segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Quando um livro inesperado nos aparece

                      


    O mundo de cada um é por vezes demasiado grande para caber dentro de uma só pessoa.

João Gago da Câmara, O Chamamento.


    A minha epígrafe para este texto é da autoria do próprio autor de um primeiro romance, O Chamamento de João Gago da Câmara. A descoberta da nossa literatura, neste caso açoriana, tem-me chegado desde sempre de quando em quando ao longo de décadas e nos mais improváveis contextos. Conheço o autor há muitos anos, desde que regressei definitivamente aos Açores em 1991, mas conheço-o como jornalista e cronista em jornais e noutros meios de comunicação, sem nunca prever esta sua incursão ficcional numa narrativa de grande fôlego, mais de trezentas e sessenta e tal páginas de prosa aliciante sobre a nossa emigração para os Estados Unidos no princípio do século passado, e em circunstâncias que para nós são demasiado conhecidas e seguidas de um destino pouco comum para o tempo e certas geografias desconhecidas mas sonhadas. Não se trata aqui de um romance que repete os estereótipos do costume sobre a nossa imigração entre outros escritores nossos. O Chamamento está algures entre o trabalho de investigação aturada nas ilhas e na América do Norte e o jornalista e escritor que trabalha a palavra com a maior criatividade e sabedoria da realidade dos açorianos que enfrentaram na sua aventura de salvação e desespero na busca do outro futuro e, sim, a rejeição da vida secular sem promessa nem perspetiva de bater o afogamento de serrados e vacas que pouco mais de mera sobrevivência ofereciam à maioria do seu povo, por mais que iludissem os que nunca foram descendentes de capitães generais e capitães donatários, alguns dos quais provavelmente nem conheceriam a geografia atlântica e as ilhas de que eram “donos”. A boa escrita é sempre um ato de redenção, uma acusação antes de ser a saudade dos seus filhos e filhas.

    

    Não vou entrar nos pormenores sobre as muitas personagens que pululam, vivem e simbolizam o destino açoriano desde sempre, e que permanece até aos nossos dias. Nascer nos Açores é um paradoxo, como suspeito ser de outros em muitas outras terras: amar as origens e querer logo depois fugir delas. Um novo mundo é sempre uma outra vida imaginada ou, uma vez mais, sonhada, faz parte, suponho, da condição universal, a noção de uma qualquer “utopia” parece provocar o impulso de cada ser humano. A nossa, a dos açorianos, foi sempre as Américas, desde o norte ao extremo sul daquele vasto continente, desde o frio do Canadá ao sul do Brasil e outros países vizinhos. É uma promessa que antes da escrita em várias formas já fora transmitida pela boca de torna-viagens de toda a parte, pelas fantasias que começam com uma história de descobertas muito antigas, com o instinto e sofrimento de terras do nosso lado quase sempre oprimidas e governadas por heteridade desde os tempos mais antigos. A maior parte dos açorianos nunca se conformaram com o seu destino fechado a meio mar e sempre numa terra tremida, num ajuste económico e social entre uns poucos escolhidos e uma maioria oprimida ou sem meios de vida razoáveis. Até hoje, quando boa parte dos nossos jovens continuam a sonhar e a querer partir – e partem sem sossego ou crença em melhores dias.

    

    O Chamamento de João Gago da Câmara nasce de longas conversas com uma senhora de Angra do Heroísmo que conta a história da sua família na freguesia do Raminho, na lha Terceira. Tem 88 anos de idade, e chama-se Clarinha Ferreira Cota. Conta em conversas e memória viva a João Gago da Câmara as longínquas andanças dos seus, nos Açores e nos Estados Unidos, quando ainda cavalgavam por lá os seus donos nativos – os “índios” – em defesa de si próprios, mas já em diálogo sereno negociavam de vários modos amenos com todos que eram trabalhadores nos seus territórios e arredores, desde que não fossem militares federais. A originalidade do romance de João Gado da Câmara reside nesse pressuposto ou realidade histórica já no início do século passado, em que a nossa gente aumentava a fuga de resistência à falta de qualquer outra esperança para as suas vidas. O protagonista chama-se António Cota, o irmão de uma grande família que já tinha emigrado, e ele ainda desde tenra idade nos Açores reduzia-se a tomar conta da lavoura dos seus pais que tinham ficado, avistando o dia em que ficaria a trabalhar só, e só com a promessa de herdar uma pequena parte dos anos mais ou menos solitários do seu trabalho e suor. É uma história muito nossa, muito comum. Um dia deixa a mulher que namorava e amava contra uma vida que apenas prometia mais trabalho e divisão de bens com os que haviam partido. A História, diria um dia alguém proeminente na luta por outro mundo, primeiro acontece como tragédia e depois repete-se como farsa. Só os corajosos quebram o ciclo da tradição. Com um irmão mais velho que havia escolhido a nossa geografia americana mais improvável nessa altura, creio, Wyoming (hoje no noticiário diário em todo o mundo pelas piores razões de violência injustificável) nas profundezas do interior na América das nossas ilusões, pastores prósperos de ovelhas, depressa se tornam o braço direito de António ido da Ilha Terceira secretamente.


    J
oão Gago da Câmara leva-nos ainda ao encontro do resto dos irmãos também
residentes e fazendo as suas vidas em geografias que raramente nos aparece na literatura referente à nossa imigração: Las Vegas, aonde reside parte da família e, como seria de esperar, na Califórnia. Cavalos, comboios, trabalho e festas em casa de um ou outro – até que os anos passam e inevitavelmente o futuro regressa. Boa parte dos açorianos acaba por visitar a terra outrora do seu sofrimento, para agora a festejar. Uns ficam permanentemente, outros regressam ao outro lado do mar. Numa história investigada e escrita entre a investigação jornalística e agora feita ficção, aqui está uma previsão dos nossos próprios dias. Já não são os “indios” a patrulhar as poucas terras que lhes restam ou restaram; é a saudade real e não mitificada que fica prevista nesta narrativa. São agora outros que provocam a vontade dos regressos – a insegurança da “terra prometida” tornada pesadelo para os mais conscientes. Cada imigrante regressado com quem falo atualmente mantém um silêncio visivelmente magoado. Outra parte deles, sentindo-se senhores de uma terra de que nunca foram, pelo menos num outro regime atual poucas vezes antecipado na sua história, continuam felizes. Só que do rebanho de ovelhas ou vacas que outrora cuidavam tornam-se alguns deles atualmente em “ovelhas obedientes”, sem palavra nem queixas. Nunca ninguém deixou esta terra açoriana sem lágrimas nem adeuses quase apocalípticos. Sei disso pessoalmente. Uma vez mais: a História primeiro acontece como tragédia, e depois como farsa. Nada dos nossos dias que correm ilustra esta verdade com tanta força e urgência. A terra da promessa parece tornar-se a terra do mais assustador gelo, real e metafórico.

    O Chamamento é uma dessas narrativas a que os americanos chamam o page-turner, num gesto de leitura quieta queremos virar cada página para saber o que vem a seguir. Isto é a melhor qualidade de um bom livro. Para alguns escritores entre nós torna-se mero jogo de palavras que nada significam para além de nos fazer consultar páginas de um qualquer dicionário à procura de sentidos que nos iludem – e nada significam para além do ego de quem os escreve apenas para si próprios ou para o amigo de ocasião.

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João Gago da Câmara, O Chamamento (prefácio de Rita Ferro) Lisboa, cordel d’ prata, 2025.

Publicado no BorderCrossings do Açoriano Oriental, 30 de janeiro de 2026


sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Ainda Carlo Matos e o reencontro com as suas raízes açorianas

    

    Carlo Matos é um autor bi+/poly que publicou 13 livros, incluindo We Prefer the Damned (Unbound Edition Press) e As Malcriadas: or Names We Inherit (New Meridian, 2022). Os seus poemas, contos, ensaios e recensões têm saído em inúmeras publicações. Os seus livros foram recenseados em publicações como Kirkus ReviewsBoston ReviewIowa Review e Portuguese American Journal. Carlo recebeu bolsas e apoios da Disquiet ILP (Portugal), CantoMundo, Illinois Arts Council, Sundress Academy for the Arts e La Romita School of Art (Itália). É membro fundador do coletivo de escritores luso-americanos Kale Soup for the Soul e vencedor do Heartland Poetry Prize. Vive atualmente em Chicago, é professor nos City Colleges of Chicago e foi lutador de MMA e kickboxer. A nossa conversa foi feita por escrito, com trocas continuadas a propósito desta entrevista. Nesta versão para o Açoriano Oriental parte da resposta que se segue foi cortada a favor do espaço desta página.

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    Na minha recensão  A School for Fishermen, publicada aqui nos Açores, escrevi: “Fishermen do açor-americano Carlo Matos é uma viagem persistente por geografias vividas e imaginadas, uma narrativa com várias vozes, todas elas ligadas a uma mesma família que tenta apaziguar a ansiedade provocada pelas sombras de um certo passado, tanto em dias luminosos como em tempos mais sombrios...” Como chegou a esta necessidade artística?

    Costumo dizer que Fishermen é o tipo de livro de poesia que um dramaturgo poderia escrever. Embora tenha começado como poeta, apaixonei-me pelo teatro muito cedo na faculdade, e apaixonei-me a sério. Ao contrário da poesia, tive quase sucesso imediato (na medida em que isso existe) no teatro, enquanto lutei por anos para escrever poemas suficientemente bons para serem publicados. Acho que isso se deve, em grande parte, a todas as ideias erradas sobre poesia que herdei de filmes, séries de televisão e até de alguns professores bem-intencionados. Não tinha os mesmos preconceitos em relação à escrita dramática, por isso não tive de perder tempo desaprendendo maus hábitos.

    Curiosamente, o meu pai também escreveu peças quando era jovem, e eu sempre estive envolvido em teatro como intérprete, por isso, o teatro fazia parte da cultura da minha família. Não é que os meus pais fossem propriamente apoiantes da minha presença em palco, mas também não resistiam nem denegriam — o que, em minha casa, era o mais próximo de apoio que se podia ter. Ainda assim, nunca tinha escrito uma peça antes da universidade.

    Mais ou menos na mesma época em que escrevia, encenava e produzia peças, consegui pôr as mãos em Fernando Pessoa & Co., de Richard Zenith. Se não me engano, cronologicamente, terminei a minha primeira peça em 1997 e o livro do Zenith saiu em 1998. Estava há uma vida à espera de encontrar um livro de poesia portuguesa em tradução. Consigo ler português, mas muito mal, e nunca seria capaz de lidar com poesia ou prosa sofisticada com alguma fluência.

    

    Um dos meus cursos académicos é em teatro, e os outros, em literatura; por isso, estudei incontáveis autores europeus. A minha tese de doutoramento, por exemplo, foi sobre Henrik Ibsen. Na escola, estudei escritores de toda a Europa, mas nenhum de Portugal (ou de descendentes de portugueses). Nenhum! No secundário, lemos muitos autores da “lost generation” como Hemingway e Fitzgerald, mas não Dos PassosManhattan Transfer é um livro excelente, mas tive de descobri-lo sozinho. Ninguém mencionou que Emma Lazarus, a autora do célebre poema da Estátua da Liberdade, também era de ascendência portuguesa. E eu cresci num lugar cheio de portugueses; por isso, o que se passava ali? Porque é que passava todo o meu tempo a ler, sobretudo, escritores ingleses?

Não me interprete mal: ainda adoro muitos desses escritores; gostar ou não gostar deles não é a questão. A questão é que os escritores do país de onde vem a minha família foram praticamente apagados do currículo das minhas várias escolas. Ainda hoje, embora esteja muito melhor, o número de livros traduzidos para inglês é relativamente pequeno comparado com escritores de outros países. Foi preciso o Saramago ganhar o Nobel, em 1998, para as coisas começarem, finalmente, a mudar a sério.

    O livro do Zenith foi o que eu queria há tanto tempo. E o Pessoa, claro, é um escritor selvagem à partida, tornando as explorações de persona de poetas como Eliot e Pound em brincadeira de criança. As heteronímias de Pessoa conduziram-me indiretamente à ideia de escrever poemas de persona por meio da dramaturgia. Dessa forma, podia escrever sobre os temas que vinha explorando há anos, mas a partir de uma perspetiva mais distanciada. Eu ainda era um homem muito jovem quando comecei a escrever os primeiros poemas que viriam a constituir Fishermen. Os poemas mais antigos dessa coletânea datam de 1998, quando eu ainda estava no penúltimo ano da faculdade. Precisava de sair da minha frente, por assim dizer, e fiz isso criando personagens como fazia nas minhas peças.

    João Filipe — a voz de “Stonemasonry” — torna-se pedreiro, como o meu pai, e desenvolve, por assim dizer, toda uma metafísica em torno da construção e destruição de muros. Eu também tentava associar a cantaria a outras formas de conhecimento esotérico: o pedreiro como maçom ou outra espécie de sociedade secreta que diz guardar saberes ocultos.

    A voz do Filipe surgiu quase totalmente formada. Foi um daqueles raros momentos quase místicos de que costumo desconfiar. Não é que não faça espaço para o acaso; simplesmente não tenho paciência para o misticismo levado demasiado a sério. Parte do trabalho de escrever é estar aberto ao acaso, estar aberto à musa, por assim dizer, mas há uma diferença entre isso e ficar sentado à espera de que algo venha do nada. Se ficarmos à espera da musa a sussurrar-nos ao ouvido, como ainda é tão habitual nas dramatizações populares de artistas e escritores, nunca fazemos trabalho nenhum, ou, pelo menos, não muito...

    Uma das minhas obsessões da chamada “meia-idade”- middle age - é a ideia de ter os sonhos errados. Não sei como é nos Açores, mas na América a noção popular de sucesso é patológica. Ensinaram-nos a nunca desistir. Ouvimos esta frase, nunca examinada, em todos os contextos imagináveis. Há algum mérito nisto, claro. Não podemos queixar-nos de falta de sucesso se não nos dedicamos de forma suficiente ao trabalho duro de lá chegar; contudo, também há perigo nesta ideia. Se nunca desistirmos, aconteça o que acontecer, nunca poderemos distinguir as buscas que valem a pena das que devemos abandonar. Há uma diferença entre trabalhar arduamente e passar a vida a bater a cabeça numa porta fechada até ficarmos em sangue...

    A minha coleção de ensaios breves, The Quitters, lida com a ideia de falhar e desistir repetidas vezes, tentando mostrar como esse “nunca desistir” se torna uma ideia cancerígena, em vez de um caminho para o sucesso.

    Mas a minha primeira abordagem séria desta ideia deu-se com o Felipe. Ele debate-se com os seus muitos fracassos internalizados, alguns já ligados à sua queeridade escondida, que se tornaria um tema central anos mais tarde em We Prefer the Damned. Ele tem uma paixão por um novo heterónimo que inventei, o filho de Alberto Caeiro, o verdadeiro “guardador de rebanhos”. Quis acrescentar o meu heterónimo ao panteão do Pessoa. Foi a minha maneira de me situar na tradição literária do modernismo português. Com algumas referências a Camões e ao fado, foi uma das primeiras tentativas de me ligar a coisas portuguesas para lá da minha experiência pessoal.

    Curiosamente, a árvore genealógica, no início do livro, foi uma das últimas coisas a surgir. Não foi ideia minha, gostava muito que tivesse sido. Veio de um dos meus melhores amigos da altura, que tinha lido praticamente tudo o que eu escrevera até então. Percebi imediatamente que era a ideia certa. Colava tudo.

    Este livro demorou 10 anos do começo ao fim, e foi a minha primeira tentativa de pôr um pé nos Açores e outro nos Estados Unidos, como um colosso. E, como a estátua grega original, sabia que, quando tudo estivesse dito e feito, o mais provável era que só sobrassem uns pés desmembrados para marcar que alguém tinha estado ali, quem quer que fosse.

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  De Gávea-Brown, VOL. L, N.º 2, 2025. Tradução de Diniz Borges. Agradecemos à Gávea-Brown e ao seu diretor Onésimo T. Almeida por permitir que a plataforma Filamentos a publicasse.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental, 19 de dezembro de 2025

 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Parte de uma longa conversa em inglês com o escritor luso-americano Carlo Matos para a revista Gávea-Brown numa tradução de Diniz Borges

 

Como está a viver, enquanto escritor, a situação política e cultural atual nos Estados Unidos?

    Não creio que o surpreenda se disser que é um pesadelo. Custa-me acreditar que um país tão obcecado com a Segunda Guerra Mundial se encontre agora a descer na loucura do fascismo e do totalitarismo, mas uma parte de mim sempre soube que a narrativa superficial da democracia era apenas uma cobertura num bolo de racismo, guerra de classes e suposta supremacia branca. Um país “bem-sucedido” – o que quer que isso signifique – acaba sempre por cansar-se de si próprio e auto-devorar-se. Acordo todos os dias sabendo que haverá mais disparates para enfrentar e, de repente, tudo passou de absurdo a assustador, como suponho acontecer sempre nestes casos. É a pior espécie de paralisia, porque toda a gente sabe onde isto acaba e, no entanto, quase ninguém faz grande coisa. Quando actores e apresentadores de concursos se tornam figuras políticas, é sinal de que os dias estão contados. Fomos tão bons a criar repúblicas de bananas que, de alguma forma, acabámos por nos tornar uma. Há nisto um certo tipo de poesia, suponho. Pela primeira vez na vida, considerei seriamente obter a dupla cidadania e mudar-me para os Açores, mas é fácil dizer isso. A vida real é bem mais complexa do que fugir. Pensei muitas vezes em reformar-me nos Açores, mas falta pelo menos uma década para isso. Nos últimos cinco ou seis anos, tenho trabalhado no meu segundo romance, In the Alien Field. É um desvio em relação à maior parte da minha obra, na medida em que é a minha incursão na ficção especulativa. À superfície, é uma história de vampiros contra alienígenas, mas o livro não trata disso. O livro é uma fantasia utópica. Estou farto de distopias. Vivemos numa, por isso não sei que valor tem de continuar a repeti-las, sobretudo quando, no fim, a humanidade encontra sempre uma forma de se tornar a heroína. Se eu tivesse escrito Terminator ou The Matrix, não haveria sequelas, porque os humanos teriam perdido — e, com o que a IA está a fazer ao nosso mundo, ainda podemos perder essa batalha, custa-me dizer. O meu romance centra-se numa comunidade de vampiros chamada Bruxa. A sociedade bruxa é tudo o que eu desejaria que o nosso mundo fosse. É uma cultura não hierárquica, poliamorosa, areligiosa e bissexual, devotada à arte, à música, à filosofia e a todas as coisas desta vida que têm valor real. Chamam-se bruxas porque chegaram aos Açores com os portugueses. Assumiram traços culturais e linguísticos dos colonos e se escondem à vista de todos. No meu romance, são eles que fundam a povoação de Mosteiros, que, como sabe, é de onde vem a minha família. Estes não são os vampiros pálidos, sedentos de sangue, mortos-vivos sensíveis ao sol que vemos em filmes e livros. Estão bem vivos. Comem comida normal, reproduzem-se como a maior parte dos animais e não são repelidos por crucifixos, água benta ou luz solar. Sim, bebem sangue, e é o sangue que lhes confere imortalidade, mas é a única ligação à tradição dos vampiros a partir de Bram Stoker. Os alienígenas, por sua vez, também não são monstros. A sua característica definidora é ser silenciosa e inescrutável. Os aliens nem sequer conquistam a Terra no sentido convencional. Chegam e encontram o planeta devastado, em ruínas, pois uma praga global matou quase toda a humanidade. Fui profundamente influenciado pela pandemia quando comecei a escrever este livro. Os aliens limitam-se a aproveitar a oportunidade e iniciam um projeto para reparar os estragos causados pelos humanos no ambiente. Em meros 50 anos, transformam o planeta num paraíso natural, algo que as bruxas chamam de Renovação. Fazem-no para cultivar, num ambiente saudável, a sua planta misteriosa. As bruxas estão finalmente livres do medo de serem caçadas e mortas por humanos e vivem num mundo que já não se encontra permanentemente à beira do colapso. E os humanos? Há alguns, uma fração minúscula, que sobreviveram, mas trabalham nas quintas alienígenas, já sem serem senhores do planeta nem de seus destinos. O único motivo de conflito entre bruxas e alecrim (como chamam aos aliens) é o facto de as bruxas precisarem de sangue humano para manter a imortalidade. Não posso dizer muito mais sem revelar demasiado. Estou perto de terminar o livro e impressiona-me perceber quanta realização de desejo está ali. A cultura bruxa é o lugar onde eu pertenceria, mas não creio que exista, neste mundo, uma cultura assim. E o meu país afasta-se cada vez mais disso, tornando-se mais grosseiro, ganancioso, cruel, anti-intelectual e hipócrita. Sempre foi um lugar difícil para um artista, pois confunde o quanto algo rende com a qualidade, e sabemos que essa relação muitas vezes é inversa. Não digo que uma boa arte não possa fazer dinheiro – às vezes faz – mas quanto dinheiro algo faz não é medida de mérito artístico. É por isso que hoje há pessoas famosas por serem famosas, e não por fazerem ou criarem algo.

Vamberto, Alex e Carlo Matos
Quando fomos visitar (os Açores), o Alex disse que gostava do meu trabalho porque era sofisticado, tal como lhe afirmaste. Não tem ideia do que isso significou para mim. Acho de um cansaço extremo ser constantemente considerado – mesmo em críticas muito positivas – um escritor difícil, críptico ou obtuso. Não digo que explique tudo, porque não explico, mas o meu trabalho está bem longe de ser críptico. O meu filho adora The Quitters, por exemplo, e tinha 15 anos quando o leu. Senti que estava a ser dolorosamente óbvio em We Prefer the Damned, muito mais do que me agrada, mas isso não alterou a minha perceção crítica. As redes sociais pioraram isto porque o nível de “dificuldade” para o entretenimento popular é hoje ainda mais baixo. Os criadores sabem que estão a falar para um público provavelmente ao telemóvel, por isso reduzem tudo a pedacinhos digeríveis, para que o espectador distraído não perca o fio. O que se ganha, para além de uma simplificação perturbadora, é um diálogo que, basicamente, volta a dizer o que a imagem já mostra. É como ver um filme ou uma série numa câmara de eco. Torna-se rapidamente tedioso, a interatividade perde-se, o envolvimento intelectual esvai-se e os efeitos emocionais são superficiais. O problema do meu romance, além de oscilar de forma perigosa entre obra literária e ficção especulativa, é que a minha única resposta ao nosso dilema é a humanidade praticamente se extinguir. Não é solução nenhuma. Talvez nem seja particularmente produtivo; não sei.

O que torna tudo isto tão enlouquecedor é o facto de ser completamente desnecessário. Não há, agora, nem há muito, qualquer justificação para a disparidade de rendimentos que está na raiz de tantos dos problemas que enfrentamos. Não há razão para trabalharmos tanto. Não há razão para inventar todos os cargos administrativos desnecessários para manter um sistema que já não funciona. Quando os industrialistas rasgaram as promessas feitas aos trabalhadores, ao confiscarem para si os ganhos da mecanização, condenaram-nos a esta farsa ridícula. À data de hoje, devíamos todos estar a trabalhar um mínimo de horas e o resto do tempo a viver experiências significativas, enquanto a IA e as máquinas tratavam do grosso. Mas, quando a imaginação se empobrece, esta ideia pode ser mais assustadora do que trabalhar até cair. Caso contrário, não entendo o que estamos a fazer – e provavelmente nunca entenderei.

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De Gávea-Brown, VOL. L, N.º 2, 2025. Tradução de Diniz Borges. Agradecemos à Gávea-Brown e ao seu diretor Onésimo T. Almeida por permitir que a plataforma Filamentos a publicasse.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental, 12 de dezembro de 2025.

 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Outras vozes sobre Ponta Delgada

O turismo obriga a uma afirmação de identidade que a cidade, no fundo, ainda procura.

Pedro Arruda, (Re)Imaginar Ponta Delgada



    Não vou aqui escrever sobre a atual questão do turismo quase em massa nas maiores ilhas dos Açores, com São Miguel a receber todos os anos centenas de milhares de visitantes chegados cá de várias partes do mundo, juntamente com os nossos emigrantes, principalmente da América do Norte. O 7º volume da Avenida Marginal, que tem vindo a ser publicados pela Artes e Letras da Livraria Solmar, é o seu maior volume até hoje. Discute o fenómeno do turismo, e vai ainda muito mais além quando aborda o que cada um dos seus intervenientes escreve no que Pedro Arruda, o coordenador do presente livro, resume na sua introdução juntando as suas temáticas no que resulta uma original narrativa sobre a maior cidade dos Açores, sem nunca a colocar em vantagem ao resto do nosso arquipélago apesar de Ponta Delgada ser a maior e o nosso mais dinâmico centro populacional. A questão da identidade de que ele nos fala – ou alerta – junta-se ao seu cosmopolitismo e à recusa de qualquer sentimento restritivo a todos que nasceram ou optaram por se fazerem parte integral da nossa sociedade, agora em ebulição, que ora é saudade, que ora é criticada por razões, digamos, de ordenamento ou necessidade de se reajustar a uma população felizmente diversa em termos de nacionalidades cá presentes, ou dos constrangimentos e avanços que inevitavelmente certo progresso nos traz. Como em volumes anteriores, este recomenda ainda mais a civilidade que agora convive com mais problemas humanos e estruturais no seu todo. Cabe ao leitor descobrir estas paginas tão serenas como preocupantes nas esferas principais das nossas vidas, da cidade a reinventar-se enquanto lida com o bem estar de todos por entre o que preocupa alguns dos escritores aqui presentes. A minha intenção aqui é outra: a celebração de um grupo de ensaístas que difere saudavelmente em idades e mundividências numa cidade à beira do grande mar que se tornou desde há muito a sua passadeira na ultrapassagem dos horizontes que outrora nos fechavam na nossa pequenez e na angústia da nossa sobrevivência. Pedro Arruda fala da nossa já longa história, desde Gaspar Frutuoso, a questão, uma vez mais, da identidade, que ao longo dos séculos até aos nossos dias foi fluida, e agora apresenta-nos alguns dos outros pensadores nossos conterrâneos, e que pensam não a sua pessoa mas toda a coletividade do seu, do nosso, quotidiano e convivência, e ainda a articulação da cultura com toda a sociedade.

    “(Re)Imaginar Ponta Delgada – escreve Pedro Arruda na sua introdução dos variados textos seguintes – foi o repto lançado, neste volume, a todos os que nele colaboraram e aos que o lêem. Repensar a cidade e o seu papel. Os desborderafios e as aspirações de uma cidade e o seu papel. Os desafios e as aspirações de uma cidade atlântica e insular no século XXI. Convidámos, para isso, um conjunto vasto e diversificado de colaboradores: historiadores e médicos, escritores e professores, académicos e artistas, empresários e jornalistas, juristas e arquitetos. Uma pluralidade de vozes que quisemos que fosse, também ela, expressão de uma característica distintiva da cidade: o debate, a controvérsia, a troca de ideias. Recusando os unanimismos fáceis e procurando sentir, nessa divergência convergente, o verdadeiro pulsar da cidade”.

    

Pedro Arruda

    P
ara mim, ler este livro plural nas suas ideias, e até nos seus sobressaltos na diagnose das suas maiores ou menores dificuldades e promessas por cumprir, foi uma viagem de (re)descoberta no que eu próprio pensava, e ainda do que nunca tinha pensado ou visto, mesmo nos meus olhares menos atentos ou distantes. Entre a minha casa em São Roque e a cidade aqui ao lado já tinha deixado até de notar o próprio mar ao meu lado e o caos de estrada em que tudo se havia tornado ao longo dos anos, focado na minha mente essencialmente literária e sentimentos de saudades do que tenho vivido desde a minha viagem definitiva e conclusiva dos Estados Unidos para cá em 1991. Já tinha deixado de falar ou de pensar no que muitos à minha volta consideram agora degradação e confusão, motoristas desatentos e agressivos, serviços cada vez mais difíceis e de pouca atenção, esplanadas sobrecarregadas e domínio de outras línguas. Vindo da grande Los Angeles para Ponta Delgada só me podia e me posso sentir privilegiado. A cidadania toma formas diferentes: um buraco na estrada já não me incomoda, o turista a atravessar a passadeira a falar ao telefone, ou a demora do empregado de mesa que serve primeiro o outro que lhe poderá compensar muito melhor do que eu também não me consume. Ao ler este Avenida Marginal reconheço todos os reparos, admiro as sugestões, partilho a saudade do outro futuro que demora a chegar. Tem aqui ensaios que são pura literatura, como tem alguns que são os mais autênticos atos de cidadania através da palavra bem colocada, do pensamento sempre construtivo e a expressar o desejo de nunca perdermos a cidade às dimensões da ilha, à promessa da sua história, ao dever que deve ter perante qualquer cidadão cá nascido ou que decidiu fazer de Ponta Delgada e dos seus arredores mais próximos ou longínquos um outro chão do seu destino, da sua felicidade, da tranquilidade que lhes faltavam nos grandes centros metropolitanos mundo afora.

    São 14 as vozes que, como outros antes deles, tentam “redifinir” Ponta Delgada. Muito para além das cansativas estatísticas são as suas claras e significantes linguagens que nos transportam uma vez mais a repensar a nossa cidade, as nossas ilhas, o nosso lugar numa geografia única do Atlântico. Nenhum destes textos é um manifesto ou coisa que se pareça, tão só, e é muito, permitem-nos acompanhar a realidade ou a mítica de uma antiga urbe que tem sabido sobreviver a todas as tempestades, a desfrutar dos seus dias de sol e paz, a viver a normalidade (crescentemente problemática, como em toda a parte) cumprimentando os que por nós passam, admirando o milagre rodeado de mar por todos os lados e um pouco adiante a terra que durante séculos foi o nosso alimento, a nossa salvação – e a nossa partida sem raiva nem remorso para terras distantes, que não nos afastaram das origens nem da vontade de regressos múltiplos. Este é outro livro não só da memoria como é também um memorial, ofendido por vezes, sem nunca rejeitar a nossa identidade e a fundura das nossas raízes. Ninguém critica o que não ama, ninguém repara o que deseja ser um cultivo mais ameno e rico do seu terreno, do seu mar, dos seus sonhos ou do que todos nós, nascidos cá ou não, desejamos um outro futuro, sem mágoa pelo passado. É disto tudo que o mais comovido pensamento humano deseja para toda uma comunidade, seja ela residente ou no além-fronteiras.

    Uma última palavra. A capa de (Re)Imaginar Ponta Delgada é genial. Da autoria da artista Andrea Santolaya, a fotografia vem a preto e branco, num dos sítios mais reconhecidos para quem sabe da sua cultura literária, de biografias improváveis mas reais. O Campo de São Francisco e o banco onde se suicidou um dos maiores poetas açorianos de sempre, Antero de Quental. Como sabem, bem na parede atrás ainda permanece o dístico original que diz simplesmente “Esperança”. a parede do que foi um venerado convento. Olhar este espaço nesta capa muda toda a nossa interpretação – a que vai da verdade, alegria e futuro da vida sobre a finalização da morte.

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(Re)Imaginar Ponta Delgada: Avenida Marginal - Ensaios (coordenação e introdução de Pedro Arruda), Artes e Letras, Ponta Delgada, 2025

No BorderCrossings do Açoriano Oriental, 5 de dezembro de 2025.