In central Califórnia, on the outskistrs of Tulare – a city twinned with Angra do Hiroísmo since 1966 – where I grew up/ No centro da Califórnia, nos arredores de Tulare – a cidade irmã de Angra do Heroísmo desde 1996 – em que eu cresci e me fiz homem.
Diniz Borges, The Infinite Blue
O mais recente livro de Diniz Borges, The Infinite Blue: Stories, Reflections and Essays from the
Azorean Diaspora é de longe o melhor livro em Inglês de ensaios sobre a história e experiência da nossa diáspora na América do Norte. O subtítulo diz tudo tudo o resto: “Histórias, Reflexões e Ensaios”. Finalmente, a nossa primeira geração imigrada nos Estados Unidos começa a escrever brilhantemente em Inglês para passar a palavra da nossa épica imigrante aos já nascidos lá, os que nos seguem e continuam a ter a sua ancestralidade portuguesa como outra das suas referências de vida e sorte. Este não é apenas um livro de ensaios. É um livro em cujas páginas escorre dor e felicidade: a literatura e histórias nos seus diversos géneros como testemunhas do que fomos aqui nos Açores e do que somos nesse outro longínquo lado do Atlântico que nunca nos separou, que foi sempre o nosso caminho para a salvação em tempos de miséria e da inconsciência ou mesmo brutalidade de elites regionais e do restante país que nem nos via partir em choro nos miseráveis cais de embarcar em navios e depois em aviões que nos transportavam na nossa dor, e da dessa partida que então era traumatizante, mas com a calma magoada e de coragem. A maior parte dos que nos governavam nessas épocas de lama nas ruas e na alma nem nos viam partir, estavam no seu conforto herdado, que nunca do seu trabalho. Os Açores têm uma dupla história: portuguesa e americana. O milagre é que os voluntariamente expulsos tudo perdoaram e perdoam ainda hoje, e com a passagem dos anos a ajudar desde sempre o bem-estar desses senhores e senhoras que se passeavam nas nossas ruas mais finas e em noutras geografias de bem-falantes. Cada imigrante nosso que aterra hoje nos Açores anualmente nem imagina como mantém os seus antigos e novos exploradores. Nós fomos e somos a fonte maior da sua riqueza porque nada já devemos, para além da nossa lealdade às nossas origens e à terra do nosso amor – cá e no outro lado que foi sempre o nosso destino.
The Infinite Blue, para quem não saiba, quer simplesmente dizer O Azul Infinito. A seguir vem o subtítulo Stories, Reflections and Essays from the Azorean Diaspora. Sim, é uma homenagem à nossa terra natal, como é uma visão das nossas comunidades em movimento para além dos Espírito Santo e respetivas sopas. A literatura, as reflexões e os ensaios neste livro contradiz em tudo ou quase tudo o que tínhamos pensado sobre a nossa vida na América do Norte. Trabalhadores braçais, sem dúvida, e a seguir veio a geração que nos diz, que nos engrandece nalgumas das melhores páginas na sua língua natal, a do país aonde nasceram. Romances, poesia, ensaios, testemunhos nos mais variados contextos deram e dão-nos as “notícias” da nossa da nossa infelicidade e felicidade. A literatura imigrante modernista que começa nos anos 90 abre uma larga brecha que continua sem parar tanto nos Estados Unidos como no Canadá: quem somos, de onde viemos, como vivemos e sobrevivemos. No trabalho que vai desde ordenhar as vacas de outros como nas entradas nas melhores faculdades da Califórnia. Diniz Borges relembra o seu passado e os seus mais próximos, para adiantar com a literatura, especialmente já na língua dos nossos primeiros imigrantes e dos seus descendentes, que continuam a contar as histórias das ilhas e no grande país para onde foram os seus antepassados. Mais ninguém, entre nós, tinha feito isto. Um livro na língua dos nossos descendentes para que nunca se esquecessem. A literatura como memória, o seu pensamento parte da partida para a nossa integração equilibrada na nova sociedade sem nunca magoar o nosso próprio ser.
Os escritores que Diniz Borges cita neste seu livro são muitos, o que me deixa constrangido em nomeá-los todos. A grande literatura modernista luso-americana começa nos anos 90, tanto nos Estados Unidos como, mais tarde, no Canadá. Abro aqui necessariamente uma espécie de parênteses. Desde Katherine Vaz na Califórnia até Anthony de Sá e Erika de Vasconcelos em Toronto, algumas dessas supremas obras traduzidas no nosso país. A nossa literatura em língua inglesa nada fica a dever à melhor literatura portuguesa, cujos chamamentos temáticos nunca deixam de absolver a nossa história, a nossa “condenação” e alegria à descoberta de novos mundos e vida. A desatenção da crítica portuguesa é o que é – nada. A sua arrogância, que se fica quase sempre por questões teóricas que pouco significam, dizem, ou repetem, o pior da crítica da crítica vinda de Paris, logo amigalhada pela crítica académica nalgumas faculdades norte-americanas. Perda deles. Nunca a perda da grandeza desta nova literatura da dita portugalidade noutra língua. Bem sei que são “universalistas”, só o vizinho é que fica excluído, pertence só à sua rua ou casa.
The Infinite Blue diz o que precisámos ouvir ou ler. O respeito pela e continuidade das nossas tradições, e logo o passo em frente. Felizmente, Diniz Borges sempre batalhou por esta causa. A memória do passado e, uma vez mais, a nossa essencialidade de integração na grande sociedade norte-americana. A dignidade de um grande povo pouco tem haver com línguas ou vivência em duas línguas, ou mesmo em línguas recortadas tanto em Inglês como em Português. Portugal só se expande desta maneira: com o seu povo donos de si no seu outro país sem nunca se esquecer de onde veio, das suas duplas e nunca conflituosas lealdade. O azul – The Infinite Blue – é significante da nossa existência, o azul do nosso triunfo à beira do Atlântico e do Pacífico. Os sonhos alegres e o sentimento trágico e triunfante da nossa sorte. The Infinite Blue não é só um livro qualquer, é esse testemunho de um imigrante que fez e continua a fazer na faculdade da Universidade Estadual da Califórnia, em Fresno, por acaso a minha faculdade, só que num outro polo mais distante em Fullerton no sul da Califórnia. Quando um colega meu escreve um livro desta grandeza é como se fosse meu, ou o livro que nunca escrevi. A grandeza de um amigo e colega meu passa também a ser a minha. Ler este livro é perceber, a entender por inteiro, quem fomos e o que somos.
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Diniz Borges, The Infinite Blue: Stories, Reflections and Essays from the Azorean Diaspora, (Graphic composition: Avelina da Silveira), printing and distribuition: Amazon, 2026. As traduções aqui são da minha responsabilidade.
No BorderCrossings do Açoriano Oriental, 3 de abril de 2026.


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