao contrário para quem ainda pensa que a vida é uma camisa de forças. Que alívio. Que liberdade. Que palavras luminosas em forma de prosa ou poesia.

Carlo Matos, As Malcriadas or Names We Inheret, New Meridian Arts, 2022. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental, 12 de julho de 2024.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

O Salto Literário De Carlo Matos Na Literatura Luso-Americana

Disse a todos que eu era gay, o que não é exatamente verdade mas também não é mentira. Carlo Matos, As Malcriadas or Names We Inherit 

O romance As Malcriadas or Names We Inherit/As Malcriadas ou Nomes que Herdamos, do luso-americano Carlo Matos (com raízes muito próximas ali nos Mosteiros), é, simplesmente dito, magnífico. Consegue a um tempo ser um grande contributo para a nossa Tradição literária na América do Norte, enquanto quebra genialmente com o mesmo cânone já existente. São poucos os escritores com esta audácia e saber. Conhecia a sua inquietante obra poética desde há algum tempo quando recenseei A School For Fishermen (2009), uma eloquente homenagem aos seus antepassados açorianos, à vida no mar atlântico e em terra americana. Viriam alguns outros depois, mas o seu título de poesia mais recente já traz um sinal também denotador do seu desassossego interior, da sua capacidade de se situar sem apologia em liberdade nos seus mundos americanos, We Prefer the Damned/Preferimos os Condenados (2021). Cada autor, sabemos, quando fiel a si próprio, carrega várias geografias humanas dentro de si, reais ou imaginadas, e no livro aqui em foco vamos da sua cidade natal, Fall River (São Miguel a ocidente) a Chicago (onde vive há anos e é, para além de coisas mais, professor universitário), com ainda uma breve passagem por Merced, um outro poiso de muitos ilhéus nossos na Califórnia. Vamos ao que nos interessa nesta sua mais recente ficção. A primeira linha na nota biográfica não pede licença a ninguém: “Carlo Matos é um bissexual+, que tem onze livros publicados...” Dirão alguns outros, e vai daí? Tudo e nada – seguido de humor, ironia e paixão. Um grande romance, responderei ainda, em abono da sua grandeza artística, do seu assumir nestas páginas que uma comunidade pode professar as suas crenças e conforme os seus preconceitos, mas não se livra de ser espelhada na sua diversidade humana por uma geração que se apresenta por inteiro no seu próprio modo de vida enquanto reclama para si o lugar firme de pertença, sem qualificativos nem reticências. O presente liberto do autor conjugasse com a memória e o respeito pelo passado dos seus, e de outros mais. Se isto não seria novidade noutras culturas mais abertas, é-o sim, entre nós, por falsas razões religiosas, e muito particularmente entre a nossa gente na lUSAlândia, essas ilhas rodeadas de América por todos os lados, nas palavras de Onésimo T. Almeida, que cristalizaram em muito, mesmo na ebulição social e cultural americana, no muito que levaram consigo destas ilhas em décadas passadas. Não se trata aqui de qualquer transgressão provocadora. Trata-se, isso sim, de ficção que transmite a verdade, ou da “verdade” que, pelo menos entre nós, sempre transmitiu ficção.

  As Malcriadas or Names We Inherit é esse grande romance na sua forma e conteúdo da literatura americana contemporânea, e também da nossa literatura em inglês, essa que reconstrói, testemunha, o como sobrevivemos ao longo dos tempos numa terra estranha, mas já onde não somos estranhos em qualquer quadrante da vida na grande sociedade a oeste. Não conhecer este facto diminui a nossa própria História insularizada. A língua não é a pátria de ninguém, absorvemos meios de comunicação de qualquer território do nosso coração, somos nós que definimos as nossas nacionalidades, que poderão ser oficializadas ou não. Ninguém melhor do que a escritora luso-americana Amy Sayre Baptista descreveu o essencial deste romance por ela prefaciado. “Somos apresentados a um rol de personagens, quatro desajustados, cujas estórias são uma espécie de saudade aguda, nostálgica mas nunca muito indulgente. Manny, Em, Gomez e Gilga são como que uma tapeçaria e Matos um mestre tecelão”. Seguimos as suas vidas num tempo em que quase todas as perguntas não tinham respostas definitivas, a procura desenfreada de uma vida satisfatória num mosaico humano sempre em construção, cada um a tentar dar um passo para além da mera sobrevivência e na busca de uma vida com sentido, nunca negando o peso do passado descentrado de pais e avós que trabalhavam como escravos na indústria têxtil da Nova Inglaterra, o proletariado fechado nos seus bairros, mantendo as suas linguagens de origem, insistindo em permanecer fiéis a tudo o que em séculos de existência a meio mar foi e é o seu legado.

As Malcriadas é título do riso para uma banda de música dos anos do liceu em Fall River, uma homenagem cómica aos nomes desagradáveis com que nos classificavam os nossos pais, e outros, aqui traduzido pelo autor com bonomia, saudade e leveza: brats, traquinas que quebram as regras, ou algo semelhante. De casa em casa, de escola em escola, de amor em amor, sem que o género tenha qualquer significado de isolamento, o leitor vai rindo com as peripécias exigidas na luta de luso-americanos e americanas pela sua vida radicalmente distante de tudo o que esperavam as suas famílias, acompanha os momentos de choro e abandono entre o grupo de amigos que partem em direções diferentes na continuidade da descoberta da sua própria dignidade por entre verdades e mentiras nas suas relações. Eles somos nós, o inevitável corte radical sem o esquecimento dos que lhes deram vida e incutiram os valores que julgavam permitir paz e tranquilidade na efervescência social e cultural da América em movimento imparável. São eles o outro retrato das novas gerações que deixaram as fábricas da escravidão, para uma vida que se supõe maior nas academias, nas artes, no desporto. Carlo Matos, este autor empático e capaz de, uma vez mais, urdir e exprimir entre mãos e mente a prosa que faz de cada linha um poema do quotidiano, a musicalidade heteronímica que existe em cada um de nós, as imediações e o mundo em geral que ora nos aprisiona, ora nos liberta. Quando o romance vai chegando ao fim, após amores e desamores, ganhos e perdas, o narrador sente a solidão de uma modernidade que parece enlouquecida.
 
 “O grande poder da minha avó, no entanto, não a pode proteger de Alzeimer’s, tenho sido forçado – diz o narrador nas últimas páginas deste romance – a ver a sua grande luminosidade a escurecer durante duas décadas. Eu deveria ter estipulado certas condições, deveria ter escrito uma nota em letras minúsculas. Ela já não me conhece, o que é uma crueldade selvagem. E isso nem é o pior tudo. O pior de tudo foi a leviandade com que entrei na minha vida adulta, foi tão fácil para mim seguir em frente, desviar-me da mulher que me amou acima de tudo. Eu não sei que magia a mantém agarrada a este mundo – a minha ou a dela – mas espero que esta condenação termine em pouco, mesmo que a sua morte me encha de mais medo e angústia do que senti como criança...”
 
 O que é ou não estritamente autobiográfico neste romance pouco interessa. O seu riso e choro (nunca alheios a nenhum de nós em qualquer tempo e lugar) tem a particularidade, a originalidade, de misturar instantes eufóricos e melancólicos, num quotidiano que mais parece uma roleta russa mental, levando o leitor de um passo a outro numa narrativa em tom e andamento absolutamente diferenciados. Entre homens e mulheres não há amarras aqui, o que contradiz toda tradição das origens mais remotas e da hipocrisia que ainda pesa nas sociedades que se dizem modernas, tolerantes, conhecedoras da natureza humana e da ciência que tudo diz e contradiz. Não é um romance, digamos, libertário, As Malcriadas or Names We Inherit é muito mais uma denúncia de como as suas personagens se ocupam do que é insignificante até que a curva na estrada lhes mostre o que perderam em si próprios e perante os outros. O género da comédia literária do autor – acompanhamos a juventude e depois o evoluir da idade e das coisas – insinua em si mesmo, ou di-lo como na citação que fiz aqui, que há mais vida e morte à nossa espera, os inevitáveis ganhos e perdas de tudo e todos. No contexto da literatura luso-americana, esta é uma obra singular, alegremente atrevida, o que faltava contar sobre toda uma geração que entrou na meia idade tão perplexa como no início da rejeição e aceitação de quem é, de quem somos, e como.

Carlo Matos não só escreve com desusada originalidade, como, pelo que sei dele das notas biográficas que acompanham os seus livros, tem uma vida, como já referi, que vai desde ser professor universitário ao desporto nas mais perigosas formas – pugilista, esgrima, e do nada menos perigoso roller-skattering, especialmente quando exercido por mulheres em corridas loucas em volta de uma apertada pista, tudo requerendo, suponho, muito cuidado com a pele, cabeça, e o coração. Tudo isto está também presente As Malcriadas or Names We Inherit, em atos de comédia pura, mas por vezes a escorrer sangue real ou emotivo. Aliás, como na sua brava narrativa. Há momentos cómicos quando dizem que ele ou ela “é dos nossos”, querendo dizer luso ou açor-descendentes, sempre nomes conhecidos mas não etnicamente descodificados. A brincadeira chega à muito famosa escritora de romances cor-de-rosa, Danielle Steel, que a “lenda” diz ter raízes na Ribeira Grande. Noutras ocasiões não têm a certeza, vão investigar, e nós rimos com eles, com o que pode ser uma futilidade de alguma (escondida) importância identitária. 

 Eis a imagem de um grande escritor, em muito virada ao contrário para quem ainda pensa que a vida é uma camisa de forças. Que alívio. Que liberdade. Que palavras luminosas em forma de prosa ou poesia.

 _____ 

Carlo Matos, As Malcriadas or Names We Inherit, New Meridian Arts, 2022. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.

BorderCrossings do Açoriano Oriental publicado a 17 de fevereiro de 2023.