
foto de Aníbal C. Pires
Só o posso explicar
dizendo que sinto uma ligação a este lugar.
Henrik Brandão Jonsson, Saudade
Daqui a poucos dias faz 35 anos que arribei a São Miguel por uma questão pessoal e profissional e por querer viver uma vida de adulto nas minhas ilhas de nascimento. Nenhuma diferença ou muito menos trauma ou o facto de eu ter nascido na Ilha Terceira e lá vivido 13 anos me causavam qualquer “choque” cultural porque simplesmente os Açores são para mim um todo, com a riqueza de sotaques, linguagens e até maneirismos, e apesar de alguns em todas as ilhas torcerem o nariz ao vizinho rodeado pela mesma água e sorte histórica circunstancial desde os idos do povoamento. Têm sido 35 anos de alegria e das tristezas humanas a que todos estamos inevitavelmente sujeitos. Só tinha estado em São Miguel duas vezes: a primeira a caminho da América como criança junto da minha família. Só muitos anos mais tarde visitava, já formado e professor na Cerritos High School, no sul da Califórnia e no medonho condado de Los Angeles, e residência em Orange County no outro lado dessa imaginária “fronteira” quase ao lado da Disneylândia que no verão me avisava da meia-noite com o seu alegre fogo artificial em cada encerramento noturno.
Fui eventualmente convidado para participar com uma comunicação num dos agora históricos encontros literários da Maia que tinham lugar no solar de Lalém, e com organização de Daniel de Sá, Afonso Quental e Urbano Bettencourt. Foi precisamente aí que todo o meu destino mudaria – sala de conferências que também virava sala de festa e baile para outros em certas noites, e um bar ao lado para castigo cerebral dos que gostavam de copos e conversa fiada, e de quando em quando mais ou menos literária. Quando ainda me perguntam como foi a minha adaptação a esta ilha respondo com poucas palavras. Um pouco depois dessas memoráveis convivências eu aventurei-me à grande mudança geográfica e, sim, culturalmente em tudo o resto, pois passei a viver os Açores quotidianamente. Dar aulas como Leitor de Língua Inglesa na nossa universidade e olhar o mar a maior do tempo a partir da minha sala de trabalho rodeado também de livros e de angústia do que deveria ler e escrever a cada semana. Como que a dizer, estava a viver o sonho da minha vida – como ainda hoje, se bem mais cansado do que continuo a designar por “trabalho” para espanto dos que raramente ou nunca leem um livro, e, bom, para espanto de mim próprio e agora medo da quantidade desse papel desorganizado em três salas, que já me cansa e faz-me triste por, em vez disso, não andar de bicicleta como gente normal. Tenho saudades da Califórnia, da minha família que está toda lá, de visitar o jardim central da minha faculdade em Fullerton, dos cafés onde passava horas a ler ou a escrever ao balcão em modo de voo devido à quantidade de café, sem falar nas entradas noturnas no clube e bar de dança que me diziam ser dos Rightous Brothers, e que apareciam de surpresa só esporadicamente no palco a cantar e a alimentar certos estados de alma solitária vindos com as diversas espécies que então o wisky nos provocava. Nunca tive o privilégio de os ouvir ao vivo. Não me apetece mais nada por esses lados, a não ser ainda mais conversa e cumplicidade literária com certos amigos e colegas desde aqueles anos até hoje.
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| foto de Aníbal C. Pires |
De resto, devo repetir aqui o texto que escrevi há uns anos sobre a minha vida à beira mar e do nada mais interessante do que parece à primeira vista. O Pópulo será talvez a localidade mais diversificada nas suas mesas, pelo menos em São Miguel. Professores, advogados, polícias, indivíduos sóbrios ao lado dos transtornados, digamos assim, das mais diferentes nacionalidades e etnias, particularmente nestes anos de turismo desenfreado, que tanto se senta nas mesas como atrapalha no trânsito, até mesmo no “nosso” parque de estacionamento, já para não falar nos elevadores do prédio a que chamo mais ou menos de casa no inverno, e “hotel” de maio a outubro. Eis de novo a minha alegria de aqui viver e a inerente ambiguidade: sempre um sorriso seguido com o ranger de dentes provocado pelas outras situações aqui descritas. Eu sei que para outros, tudo poderá ser ao contrário: que se aumente sempre o ambiente da multidão que são os nossos hóspedes, que os outros continuem com olhares quase cobertos pelas sobrancelhas chateadas. No fundo, e na minha outra verdade, os Açores todos tornaram-se muito mais interessantes e sofisticados nos seus conhecimentos outrora escondidos ou nunca pensados, a universalidade ao vivo em pequenas e belas terras a meio do Atlântico-passadeira que nos leva para os outros e nos trazem em grandes números e curiosidade. Quanto mais as flores, os nossos verdes, e azuis do mar são partilhados, mais paz e entendimento, suponho, no nosso mundo por perto e ao longe.
Que os economistas e todos os outros que criam empregos e capital e ainda mais os que dele desfrutam não me interpretem negativamente quando eu digo a alguns amigos ou conversadores ocasionais que tenho sentidas saudades de São Miguel do ano em que cá me radiquei para sempre em 1991. Não chamem provinciano a quem se fez homem e viveu a ruralidade do Vale de São Joaquim no interior da Califórnia durante pouco mais de um ano, e logo depois a urbanidade da grande Los Angeles e arredores onde me formei e depois dei aulas durante 14 anos na escola secundária que mencionei neste texto. Precisamente por ter vivido essa outra geografia humana adorei desde logo ver ou conhecer sempre as mesmas caras aqui na ilha. Uma vez mais, conhecer pessoalmente os vizinhos pode ser um grande embaraço por razões da natureza humana. Erguer uma parede um pouco mais alta ao nosso lado, ou pior, sermos olhados só de lado é um desconforto a que nos habituamos, ou não. A vida no Pópulo, como creio ser em toda a parte, é feita destas contradições existenciais. Tento, quando desço ao reduto da minha alegria, nunca ignorar um sorriso sincero ou uma breve conversa, desvio-me dos mais convencidos no espaço que é deles ou delas, da sua própria identidade quando manifestam o desagrado que por vezes nos assalta.
A citação da minha epígrafe é do recente livro Saudade: Cartografia de um sentimento, de Henrik Brandão Jonsson, Penguin, Lisboa, 2026.
No BorderCrossings do Açoriano Oriental de 24 de julho de 2026







