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sexta-feira, 28 de junho de 2024

Sobre a obra de Aníbal C. Pires


O poeta parte sempre da ilha para o mundo, e do mundo regressa sempre à geografia das suas memórias e afetos.

Aníbal C. Pires

    Haveria muito a dizer sobre a estrutura poética de Aníbal C. Pires. Ainda mais sobre as imagens, as metáforas, e sobretudo sobre as ideias de verso em verso, de poema em poema. Num espaço e num momento como este começo por não teorizar sobre literatura, sobretudo sobre a complexidade de uma voz singular entre nós, como a do poeta e escritor Aníbal C. Pires, ou do ato poético em geral. Os supostos cânones literários não passam de opiniões pessoais de cada um dos seus antologiadores e admiradores. Sim, das inimizades perante textos de um ou outro autor das nossas preferências. Nos Açores, provincianos que temos sido e somos, a alteridade de uns e as margens de outros não passam de construções literárias conforme a estética e noções de temáticas. Eis a palavra outra vez, de construções pessoais e até de grupos, de círculos fechados que se formam informalmente e língua destravada, do isolamento que eleva frequentemente os ignorantes em geral ou escritores de ocasião ou fim de semana. A grande escrita sofreu sempre da sua receção inicial e apressada. Degradante em muitos casos, hoje devidamente esquecidos, como merecem. Pela suposta ideologia dos seus muitos poetas, escritores escribas, pela tendência em ambientes fechados de certas castas reinventadas, de certos interesses mais comerciais do que literários e artísticos. Combinam a ignorância e arrogância com meia dúzia de noções pouco esclarecidas, formadas na escuridão do dizer que diz, sem qualquer leitura atenta ou minimamente interpretiva – dos que apenas dizem, nada mais, mais falando do seu imaginado saber do que uma entrada pelo texto dentro. Não alinho, nunca alinhei, nesses espaços de suposto saber e do adivinha. Nos Açores, e não só, isto é uma doença literária alegre, e a longo curso para ser ignorada.

    


    A
lisura do combate pela palavra, pela poesia e por outra escrita, está aqui com Aníbal C. Pires. Se assim não fosse não valeria a pena uma única palavra minha, ou de outros. Não valeria nem um pouco um crítico escrever nos nossos dias conturbados e confusos, de ameaça à nossa própria existência. Pessoalmente, estou farto de escritores na sua redoma egoísta e supostamente acima do que se passa à sua volta localmente e sobretudo no mundo. Escrever poderá ser um ato individual, necessariamente, de criar, como neste caso, de criar versos ou narrativas das suas circunstâncias ou mesmo das suas obsessões. A poesia e toda a escrita criativa tem, para mim, de combinar as duas coisas: vermo-nos mutuamente, perceber a outra maneira de estarmos, de ver o Outro, de tentar ver a coletividade a que pertencemos, o nosso passado e memórias, o que nos foram e são as nossas alegrias e felicidade, as nossas dores e ausências.

    

    Na poesia e demais escrita de Aníbal C. Pires tudo isto está presente: O “eu” poético perante e pela comunhão com toda a comunidade e o mundo em geral. A sua mais profunda humanidade reaparece em poemas como Devaneio, depois seguida pela criminalidade em curso em boa parte do planeta. A forma como junta versos é livre, vem desde o norte-americano Walt Whitman, e depois em língua portuguesa do nosso primeiro modernismo literário de Fernando Pessoa e seus pares, eles que desafiaram toda a tradição nas nossas letras poéticas. A poesia sem ideias são meras imagens e metáforas, frequentemente significando nada, para lembrar aqui William Shakespeare e William Faulkner, este na sua revolta contra as linguagens hoje ditas académicas, as linguagens em jogos nada significantes. A poesia de Anibal C. Pires vem nessa linha das palavras que significam, dos belos versos e estrofes que combinam a beleza da ritma e a sonoridade da canção da nossa vivência, da bondade da vida lado a lado com o sofrimento da Humanidade e da sua persistência e resistência perante e qualquer Poder que espreita os indefesos, que tenta subjugar tanto os que lhes estão perto como longe, se ainda podemos falar num “longe” num mundo que testemunhamos cada dia e noite e nas nossas salas e através das vozes, todas elas que já nos são íntimas, na sua proximidade diária. Os versos de Aníbal C. Pires aparecem-nos em direto: cada palavra desperta o pensamento, por vezes a ambiguidade, mas sempre para que as pensemos no seu contexto, e sobretudo na nossa dúvida do que vemos e ouvimos todos os dias pelos vários diversos meios. Levam-nos ao que antes não nos apercebíamos, levam-nos ao outro lado da realidade e da lírica da arte. Neste Destroços À Deriva a falsidade linguística da poesia é expulsa, ou o dizer de folhas caídas e paisagens de inverno ou verão. A Natureza geográfica dos Açores, sim, está aqui. Só que situa o existencialismo dos seres humanos que a povoam, e depois a força da violência que nos toca a todos: aqui e em toda a parte, o choro de homens e mulheres debaixo de fogo mortífero, o grito do desespero sem sentido. A poesia de Aníbal C. Pires, uma vez mais, não condescende com questões ditas estratégicas ou militares. Denuncia-as em voz alta e clara. Depois, a beleza de estarmos juntos na luta por outra realidade que não seja esta. É um ato supremo de poesia. São os grandes poetas que nos dizem, nos cantam, o que poderia ser, mas não é.


    Toda a obra de Aníbal C. Pires, em prosa e poesia, é a palavra significante que arquiva para sempre o termos sido e quem somos. Chamo-o com frequência um continental-ilhéu, como me chamo a mim próprio um ilhéu-continental. A sua poesia em Destroços À Deriva vem numa continuidade impressionante. Igual, sempre, a si próprio, como escritor e poeta, como ativista político. É deslumbrante lê-lo pela beleza da forma como pela lealdade aos seus ideais e da sua mundividência. Falar ou escrever dele é-me um desafio enorme: pela beleza das suas palavras, uma vez mais, pela absoluta autencidade das suas ideias sobre um mundo sempre em ebulição. Falar dele é um dos meus maiores privilégios, como crítico literário, como cidadão, como colega e amigo. Quando o poeta sai das suas preocupações cívicas e da História contemporânea, a morte de inocentes a acontecer todos os dias e a toda a hora, e entra pelo elogio do ser humano, como em poemas como “mães de gaza”, sei que estou com quem me identifico, com quem admiro sem quaisquer dúvidas.

    Destroços à Deriva (poemas) vai evoluindo de verso em verso nessa clareza de visão, e sobretudo no silêncio das suas casas aqui e além-mar, o calcorrear de pedras açorianas não escorregadias, mas sim firmes na sua crença de que a vida, sua e nossa, continuará a conhecer o mundo que nos é triunfal tal como a necessidade da luta contra os que de tudo fariam – fazem – um inferno. Temos nestas páginas o verde e azul dos nossos dias, como a desgraça indizível noutras geografias perto e longe, tudo o que simboliza o pior da humanidade, oprimida, abusada, usada a favor de minorias de toda a espécie, essas terroristas num sentido tão real como diabólico na sua ganância e violência que vão além das armas – boa parte do nosso mundo é para estes um recurso de riqueza roubada, de atentado aos mais elementares direitos e dignidade de todos os outros. Cada leitor terá a sua interpretação, a memória desperta, a ideologia que o comove. Aníbal C. Pires não esconde nunca essa interpretação do que conhece em palavras que brilham pela sua claridade, pela sua generosidade, pela sua cumplicidade com todos os que lutam desde sempre contra todos que os nos esmagariam de todas as maneiras e proveito próprio. A sua poesia recusa um olhar banal e displicente ante as forças que nos querem recusar dias tranquilos e a igualdade serena de todos os outros, o que um movimento de libertação democrática norte-americano chama os “noventa e nove por cento”.

    Destroços à Deriva (poemas), creio, é o mais comprometido livro de Aníbal C. Pires. Não procura ideologia, procura o mais profundo do nosso ser, do nosso estar. O presente é este falso mosaico, que já não admite outras cores senão as suas e únicas. O que devemos perceber nestas palavras é que o poeta se recusa a sucumbir à desesperança – a luta é parte da vida, e acima de tudo estar sempre atento às brechas de luz e felicidade. De resto, e é sempre muito nos contextos atuais, um rasgado elogio às mulheres sofredoras e à sua sacralidade e beleza frente aos demónios que caem do “céu”, ou à beleza de outras vidas numa cidade sem bombas e na aparência normalizada, sem a raiva mortífera de estranhos e criminosos.

Aníbal C. Pires, sobre toda a sua obra.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental, 28 de junho de 2024.

sexta-feira, 17 de maio de 2024

Quando a poesia vai além de meros jogos de palavras

  

perdido nos dias cinzentos/penetro nas brumas/mergulho no mar à beira-terra/lavo as mágoas/e nutro o corpo

Aníbal C. Pires, Destroços À Deriva (poemas)


    A boa ou grande poesia não será feita só de imagens e metáforas, tantas vezes tão particulares que fazem alguns leitores abandonar as páginas de um livro, esses versos perdendo-se numa espécie de apologia do nada como nalguns quadros de pintura abstrata. É certo que este novo livro de Aníbal C. Pires, Destroços à deriva (poemas), vem ilustrado também pela artista Ana Rita Afonso, como tem acontecido nalgumas das suas obras anteriores, e lá chegaremos em breve. Há aqui uma continuidade de linguagens, e sobretudo de ideias, sem as quais qualquer escrita perde todo o seu sentido. O poeta parte da ilha para o mundo, e do mundo regressa sempre à geografia das suas memórias e afetos sem deixar de expressar ao leitor um interiorismo muito íntimo, mas que no seu andamento do quotidiano aproxima o leitor de uma mundividência que nos permanece comum sem nunca perder a originalidade de cada verso, de cada poema. Sim, Aníbal nunca deixa de nos transmitir a sua própria ideologia de combate, numa visão muito própria, contra o que ele entende ser o desequilíbrio dos mundos nossos. Não se trata de impor qualquer ideologia seja a quem for, tão-só (e é muito) não fugir do que lhe aflige, do que nos aflige como sociedade, quando conscientes do mundo que nos rodeia, do mundo pelo qual cada um de nós é responsável, tal como já tinha escrito no seu Esperança Velha E Outros Poemas. A História está aqui presente em direto e nunca entre linhas, é sugerida pelo próprio estado de ser e estar do poeta. Não há aqui palavras que se ficam, digamos, por sugestões ou insinuações. O leitor acompanha-o como que a ouvir uma sinfonia onde a tristeza antecede a euforia de estarmos e sermos atuantes. A grande arte é esse mistério de nebulosidade seguida da clareza do sol e de um certo bem-estar de alma.

    

    Na verdade os poemas deste livro não são “destroços” nenhuns, são os momentos significantes que definem, uma vez mais, a sua e as nossas vidas. A sua caminhada, desde que chegou aos Açores há mais de 40 anos como docente que sempre foi até à sua aposentação é naturalmente uma experiência muito própria, que sempre incluiu o ativismo político, mas que nos comunica a partilha de um lugar, de um tempo num solo e mar também para ele tornado ao longo dos anos esse tal “território do coração” de que nos falava o escritor americano Willie Morris. Tal como este grande autor que se havia retirado de um estado sulista para Nova Iorque em busca de uma carreira, Aníbal C. Pires nunca deixa de revisitar as suas origens continentais. Estes são poemas do momento atual, com as ilhas ao centro, como reavivam a sua memória desses outros lugares-pátrios, as suas andanças que lhe significam uma identidade, o sentimento de pertença a uma comunidade entre várias margens. Gosto de o chamar um ilhéu continental, como aliás, mesmo após cinco séculos de história, seremos ainda nós todos. Mais do que uma poesia portuguesa, é uma poesia do vasto mundo de língua portuguesa, feito de países e de uma Diáspora que ele bem conhece e muito aprecia. Não quero citar poemas integralmente num prefácio que é seguido das suas próprias palavras, apenas tentar criar nestas linhas o contexto universal que é o nosso, caracterizado nestas ilhas por um céu ora nebuloso, ora das nossas vida iluminadas pela bondade de outros, pelo sol que aparece e se esconde quase simultaneamente, o “espírito do lugar” reconhecido por qualquer um ou todos os seus versos, mesmo que ele neste livro reclame as intimidades da sua felicidade, demasiado humana, como um outro filósofo definiu há muito tempo, e a beleza, a “estética” dos seres humanos com quem ele convive, conhece ao longe, ou simplesmente imagina. Estes não são poemas só da escuridão que nos assola, muito pelo contrário.

    

    Destroços À Deriva (poemas) vai evoluindo de verso em verso nessa clareza de visão, e sobretudo no silêncio das suas casas aqui e além-mar, o calcorrear de pedras açorianas não escorregadias, mas sim firmes na sua crença de que a vida, sua e nossa, continuará a conhecer o mundo que nos é triunfal como a necessidade da luta contra os que de tudo fariam – fazem – um inferno. Temos nestas páginas o verde e azul dos nossos dias, como a desgraça indizível dos meninos de Gaza cujo destino, por que poderá simbolizar o pior da humanidade em muitas outras geografias oprimidas, abusadas, usadas a favor de minorias de toda a espécie, essas terroristas num sentido tão real como diabólico na sua ganância e violência que vão além das armas – boa parte do nosso mundo é para estes um recurso de riqueza roubada, de atentado aos mais elementares direitos e dignidade de todos os outros. Cada leitor terá a sua interpretação, a memória desperta, a ideologia que o comove. Aníbal C. Pires não esconde nunca essa interpretação do que conhece em palavras que brilham pela sua claridade, pela sua generosidade, pela sua cumplicidade com todos os que lutam desde sempre contra todos que nos esmagariam de todas as maneiras e proveito próprio. A sua poesia recusa um olhar banal e displicente – como boa parte da poesia dita, mais ou menos, académica – ante as forças que nos querem recusar dias tranquilos e de igualdade serena de todos os outros, o que um movimento de libertação democrática norte-americano chama os “noventa e nove por cento”.

    Eis aqui ainda a saudade de uma pessoa amada, a necessidade de nos percebermos a nós próprios e nos darmos conta, sempre, do “outro”, a humanização em silêncio de respeitarmos todos os que nos acompanham. Aníbal tem deixado ao longo da sua carreira literária, em poesia e prosa, a sua história pessoal e da coletividade a que pertence. Trata-se de um dos mais preciosos contributos aos nossos arquivos da arte literária. Quanto à muito debatida e indefinida açorianidade, a adoção das nossas ilhas dão-lhe esse estatuto pouco comum entre nós, de todo original da nossa literatura, como a prosa de Toada do Mar e da Terra, entre muito mais da sua escrita.

    


    U
ma palavra sobre Ana Rita Afonso, já referida por mim neste texto. A forma e cores das suas aguarelas são uma outra leitura de Destroços à deriva (poemas): vão além de qualquer abstração, ilustram com saber e brilhantismo os momentos variados de cada poema, as suas cores estão associadas às palavras do poeta. São as formas e as cores vivas ou mais escuras do que ela percebe ser o estado de alma, o estado de espírito do poeta quando aborda os temas que dão do mesmo modo forma a cada verso, a cada sequência poética do seu pensamento e da ideia subjacente a cada um deles. Nunca enchem a tela, como que a dizer que o mundo e a vivência do poeta vai continuar a preencher o que ainda ficou por dizer na busca de dias e de um mundo que que poderá ser redondo e sempre a girar, mas incompleto, desigual, a um tempo bom e cruel.

    Destroços à Deriva (poemas), creio, é o mais comprometido livro de Aníbal C. Pires. Não procura ideologia, procura a humanidade no seu melhor. O presente é este falso mosaico, que já não admite outras cores senão as suas e únicas. O que devemos perceber nestas palavras é que o poeta se recusa a sucumbir à desesperança – a luta é parte da vida, estar sempre atento às brechas de luz e felicidade. De resto, e é sempre muito nos contextos atuais, um rasgado elogio às mulheres sofredoras e a sua sacralidade e beleza em frente aos demónios que caem do “céu”, ou à beleza de outras numa cidade sem bombas e na aparência normalizada, sem raivas mortíferas de estranhos e criminosos.

Aníbal C. Pires, Destroços À Deriva (poemas), Ponta Delgada, Letras Lavadas edições, 2024.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental, 17 de maio de 2024



sexta-feira, 5 de maio de 2023

Sociedade E Literatura Uma Conversa Com Aníbal C. Pires


Não se encontra nas publicações em livro (poesia ou crónica) a apologia ao meu partido”


Aníbal C. Pires é natural de Castelo Branco, e reside em São Miguel desde 1983, quando começa a exercer a docência na Escola Básica Integrada Roberto Ivens, e depois noutras instituições escolares dos Açores até à sua aposentação em 2021. É desde há muito militante do Partido Comunista Português, e foi deputado à Assembleia Legislativa Regional dos Açores durante os mandatos de 2008-2016. A sua extensa atividade política e cívica nas ilhas é uma constante da sua vida dedicada às causas que defende, desde questões relacionadas com as migrações dos nossos tempos à representação sindicalista da FENPROF, sendo neste momento Presidente da Mesa da Assembleia Geral do Sindicato dos Professores da Região Açores. Lado a lado a tudo isto e algo mais, é autor de uma notável obra literária dividida entre poesia (O Outro Lado – palavras livres como o pensamento, Esperança Velha e outros poemas), crónica (Toada do Mar e da Terra Volume I), ensaio (a sua tese de mestrado Imigrantes nos Açores – representações dos imigrantes face às políticas e práticas de acolhimento e integração), e ainda ficção (O Encanto dos Sonhos). Tem sido colaborador de vários periódicos ao longo dos anos, e da nossa rádio e televisão. Atualmente é colunista do Diário Insular, de Angra do Heroísmo, e mantém o blogue intitulado Momentos.

A presente entrevista faz parte do que tenciono desenvolver com alguns escritores açorianos sobre a sua visão respeitante ao que entendem ser o lugar da literatura em sociedades cuja historicidade as condicionou, e que atualmente se encontram na encruzilhada da modernidade, num mundo em ebulição quotidiana ante novos e radicais desafios da vida da mente e do ato literário em busca, sempre, do seu significado no caleidoscópio humano em qualquer geografia ou comunidade.

*

Já tens uma bibliografia considerável, particularmente no ensaio, crónica e poesia. O que tem motivado a tua escrita ao longo destes anos?

As motivações são diversas e estão ancoradas nos princípios caraterizadores da minha vida pessoal, profissional e pública e com as “obrigações” inerentes ao ofício no qual construí uma carreira de que me orgulho. Os encargos profissionais a que me refiro não se constituem como deveres ou conteúdos funcionais da docência, foi uma opção pessoal por entender que ser professor é, também, ser um interventor social. Mas ainda antes de precisar a resposta à tua pergunta, permite-me fazer uma breve introdução sobre o percurso que me trouxe até aqui.

A atividade como autor tem a sua génese nas páginas dos jornais regionais, aliás instrumento do qual, nem todos, mas alguns autores e escritores de renome utilizaram para iniciar e exercitar a construção literária de que hoje são verdadeiros mestres. O que, sem falsas modéstias, não é o meu caso. Não sou um autor que trabalhe as palavras como o fazem alguns artífices da poesia e da literatura que as lapidam como se de diamantes se tratassem, depurando cada frase, cada parágrafo para conferir à sua obra um brilho singular e a dimensão literária que lhes reconhecemos e admiramos. Eu sou apenas um aprendiz de obreiro da escrita e a mais não anseio, o que já me satisfaz, face a tudo o que tenho feito ao longo da vida.

A escrita e a partilha de opinião entraram nas minhas rotinas tardiamente, só em 2003 (aos 47 anos) iniciei a publicação de textos de opinião na imprensa regional, que ainda mantenho, tendo apenas interrompido entre 2019 e 2021.

Em março de 2008, com a criação do blogue “momentos”, a escrita assumiu outros contornos e dei início à publicação dos primeiros textos poéticos, num processo que resultou, em grande parte, das deambulações pelo arquipélago (ainda antes de ser eleito deputado). A entrada na blogosfera constituiu-se, seguramente, como uma nova etapa neste aspeto particular do meu percurso que mais tarde levou à publicação, em livro, de crónicas, poesia, e um conto infantojuvenil. Tenho também alguns ensaios académicos, na área das migrações, dispersos por publicações especializadas.

A principal motivação que está na génese deste percurso pela escrita resulta, em primeira instância, do dever cívico que decorre, em grande medida, do exercício da profissão que escolhi. Ser professor, tal como o entendo, não se reduz apenas à transmissão e partilha de conhecimento em contexto de sala de aula. O professor deve ser, sem a tal estar obrigado, um agente cultural e um interventor social. Muitos docentes assumem esse papel sobre as mais variadas formas, no associativismo desportivo, cultural e de solidariedade, ou seja, integrados e com intervenção na sua comunidade. O meu percurso até chegar à escrita está recheado de exemplos de intervenção nas comunidades de pertença e na promoção de iniciativas de inclusão e afirmação da diferença.

A escrita hoje é um porto onde me abrigo sem, contudo, me acomodar. Os textos que publico não são anódinos, mas não impõem verdades absolutas e procuro, sempre, deixar espaço para a reflexão dos leitores, procurando contribuir para que formulem a sua própria opinião.

O tempo em que grafo no papel as palavras sendo prazeroso e solitário não é de autossatisfação, o tempo e o objeto que estão associados à escrita que tenho partilhado através das publicações em livro, ou no blogue. É, ainda e sempre, um tempo de partilha e de intervenção. É, ainda e sempre, o professor que habita em mim, pois ser professor é ter a capacidade de tornar comum o conhecimento, mas também criar espaços de reflexão que induzam o pensamento crítico e a autonomia.

O imaginário que sobressai de todos os teus livros está centrado nos Açores, desde a prosa de Toada do mar e da terra à poesia de Esperança Velha e de O Outro Lado. Onde ficam as tuas origens continentais?

Vivo há 40 anos em Ponta Delgada, conheço todas as ilhas, concelhos e freguesias açorianas. O tempo, o conhecimento e a participação cívica, que assumiu facetas diversas, contribuíram para que os Açores assumissem uma centralidade que outras geografias, físicas, culturais e dos afetos, estruturantes daquilo que sou, foram perdendo. Não deixei de ser um beirão que cresceu no sopé Norte da Gardunha a olhar para a vasta e fértil “Cova da Beira” que se estende até à vertente Sul da Estrela, essa matriz primordial está impregnada no meu ser e convivo bem com esta dupla pertença. Por outro lado, procuro, como sempre fiz desde que aqui cheguei, encontrar as pontes entre a interioridade e a insularidade. Temos uma história contemporânea comum (a que vivi e observei) e os dramas humanos que se viveram nos Açores, ainda que com outra dimensão, viviam-se no interior continental. A sangria populacional provocada pela emigração e o espetro da guerra colonial, o abandono a que as populações das aldeias e vilas do interior estavam sujeitas, a pobreza, a propriedade da terra, o isolamento, as fragilidades e lacunas nos cuidados médicos e na educação, são-nos comuns. Cresci e tornei-me num jovem adulto a conviver com uma dura realidade que só com o 25 de abril de 1974 se alterou. Nem todos os sonhos daquela madrugada se concretizaram, houve quem se encarregasse de fechar algumas das portas que abril abriu.

Tudo isto para te dizer que a minha escrita está, natural e profundamente, ligada aos Açores sem deixar, contudo, de estar embebida nas origens beirãs e, de uma certa forma universalista de ser e estar no mundo. As geografias podem ser distantes e culturalmente diferenciadas, mas o que nos aproxima suaviza as diferenças, afinal somos humanos e essa condição, entendida como uma pertença na diversidade, é decisiva para que a produção literária e outras artes, independentemente das geografias onde é criada, tenham algo que nos acerca. Por mais que as distâncias culturais nos separem, a expressão artística evidencia as raízes ancestrais que temos em comum, ou dito de outra forma, para chegarmos à inteligência artificial primeiro foi necessário inventar a roda e domesticar o fogo. Foi um longo caminho com muitas encruzilhadas e diferentes percursos que deram origem a uma diversidade de civilizações e culturas, mas todas elas com uma raiz comum (humana), mas nem sempre devidamente reconhecidas e respeitadas o que teve (e tem) como efeito a justificação para alguns dos mais hediondos crimes contra a humanidade.

Perdoa-me estas divagações. Estes devaneios acontecem-me com frequência deve ser uma patologia qualquer relacionada com a atenção, ou à incapacidade de reduzir as questões que me são colocadas a respostas lineares, talvez por que nem tudo é tão simples como por vezes parece, ou talvez seja mesmo um problema só meu, mas no emaranhado das palavras ditas a tua pergunta já terá tido a sua resposta algures por aí perdida nos parágrafos anteriores.

A encerrar a questão sempre te direi que viver nos Açores teve importância em todos os aspetos da minha vida. Quando me fixei definitivamente na Região já trazia comigo o engajamento político e social, o casamento, duas filhas e estava integrado na carreira profissional. Depois veio mais um filho, nado e criado em S. Miguel, e toda uma vida de descoberta e de intervenção que acabou por me levar à escrita. Se teria sido possível em qualquer outro lugar. Não sei! Talvez, mas nunca como nestas ilhas, embora a Beira Baixa e o seu povo, de onde sou oriundo, sejam igualmente inspiradores.

Como muito bem sabes, está de volta uma espécie de neorealismo, agora denominado de “autoficção”. Onde colocas a tua obra neste ressurgimento que tem as questões sociais em geral como temática ressuscitada após algumas décadas de muitos intelectuais fechados em redomas, digamos, existenciais?

Quero, antes de mais, fazer uma declaração de princípio. Não sou adepto da categorização e compartimentação que académicos e, alguns, críticos fazem da produção poética e literária. Não perfilho dessa forma de olhar a produção artística poética, literária ou outra, pois daí resulta, por norma, uma hierarquização valorativa da qualidade nem sempre fundada em critérios muito objetivos, isto é, a qualidade de um objeto artístico é avaliada por variáveis dependentes de fatores muitas vezes exógenos à própria obra, seja ela literária ou não. Aceito que para os estudos académicos são necessárias algumas referências e a contextualização espacial e temporal, mas daí à categorização, compartimentação e, por consequência, à hierarquização de estilos, obras e autores, já não aceito. Direi mesmo que é abusivo e tem como efeito a colonização intelectual, a uniformidade do pensamento e, por conseguinte, uma visão redutora e unilateral da produção artística olhada e avaliada por padrões eurocêntricos. A história do património cultural material e imaterial da humanidade, das ciências e do pensamento, é anterior às civilizações mediterrânicas que nos servem de referência.

A declaração de princípio responde a uma das questões que colocas. Não situo, obviamente, os meus escritos em nenhuma corrente literária, pelo que já ficou dito e por não ser juiz em causa própria, coisa para a qual não estou, de todo, talhado.

As abordagens poéticas e literárias decorrem da impressão do momento, da contemplação do belo, do impulso para reagir à desgraça globalizada, da reflexão política e social, e têm como objeto a partilha da visão que tenho sobre o que me envolve, o que me perturba, o que me comove, mas também a desconstrução, pelo menos tento, das inevitabilidades que os poderes, bastas vezes, nos tentam impor como se não houvesse alternativas ao aumento dos juros e do custo de vida, ou à guerra onde quer que ela aconteça. As minhas motivações são, como vês, muito variadas, como diversos e aleatórios são os temas sobre os quais escrevo.

Em relação ao eventual “regresso” do neorrealismo, sob a denominação de “autoficção”, não tenho uma opinião acabada e, por outro lado, percebendo que estamos a falar de uma estética literária, o neorrealismo, que tendo feito escola em Portugal, a partir dos anos 40 da centúria anterior dentro do género literário designado por modernismo, contribuiu para a tomada de alguma consciência social de quem acedeu às obras dos neorrealistas nacionais, porém, este movimento literário nunca foi, mesmo entre alguns teóricos marxistas, um estilo que granjeasse o reconhecimento que se atribuiu a outras estéticas literárias, mas como tudo na vida é necessário fazer a contextualização social e histórica que está na base do neorrealismo português para se perceber o seu surgimento e a sua importância como instrumento de intervenção política, mas também saber de que obras e autores falamos e a importância que esta produção literária teve para a já referida tomada de consciência, não só social como política e de classe, ou apenas, o que também é importante, pelo simples prazer da leitura de narrativas com as quais a proximidade espácio-temporal se constitui como um elemento de identificação e motivação para viajar através de uma narrativa.

A autoficção é-nos apresentada como um estilo literário, relativamente recente (1977), e que combina, ou mescla, dois estilos, aparentemente contraditórios, a autobiografia e a ficção. E digo aparentemente opostos pois, na minha perspetiva sempre caminharam juntos. A ficção não se dissocia do autor, a forma e o tema da narrativa de ficção por mais que resultem do imaginário têm sempre uma marca autobiográfica, diria que, as obras de ficção refletem o modo como o autor vê, sente e entende o mundo que o rodeia, o conhecimento dos fenómenos naturais, sociais, culturais, políticos e económicos do seu tempo, o domínio do conhecimento científico e do funcionamento da língua, de entre outros atributos que caraterizam o autor e, por consequência, a ficção é, para mim, uma narrativa que carrega a marca inimitável do seu autor. E se isto se pode aplicar à ficção pode generalizar-se a todos os géneros literários. O autor pode utilizar um estilo literário que o “coloca” num ou outro género, segundo os cânones da literatura, mas a sua poesia ou a sua prosa tem sempre algo de si e do seu tempo.

Mais uma vez fui mais longe do que devia, ainda por cima em territórios que não conheço bem, e, é possível que me tenha perdido pelo caminho, mas daí não vem mal ao mundo.

Voltando à última parte da tua questão. A realidade que nos envolve e nos afeta nunca terá sido de todo abandonada pelos poetas e escritores, a poesia e a literatura foram sempre utilizadas como um instrumento de intervenção ideológica, mesmo por aqueles autores a que te referes como estando enclausurados nas suas redomas existencialistas, ou seja, centrando a sua escrita no individualismo e nas suas angústias, mas também encontrando um sentido para a vida sem atender ao contexto social em que vive e, por conseguinte, desenvolvendo uma certa forma de pensamento que alimenta(ou) quadros ideológicos diferenciados, abordagens mais conservadoras, mas também com muitos registos inovadores.

Para terminar, ainda que de forma inconclusiva, dir-te-ei que as fronteiras, estabelecidas pelo cânone literário, são ténues e fluidas e, como tal, sujeitas a interpretações diversas, como díspares são os públicos/leitores. Para um leitor como eu, importa muito pouco, a catalogação num género literário. Leio por prazer e o meu gosto é eclético, não deixando de ser criterioso.

Até que ponto as tuas opções políticas e ideológicas, publicamente conhecidas, influenciam a tua escrita, se é que alguma vez a influenciaram?

O quadro ideológico e político onde me situo faz de mim o cidadão que sou e não outro e, por conseguinte, todas as minhas atividades se desenvolvem consciente ou inconscientemente dentro dessa matriz, desde logo na escrita. Não o assumir, seria negar os princípios e, os meus não estão à venda. A resposta linear à tua pergunta é: Sim, as opções políticas e ideológicas influenciam a escrita, como a essas opções se fica a dever a minha aventura pelas letras. Não só, mas também por isso.

Quero, contudo, tentar deixar claro que o facto de me situar num quadro político e ideológico não significa, literalmente, que a escrita seja panfletária e partidária. Uma e outra coisa podem e devem dissociar-se.

Os textos que publico não têm como objetivo a colonização do pensamento de quem me lê, porém não é inócua, tem sempre subjacente uma certa forma de ver o mundo, contudo não é hermética, não no sentido da sua complexidade, mas das ideias. Procuro sempre deixar espaços para o leitor que induzam a reflexão pessoal e a construção do seu próprio pensamento, ou seja, como disse Frida Khalo: “Não quero que pense como eu, só quero que pense!”. Eu acrescentaria … e deixe de regurgitar opiniões, tenha a sua.

Não se encontra nas publicações em livro (poesia ou crónica) a apologia ao meu partido. Encontra-se, isso sim, uma certa forma de ver, sentir e analisar o que se passa à minha volta, seja no lugar onde vivo ou no rincão mais remoto do planeta e que resulta, isso sim, da matriz ideológica que me conforma. Nem todos os autores o assumem, mas todos, sem exceções, escrevem em conformidade com a sua matriz ideológica, ainda que não pretendam, com isso, mais do que partilhar o que pensam e como leem o mundo. Dirás que a obra do Pedro Chagas Freitas, é o único autor a que me vou referir, é asséptica e, como tal, sem nenhuma contaminação ideológica, eu diria que a escrita deste autor que se destina ao consumo de massas, é alienante, promove o “status quo” e, quer se queira, quer não queira, essa será a sua marca ideológica. Deixar tudo como estava e lucrar com a inércia que estupidifica.

O que te levou a defender uma tese de mestrado sobre imigração e migrações, muito antes de estas questões estarem diariamente a ser tratadas na nossa comunicação social e nos mais diversos livros?

As migrações fazem parte do meu imaginário. Como já referi cresci no interior continental e cedo me dei conta de como as migrações alteravam a paisagem humana das aldeias e vilas da minha região de origem, cedo percebi as motivações para abandonar o berço e procurar nas mais diversas latitudes e longitudes as oportunidades que a pátria madrasta negava e, também, cedo me dei conta que a circulação de migrantes tinha dois sentidos. A sangria populacional foi de tal dimensão que houve necessidade de deslocar população para suprir necessidades de mão-de-obra quer na zona da grande Lisboa, quer no interior continental, quer também nos Açores. Todos temos conhecimento da vinda de cidadãos cabo-verdianos nos anos 70, ainda antes do 25 de abril, como mão de obra de substituição. Em Lisboa para a construção civil, na Beira Baixa para as Minas da Panasqueira, nos Açores para a pesca. Ficam apenas estas referências, outras existem.

A vinda para os Açores aguçou, ainda mais, o interesse pela movimentação das populações e as histórias de sucesso, mas também de insucesso dos percursos migratórios, que todos conhecemos e nos fascinam e têm servido como fonte de criação literária.

Como vês o contato com os movimentos migratórios acompanham-me desde sempre e essa poderia ser, só por si, a motivação suficiente para me dedicar ao estudo dos movimentos migratórios. A estas vivências acresceram conhecimento e o interesse pelos movimentos das populações, compulsivos ou não, foi crescendo. Iniciei os estudos de Mestrado em Relações Interculturais após duas visitas de trabalho a S. Tomé e Príncipe (2000 e 2001), de onde resultou o interesse pelo aprofundamento por um aspeto da nossa herança colonial que não é muito conhecido e ficou por resolver. Com o fim da escravatura foram transferidas populações de Angola, mas sobretudo de Cabo Verde, para trabalhar nas roças de cacau em S. Tomé e Príncipe, os chamados “contratados” ou “serviçais”. Com o processo de descolonização e independência os “contratados”, em particular os cabo-verdianos, ficaram esquecidos e continuam à espera da viagem de retorno. Não sendo um caso único de uma população que face a alterações políticas profundas passaram de nacionais a estrangeiros. A implosão da União Soviética criou situações semelhantes.

Se é verdade que a situação dos “contratados” se começou a desenhar como o objeto de estudo do trabalho final de Mestrado, não é menos verdade que o facto do objeto de estudo estar distante me levou por outras opções. Cheguei a equacionar, por sugestão do meu professor de Metodologia da Investigação, a hipótese de me dedicar ao estudo da problemática dos cidadãos nacionais a quem é aplicada a pena acessória de expulsão dos Estados Unidos e do Canadá, mas ao tomar consciência da quantidade e diversidade de cidadãos estrangeiros a viver e trabalhar nos Açores, num momento que coincidiu com a génese da Associação de Imigrantes nos Açores (AIPA) da qual sou um dos fundadores, optei por direcionar o estudo para a análise das representações dos imigrantes, face às práticas e políticas de acolhimento e integração dos cidadãos imigrantes, numa Região fortemente marcada pela sua própria emigração.

O trabalho foi concluído em 2003 e foi editado pelas Edições Macaronésia, em 2010.

As opções não dependem, em exclusivo, da nossa vontade e não faço a afirmação com mágoa por ter abandonado a ideia inicial, embora o tema continue a ser aliciante e só não voltei a ele, como a outros, em virtude das responsabilidades partidárias (2005/2017) e de representação política institucional (2008/2016) que assumi.

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BorderCrossings do Açoriano Oriental, 5 de maio de 2023