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terça-feira, 7 de abril de 2026

Sobre literatura e a diáspora na voz de Diniz Borges


In central Califórnia, on the outskistrs of Tulare – a city twinned with Angra do Hiroísmo since 1966 – where I grew up/ No centro da Califórnia, nos arredores de Tulare – a cidade irmã de Angra do Heroísmo desde 1996 – em que eu cresci e me fiz homem.

Diniz Borges, The Infinite Blue

O mais recente livro de Diniz Borges, The Infinite Blue: Stories, Reflections and Essays from the

Azorean Diaspora é de longe o melhor livro em Inglês de ensaios sobre a história e experiência da nossa diáspora na América do Norte. O subtítulo diz tudo tudo o resto: Histórias, Reflexões e Ensaios”. Finalmente, a nossa primeira geração imigrada nos Estados Unidos começa a escrever brilhantemente em Inglês para passar a palavra da nossa épica imigrante aos nascidos lá, os que nos seguem e continuam a ter a sua ancestralidade portuguesa como outra das suas referências de vida e sorte. Este não é apenas um livro de ensaios. É um livro em cujas páginas escorre dor e felicidade: a literatura e histórias nos seus diversos géneros como testemunhas do que fomos aqui nos Açores e do que somos nesse outro longínquo lado do Atlântico que nunca nos separou, que foi sempre o nosso caminho para a salvação em tempos de miséria e da inconsciência ou mesmo brutalidade de elites regionais e do restante país que nem nos via partir em choro nos miseráveis cais de embarcar em navios e depois em aviões que nos transportavam na nossa dor, e da dessa partida que então era traumatizante, mas com a calma magoada e de coragem. A maior parte dos que nos governavam nessas épocas de lama nas ruas e na alma nem nos viam partir, estavam no seu conforto herdado, que nunca do seu trabalho. Os Açores têm uma dupla história: portuguesa e americana. O milagre é que os voluntariamente expulsos tudo perdoaram e perdoam ainda hoje, e com a passagem dos anos a ajudar desde sempre o bem-estar desses senhores e senhoras que se passeavam nas nossas ruas mais finas e em noutras geografias de bem-falantes. Cada imigrante nosso que aterra hoje nos Açores anualmente nem imagina como mantém os seus antigos e novos exploradores. Nós fomos e somos a fonte maior da sua riqueza porque nada já devemos, para além da nossa lealdade às nossas origens e à terra do nosso amor – cá e no outro lado que foi sempre o nosso destino.

    The Infinite Blue, para quem não saiba, quer simplesmente dizer O Azul Infinito. A seguir vem o subtítulo Stories, Reflections and Essays from the Azorean Diaspora. Sim, é uma homenagem à nossa terra natal, como é uma visão das nossas comunidades em movimento para além dos Espírito Santo e respetivas sopas. A literatura, as reflexões e os ensaios neste livro contradiz em tudo ou quase tudo o que tínhamos pensado sobre a nossa vida na América do Norte. Trabalhadores braçais, sem dúvida, e a seguir veio a geração que nos diz, que nos engrandece nalgumas das melhores páginas na sua língua natal, a do país aonde nasceram. Romances, poesia, ensaios, testemunhos nos mais variados contextos deram e dão-nos as “notícias” da nossa da nossa infelicidade e felicidade. A literatura imigrante modernista que começa nos anos 90 abre uma larga brecha que continua sem parar tanto nos Estados Unidos como no Canadá: quem somos, de onde viemos, como vivemos e sobrevivemos. No trabalho que vai desde ordenhar as vacas de outros como nas entradas nas melhores faculdades da Califórnia. Diniz Borges relembra o seu passado e os seus mais próximos, para adiantar com a literatura, especialmente já na língua dos nossos primeiros imigrantes e dos seus descendentes, que continuam a contar as histórias das ilhas e no grande país para onde foram os seus antepassados. Mais ninguém, entre nós, tinha feito isto. Um livro na língua dos nossos descendentes para que nunca se esquecessem. A literatura como memória, o seu pensamento parte da partida para a nossa integração equilibrada na nova sociedade sem nunca magoar o nosso próprio ser.

    

    Os escritores que Diniz Borges cita neste seu livro são muitos, o que me deixa constrangido em nomeá-los todos. A grande literatura modernista luso-americana começa nos anos 90, tanto nos Estados Unidos como, mais tarde, no Canadá. Abro aqui necessariamente uma espécie de parênteses. Desde Katherine Vaz na Califórnia até Anthony de Sá e Erika de Vasconcelos em Toronto, algumas dessas supremas obras traduzidas no nosso país. A nossa literatura em língua inglesa nada fica a dever à melhor literatura portuguesa, cujos chamamentos temáticos nunca deixam de absolver a nossa história, a nossa “condenação” e alegria à descoberta de novos mundos e vida. A desatenção da crítica portuguesa é o que é – nada. A sua arrogância, que se fica quase sempre por questões teóricas que pouco significam, dizem, ou repetem, o pior da crítica da crítica vinda de Paris, logo amigalhada pela crítica académica nalgumas faculdades norte-americanas. Perda deles. Nunca a perda da grandeza desta nova literatura da dita portugalidade noutra língua. Bem sei que são “universalistas”, só o vizinho é que fica excluído, pertence só à sua rua ou casa.

    The Infinite Blue diz o que precisámos ouvir ou ler. O respeito pela e continuidade das nossas tradições, e logo o passo em frente. Felizmente, Diniz Borges sempre batalhou por esta causa. A memória do passado e, uma vez mais, a nossa essencialidade de integração na grande sociedade norte-americana. A dignidade de um grande povo pouco tem haver com línguas ou vivência em duas línguas, ou mesmo em línguas recortadas tanto em Inglês como em Português. Portugal só se expande desta maneira: com o seu povo donos de si no seu outro país sem nunca se esquecer de onde veio, das suas duplas e nunca conflituosas lealdade. O azul – The Infinite Blueé significante da nossa existência, o azul do nosso triunfo à beira do Atlântico e do Pacífico. Os sonhos alegres e o sentimento trágico e triunfante da nossa sorte. The Infinite Blue não é só um livro qualquer, é esse testemunho de um imigrante que fez e continua a fazer na faculdade da Universidade Estadual da Califórnia, em Fresno, por acaso a minha faculdade, só que num outro polo mais distante em Fullerton no sul da Califórnia. Quando um colega meu escreve um livro desta grandeza é como se fosse meu, ou o livro que nunca escrevi. A grandeza de um amigo e colega meu passa também a ser a minha. Ler este livro é perceber, a entender por inteiro, quem fomos e o que somos.

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Diniz Borges, The Infinite Blue: Stories, Reflections and Essays from the Azorean Diaspora, (Graphic composition: Avelina da Silveira), printing and distribuition: Amazon, 2026. As traduções aqui são da minha responsabilidade.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental, 3 de abril de 2026.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

De Diniz Borges e da diáspora açoriana

                                       


O mar das ilhas e o sonho americano interlaçados, sem sobressaltos nem dramatismos...

Diniz Borges, Raízes E Horizontes: Narrativas Da Diáspora Açoriana


    Há amizades que resistem a uma vida inteira. Conheci o Diniz Borges quando ele tinha mais ou menos 19 anos de idade e a trabalhar com muita dignidade fora do ensino superior na cidade de Tulare no centro do mítico Vale de São Joaquim no interior a meio da Califórnia. Já o conhecia de nome e fiz uma obrigação minha visitá-lo no seu espaço de vida ativa. Sabia que ele já era nessa idade um ativista independente na nossa comunidade, aonde vivia quase toda a minha família imediata e de graus variantes. Sabia também que ele já fazia um programa de rádio comunitário, e que as suas linguagens me agradavam, e muito. Eu era um novo professor de uma escola secundária no condado de Los Angeles. Queria muito conhecer um homem de uma geração mais nova a dizer coisas das minhas então opções políticas – quietas e independentes, tal como ainda na minha velha idade aqui no meu país de nascença. A empatia foi de logo expressa entre nós os dois. Só que percebi que o seu futuro viria a ser muito diferente, e foi em pouco tempo – e de que maneira. Diniz seria uns poucos anos depois admitido sem qualquer dificuldade numa faculdade da Universidade Estadual da Califórnia, na área de literaturas, e logo de seguida faria com sucesso um mestrado em literaturas étnicas, o que ele talvez ainda chame de literaturas e geografias porosas, tal como os nossos dois destinos literários que perduram, e são cada mais a temática da nossa escrita. Comunicamos quase diariamente através das redes sociais, falamos sobre o que pensamos, lemos, dizemos, e, sim, criticamos tal como naqueles tempos que nunca esqueceremos. O estado ou modo de vida em que então viviam as nossas comunidades no oeste americano? Voluntariamente obedientes aos seus mandantes, sem a noção, creio eu, de que os seus filhos tinham abertas todas as portas para outras oportunidades, profissões fora de ordenha de vacas ou de duros trabalhos, digamos assim, associados. Vivemos sempre dois mundos totalmente comuns: os Estados Unidos e Portugal, com os Açores aqui e ao longe muito próximos e parte das nossas vidas quotidianas enquanto nos integrávamos conscientemente na grande sociedade americana, a “geografia” tendo acabado anos mais tarde com os novos meios de comunicação. Mantivemos a continuidade das nossas conversas com o mesmo vigor e crenças sociais e ideológicas (mais ou menos) dos anos iniciais do nosso convívio.

    Há algo na vida académica e literária de Diniz Borges que muito – muito – aprecio, e muito para além desta nossa amizade forte, profunda. Ele faz mais pela inevitável dualidade da cultura que partilhamos sem complexos alguns, e pelo memorial da nossa gente no oeste americano que nunca vinte de nós faríamos naqueles anos, mesmo com o já falecido professor Eduardo Mayone Dias (natural de Lisboa e professor na Universidade da Califórnia em Los Angeles) como nosso grande exemplo e mentor. Há dois grandes grandes intelectuais, escritores e académicos nos Estados Unidos que desde há muitas décadas mantêm a nossa identidade viva, para além das tradições das sopas do Espírito Santo e de outros ritos religiosos e profanos. Onésimo Teotónio Almeida na Brown University em Providence, e Diniz Borges nos anos mais recentes na Universidade Estadual da Califórnia, em Fresno. De Onésimo T. Almeida já todos conhecemos muito bem como académico e escritor. Do Diniz é preciso dizer algo mais. Depois da sua reforma da Tulare Union High School foi quase de imediato chamado pela já mencionada Universidade Estadual da Califórnia, em Fresno, que fica no coração do Vale de São Joaquim, rodeada por uma vasta área agro-pecuária, boa parte dela controlada por açorianos e luso-descendentes. Não foi só por isso. A sua competência e credenciais determinaram que ele iria além de dar aulas de Português e sobre a nossa História durante uma longa e brilhante carreira a outro nível escolar. Seria o fundador e diretor do Portuguese Beyond Borders Institute, com responsabilidades pelas especiais relações académicas e literárias com os Açores, com Diáspora, e com todo o nosso país. É o primeiro responsável pela editora Bruma Publications, ligada ao mesmo instituto já aqui referido, que dinamiza e financia publicações de livros aqui nos Açores, e divulga entre nós e nas comunidades autores luso-americanos através de traduções feitas por ele próprio, com uma precisão e criatividade pouco habitual em qualquer parte, muito menos por cá. Mantém, ligado ao mesmo instituto universitário, o sítio de Artes e Letras Filamentos, que transmite diariamente notícias e textos literários dos dois lados do Atlântico, e não só. É um projeto com uma persistência e regularidade nunca vista, nascido e por ele mantido naquele extremo do continente norte-americano.

    Escrevo do meu maior e mais querido amigo nesse lado da nossa diáspora como escreveria sobre um irmão. Fá-lo de maneira criteriosa, e sem exigir qualquer retorno seja de quem for. Isto é novo entre nós. Alguns dos nossos escritores devem-lhe, e muito. Nunca pede nada a ninguém, muito menos às nossas instituições governamentais. É algo a que não estamos habituais, mas não peço aqui que se habituem a tanto trabalho e dedicação. Só que o reconheçam como o académico que é, como o escritor e crítico que nos dá conta como ninguém da nossa história de uma parte de um outro grande país que sempre nos foi – ou era – essa outra pátria de sossego e boa vida. Permanece um cidadão de nacionalidade dupla que nunca desculpa as injustiças do que foi o nosso passado e do que agora é o seu presente. Tudo isto envolve um inquestionável esforço e uma indescritível dedicação. Será sempre justo o nosso reconhecimento. O resto não passa do resto. O trabalho feito e que continuará a ser feito falará um dia por si.

    

    Sempre que o Diniz nos visita é como que um acontecimento à moda antiga, não com abraços nas docas, mas sim em aeroportos. Ainda bem. Quer isso dizer que famílias e amigos já não choram lágrimas de saudades que há décadas eram o nosso drama. Aliás, ele publicou há uns bons anos Nem Sempre a Saudade Chora: Antologia de Poesia sobre a Emigração. Nem mais.

    O inevitável aconteceu: foram ficando e foram criando, num dos estados mais diversificados da união americana, a sua própria subcultura, a qual, como não poderia deixar de ser, é uma amálgama da nostalgia das ilhas, das suas tradições rurais, com elementos da modernidade e da multietnicidade californiana. Hoje, cerca de 150 anos depois de terem chegado os primeiros emigrantes açorianos, existe no seio do multiculturalismo deste estado do pacífico norte-americano uma definitiva presença trazida pelas gentes dos Açores”.

    Agora pode ser com certa frequência. Não nos trazem sacos de roupa para colmatar o que durante séculos foram as nossas misérias em tudo. Trazem-nos as notícias da proximidade contínua, do bem estar lá e, para muitos, cá dentro, nas pequenas terras rodeadas de mar nem sempre simpático para todos que dele fazem a sua sobrevivência. Esse abraço coletivo vale mais do que tudo no passado.

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Diniz Borges, Raízes E Horizontes: Narrativas da Diáspora Açoriana, Ponta Delgada, Letras Lavadas edições, 2025.


No BorderCrossings do Açoriano Oriental de 27 de fevereiro de 2026.