sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

De Diniz Borges e da diáspora açoriana

                                       


O mar das ilhas e o sonho americano interlaçados, sem sobressaltos nem dramatismos...

Diniz Borges, Raízes E Horizontes: Narrativas Da Diáspora Açoriana


    Há amizades que resistem a uma vida inteira. Conheci o Diniz Borges quando ele tinha mais ou menos 19 anos de idade e a trabalhar com muita dignidade fora do ensino superior na cidade de Tulare no centro do mítico Vale de São Joaquim no interior a meio da Califórnia. Já o conhecia de nome e fiz uma obrigação minha visitá-lo no seu espaço de vida ativa. Sabia que ele já era nessa idade um ativista independente na nossa comunidade, aonde vivia quase toda a minha família imediata e de graus variantes. Sabia também que ele já fazia um programa de rádio comunitário, e que as suas linguagens me agradavam, e muito. Eu era um novo professor de uma escola secundária no condado de Los Angeles. Queria muito conhecer um homem de uma geração mais nova a dizer coisas das minhas então opções políticas – quietas e independentes, tal como ainda na minha velha idade aqui no meu país de nascença. A empatia foi de logo expressa entre nós os dois. Só que percebi que o seu futuro viria a ser muito diferente, e foi em pouco tempo – e de que maneira. Diniz seria uns poucos anos depois admitido sem qualquer dificuldade numa faculdade da Universidade Estadual da Califórnia, na área de literaturas, e logo de seguida faria com sucesso um mestrado em literaturas étnicas, o que ele talvez ainda chame de literaturas e geografias porosas, tal como os nossos dois destinos literários que perduram, e são cada mais a temática da nossa escrita. Comunicamos quase diariamente através das redes sociais, falamos sobre o que pensamos, lemos, dizemos, e, sim, criticamos tal como naqueles tempos que nunca esqueceremos. O estado ou modo de vida em que então viviam as nossas comunidades no oeste americano? Voluntariamente obedientes aos seus mandantes, sem a noção, creio eu, de que os seus filhos tinham abertas todas as portas para outras oportunidades, profissões fora de ordenha de vacas ou de duros trabalhos, digamos assim, associados. Vivemos sempre dois mundos totalmente comuns: os Estados Unidos e Portugal, com os Açores aqui e ao longe muito próximos e parte das nossas vidas quotidianas enquanto nos integrávamos conscientemente na grande sociedade americana, a “geografia” tendo acabado anos mais tarde com os novos meios de comunicação. Mantivemos a continuidade das nossas conversas com o mesmo vigor e crenças sociais e ideológicas (mais ou menos) dos anos iniciais do nosso convívio.

    Há algo na vida académica e literária de Diniz Borges que muito – muito – aprecio, e muito para além desta nossa amizade forte, profunda. Ele faz mais pela inevitável dualidade da cultura que partilhamos sem complexos alguns, e pelo memorial da nossa gente no oeste americano que nunca vinte de nós faríamos naqueles anos, mesmo com o já falecido professor Eduardo Mayone Dias (natural de Lisboa e professor na Universidade da Califórnia em Los Angeles) como nosso grande exemplo e mentor. Há dois grandes grandes intelectuais, escritores e académicos nos Estados Unidos que desde há muitas décadas mantêm a nossa identidade viva, para além das tradições das sopas do Espírito Santo e de outros ritos religiosos e profanos. Onésimo Teotónio Almeida na Brown University em Providence, e Diniz Borges nos anos mais recentes na Universidade Estadual da Califórnia, em Fresno. De Onésimo T. Almeida já todos conhecemos muito bem como académico e escritor. Do Diniz é preciso dizer algo mais. Depois da sua reforma da Tulare Union High School foi quase de imediato chamado pela já mencionada Universidade Estadual da Califórnia, em Fresno, que fica no coração do Vale de São Joaquim, rodeada por uma vasta área agro-pecuária, boa parte dela controlada por açorianos e luso-descendentes. Não foi só por isso. A sua competência e credenciais determinaram que ele iria além de dar aulas de Português e sobre a nossa História durante uma longa e brilhante carreira a outro nível escolar. Seria o fundador e diretor do Portuguese Beyond Borders Institute, com responsabilidades pelas especiais relações académicas e literárias com os Açores, com Diáspora, e com todo o nosso país. É o primeiro responsável pela editora Bruma Publications, ligada ao mesmo instituto já aqui referido, que dinamiza e financia publicações de livros aqui nos Açores, e divulga entre nós e nas comunidades autores luso-americanos através de traduções feitas por ele próprio, com uma precisão e criatividade pouco habitual em qualquer parte, muito menos por cá. Mantém, ligado ao mesmo instituto universitário, o sítio de Artes e Letras Filamentos, que transmite diariamente notícias e textos literários dos dois lados do Atlântico, e não só. É um projeto com uma persistência e regularidade nunca vista, nascido e por ele mantido naquele extremo do continente norte-americano.

    Escrevo do meu maior e mais querido amigo nesse lado da nossa diáspora como escreveria sobre um irmão. Fá-lo de maneira criteriosa, e sem exigir qualquer retorno seja de quem for. Isto é novo entre nós. Alguns dos nossos escritores devem-lhe, e muito. Nunca pede nada a ninguém, muito menos às nossas instituições governamentais. É algo a que não estamos habituais, mas não peço aqui que se habituem a tanto trabalho e dedicação. Só que o reconheçam como o académico que é, como o escritor e crítico que nos dá conta como ninguém da nossa história de uma parte de um outro grande país que sempre nos foi – ou era – essa outra pátria de sossego e boa vida. Permanece um cidadão de nacionalidade dupla que nunca desculpa as injustiças do que foi o nosso passado e do que agora é o seu presente. Tudo isto envolve um inquestionável esforço e uma indescritível dedicação. Será sempre justo o nosso reconhecimento. O resto não passa do resto. O trabalho feito e que continuará a ser feito falará um dia por si.

    

    Sempre que o Diniz nos visita é como que um acontecimento à moda antiga, não com abraços nas docas, mas sim em aeroportos. Ainda bem. Quer isso dizer que famílias e amigos já não choram lágrimas de saudades que há décadas eram o nosso drama. Aliás, ele publicou há uns bons anos Nem Sempre a Saudade Chora: Antologia de Poesia sobre a Emigração. Nem mais.

    O inevitável aconteceu: foram ficando e foram criando, num dos estados mais diversificados da união americana, a sua própria subcultura, a qual, como não poderia deixar de ser, é uma amálgama da nostalgia das ilhas, das suas tradições rurais, com elementos da modernidade e da multietnicidade californiana. Hoje, cerca de 150 anos depois de terem chegado os primeiros emigrantes açorianos, existe no seio do multiculturalismo deste estado do pacífico norte-americano uma definitiva presença trazida pelas gentes dos Açores”.

    Agora pode ser com certa frequência. Não nos trazem sacos de roupa para colmatar o que durante séculos foram as nossas misérias em tudo. Trazem-nos as notícias da proximidade contínua, do bem estar lá e, para muitos, cá dentro, nas pequenas terras rodeadas de mar nem sempre simpático para todos que dele fazem a sua sobrevivência. Esse abraço coletivo vale mais do que tudo no passado.

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Diniz Borges, Raízes E Horizontes: Narrativas da Diáspora Açoriana, Ponta Delgada, Letras Lavadas edições, 2025.


No BorderCrossings do Açoriano Oriental de 27 de fevereiro de 2026.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Sobre algumas apreciações da obra literária de Joel Neto


Quiseram as tramas da existência que nos ligássemos afetivamente num percurso em crescendo.

    Paulo Matos, Levanta os olhos para as montanhas

    Este é  um livro especial for razões pouco usuais entre nós. Levanta os olhos para as montanhas: Vinte e cinco passos pelos caminhos de um escritor é um tributo à obra de Joel Neto coordenado por Paulo Matos, também ele apreciador público de livros, e de quem falarei um pouco mais nas linhas seguintes. Este livro traz desde logo uma Nota do Editor João Gonçalves da Cultura Editora de Lisboa, um prefácio do próprio Paulo Matos, assim como um posfácio de Raquel Varela, todos eles identificados por entradas biográficas e outras informações relevantes para a inquestionável credibilidade e grandeza do livro. 25 anos na carreira de um escritor poderia passar-nos despercebido não fora a suprema qualidade que Joel Neto tem desenvolvido nos mais variados géneros literários – ficção, ensaio, jornalismo e memórias-outras da sua Ilha Terceira. O devido reconhecimento a um profissional em qualquer área – das artes e de outras profissões, particularmente quando tudo é feito para o nosso bem estar e prazer – é sempre um gesto que implica generosidade e camaradagem agradecida por parte de quem o assina ou expressa a sua admiração por outras palavras à obra e Joel Neto. É o que acontece sobre este livro de Joel Neto, que junta todos esses nomes de colegas açorianos e continentais, dos que sempre seguiram atentamente  a publicação de um ou outro livro seu, ou de todos eles. Uma lista aqui seria, como já o disse noutros textos meus deste género, demasiado longa, e retiraria a surpresa aos seus eventuais leitores. Lê-los nestas páginas é apreciar todas estas leituras originais, mas que se completam como num longo ensaio sobre a obra aqui em foco. Não falemos aqui e agora em comparações algumas. Só que Joel Neto se destaca na criação de textos literários muito próprios, muito seus, como nunca deixa de ser com todos os grandes escritores.

    
Paulo Matos
    T
oda uma grande obra
literária tem sempre um livro no seu centro, que alguns escritores detestam por, pensam eles, obliterar todos os seus outros. Para os leitores isso poderá também ser uma tendência, mas nunca uma verdade literária. Neste caso de Joel Neto sei do que falo depois de ter apresentado e escrito publicamente ao longo dos anos sobre quase todos os seus livros de ficção. É claro que o supremo romance simplesmente intitulado Arquipélago quase que monopoliza toda a sua obra criativa. Ler Arquipélago é ler um romance sem par entre nós. Esqueçamos alguns outros escritores que o antecederam para além da forma artística com que abordam os seus temas vincadamente açorianos. Bem sei que ao dizer isto não nego a obsessão de certos ensaístas nossos em constantemente reafirmarem que é “açoriano” e do “mundo”. Conheço alguns dos grandes romances de outras línguas e geografias, estas por vezes mais reduzidas do que a nossa. A abrangência temática de todos eles simbolizam essa verdade: a humanidade tanto se parece sempre nas suas tragédias como nos seus tempos mais felizes. Estou a parafrasear aqui um escritor russo do século XIX, de nome Liev Tolstói. Só para dizer que há passos na escrita de Joel Neto que nos levam à nossa infância, à nossa ruralidade, à nossa imaginação. Entrar com uma das suas personagens numa taverna da Terra Chã e ouvir os mais velhos em discussão, é escutar só com meio entendimento os mistérios dos lugares do nosso nascimento e vida sem rumo ou em estado de sonho que vá além de uma mesa de sueca ou simplesmente de bebida. Desde o futebol à passagem barulhenta de um trator em terra envelhecida, desde uma cidade que parece em festa constante à labuta de pequenos e pobres proprietários e seus trabalhadores, os Açores tornam-se uma realidade misteriosa, viva, em que o choro invisível nessas situações imaginadas ou mesmo “vividas” são abafadas ocasionalmente por uma filarmónica local a alegrar os tristes, os desamparados, os sem futuro que poderá só exister nos seus sonhos.

    Lembro-me do quão bom conversador – escreve Paulo Matos no prefácio – me pareceu o Joel, moço de humor inteligente, atento à realidade imediata e quotidiana, características que, entendi, transpunha para a sua escrita (e que ainda hoje fazem dele o escritor consagrado em que se tornou). Levou-me essa constatação à compra dos seus dois primeiros livros, os anteriores a Al-Jazeera, Meu Amor, o tal que havia sido apresentado nessa dia, na Quinta do Martelo. Amor à primeira leitura, nunca mais larguei aquela voz da terra e do mundo, do ser e do sentir, do pensar e do observar ações e estados, a essência da vida e o barro de que é feita a humanidade”.

    Aí estão as palavras de um companheiro de leitura da obra de Joel Neto, e que depois entra num projeto de saber de todos ou de quase todos, que sobre ele haviam escrito até data da organização de Levanta os olhos para as montanhas. O que mais me surpreende – ou não – nestes ensaios ou recensões publicadas um pouco por toda a parte, no nosso país e no estrangeiro, é a concordância na audácia literária de viajar pelo mundo sem nunca sair de casa, de inventar e reinventar personagens que por mais longe que estejam de nós parecem ser os nossos vizinhos, leitores ou tratadores da pouca terra que nos resta, sempre com os olhares no mar e nas nuvens tentando adivinhar outras terras ou a possibilidade de chuva e vento, de outros contratempos pessoais, dos caprichos da natureza das suas vida. Quando Angra cai a 1 de Janeiro de 1980, Joel sabia que tudo havia mudado, desde as casas e as vidas que nelas moravam aos amores que estranhos viriam a cultivar numa terra desconhecida mas que passava também a ser para muitos deles a chegada ao porto final das suas vidas.

    

    Joel Neto regressaria a casa definitivamente após a sua longa estadia e aprendizagem em Lisboa e arredores. Para além da escrita, sempre, em jornais e em livros, começa rapidamente a olhar o Poder que parece sem poder na terra açoriana. A novela Jénifer e alguns artigos em jornais ditos nacionais chamaram a atenção de muitos leitores, e pelas piores razões que perpetuam a realidade açoriana, a que fica fora da retórica oficializada, e não só entre outros cidadãos conscientes do que vai bem e mal na sua vivência cá dentro.

    Joel Neto fundou em Angra do Heroísmo há poucos anos a livraria-café de nome Lar Doce livro. Faz parte integral do seu projeto como autor nacional reconhecido e premiado. Espalha agora a palavra através da sua própria obra e a dos outros que lhe são próximos ou nos trazem saberes literários e consciência coletiva. A presente homenagem levada a cabo por Paulo Matos, ele também formado nas Humanidades e crítico literário que por enquanto não conheço pessoalmente, mas leio na sua coluna do Diário Insular, Açoriano Oriental e Portuguese Times, intitulada o “Rapaz que vai habitando os livros”. Acaba de nos enriquecer com esta sua coordenação de Levanta os os olhos para as montanhas: Vinte e cinco passos pelos caminhos de um escritor. O livro vem com toda a bibliografia de Joel Neto, e ainda as notas biográficas de cada autor dos textos apreciativos deste livro.

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Paulo Matos, Levanta os olhos para as montanhas : vinte e cinco passos pelos caminhos de um escritor (Nota do Editor João Gonçalves, prefácio de Paulo Matos, posfácio de Raquel Varela), Lisboa, Cultura Editora, 2025.

No BorderCrosssings do Açoriano Oriental, 20 de fevereiro de 2026.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Sobre a vida num Japão que acabara de ser destruído pelos Estados Unidos

                                 


Com o passar dos anos, tinha começado a duvidar que a alegria e a tristeza, o prazer e a dor fossem verdades profundas da condição humana.

Yasunari Kawabata, O Arco-Íris


    O Arco-Íris de Yasunari Kawabata estava na minha estante de relevo desde 2024, numa tradução de Francisco Agarez para a Leya. Prémio Nobel em 1968, suicidou-se em 1972, tal como um outro grande escritor japonês que ele tinha influenciado, entre muitos outros, Yukio Mishima que também se suicidaria em 1970 após escrever a suprema trilogia Runaway Horses, The Decay of the Angel e The Temple of Dawn. Não estranhem aqui os títulos em inglês, pois toda literatura asiática que tenho lido é traduzida para o inglês ou para a nossa língua, tal como o romance aqui em foco. Um dia perguntaram a um intelectual japonês quem era o maior “escritor de guerra” no seu país. A resposta foi mais do que surpreendente – William Faulkner, respondeu com alguma ironia, sem hesitações, numa revista americana de que já não me lembro. Ler agora e pela primeira vez Yasunari Kawabata percebo um pouco melhor o que então me deixou perplexo. Faulkner tinha escrito toda uma vasta obra sobre um Sul norte-americano caído no conflito de separatismo nacional, definitivo, violento, e tentava após o que considerava a grande tragédia recuperar através da arte literária tudo ou o possível – e muito especialmente a humanidade abalada do seu povo. Ler este romance japonês foi uma das minhas maiores surpresas literárias. Nem numa única frase se menciona o que foi um dos maiores crimes de guerra até hoje, a denotação aérea de duas bombas atómicas que incinerou duas grandes cidades e provocou as mortes instantâneas de milhares de seres humanos, deixando ainda atrás a morte contínua durante décadas. Não há neste supremo romance qualquer queixa artística, qualquer recriação do terror que um leitor minimamente informado sobre a História esperaria.

    As protagonistas de O Arco Íris são três irmãs do mesmo pai e de três mães diferentes. Nem uma única passagem, repita-se, menciona a guerra, nem as palavras “América” ou “americanos” são escritas uma única vez. Só a vida a tentar a normalidade possível, as memórias nestas páginas são de relacionamentos, de amores perdidos, a felicidade da cama ocasional e o quotidiano que mais parece o nosso do que a de um país derrotado e de vidas completamente desfeitas. Essa “normalidade” tanto lida com a felicidade e infelicidade de cada uma dessas irmãs, como com as memórias de erros feitos pelos pais ou por amantes presentes ou descartados. O arco-íris que lhes aparece numa só cena de abertura abre o significado de tudo que vem depois. O mais lindo da natureza, como o dos seres humanos em geral, é uma visão breve que se manifesta para logo desaparecer, um mundo lindo nas suas cores que dura muito pouco, seguido da luta pela vida ora de choro, ora de alegria, ora de desconfiança sem que nenhuma das personagens perca o dever de continuar a viver em qualquer situação do dia a dia. É sobretudo uma (re)afirmação da vida para lá de todo o terror nunca dito, para lá da tristeza e de todas as dúvidas que nos assolam constantemente. Estão aqui passos de uma sensualidade discreta, da necessidade de nunca se deixar de pensar num outro futuro, numa vida movida pela força de mulheres e homens que ninguém percebe mas sofre-a com toda a coragem de sobreviventes ante as vidas pessoais destroçadas mas nunca vencidas.

    


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O Arco-Íris passos constantes pouco comuns, creio eu, na nossa própria literatura. Toda a paisagem bela que resta é descrita com frequência, desde os pormenores de uma flor e a sua cor e cheiro, de uma árvore que embeleza as margens de um lago, de um templo com toda a sua história e ritos ancestrais. Uma vez mais, a afirmação do belo em contraponto ao desastre inimaginável sofrido pelo país já em plena reconstrução e redenção. As cenas de amor ou a vontade instinta dele são de uma sensualidade contida, como já disse, em momentos de prazer e afirmação de todos os desejos do corpo humano, como se tornam em recriminações de infelicidades ou de oportunismo sexual momentâneo de parte a parte. Uma das cenas mais inesquecíveis deste romance é quando um kamikaze das forças especiais da Força Área Japonesa se despede da sua amante. O rito habitual era muito simples: bebiam um copo de água antes do adeus para sempre, e mais nada. Só que neste caso o aviador que vai obrigado ao encontro da morte certa pede a Kamakoto que o deixe tirar em gesso a forma de um dos seus seios para levar consigo e beber dele uma água antes de se atirar ao seu inimigo a meio do Pacífico. Sem queixa nem remorso, só levar consigo no último momento uma lembrança da vida, do amor, da humanidade que tinha vivido. É a única menção, em analepse, a que o autor se permite neste seu romance.

    O inimigo, que sabemos muito bem quem é, não tem lugar nestas páginas. O Arco-Íris é um romance que trata só dos anos seguintes e dos seus traumatismos, o sentido de culpas tem só a ver com as amarguras de uma existência dentro de casa e nas suas andanças em busca de amores, as culpas de uma família em desencontros debaixo do mesmo teto e de viagens de prazer ao descobrimento de um passado nebuloso para pais e filhos. O pai dessas três filhas é um arquiteto – perante a destruição que adivinhamos ou já vimos em documentários lembra só o que resta nas cidades e aldeias que ficaram de pé e na beleza do seu passado. Se não nomeio aqui personagens ou geografias pertinentes no romance é porque recordá-las ou escrevê-las é para um leitor ocidental um esforço que trava a narrativa sem qualquer necessidade.


Momoko – a filha a primogénita da família aqui representada, após fazer amor com Keita, o kamikaze a caminho de seguir para o seu destino – sentiu um arrepio. Tentou saltar do sofá, mas as pernas não lhe obedeceram. Empalideceu como se tivesse sido percorrida por um súbito calafrio; mas quase sem dar por isso deu consigo a apertar a cabeça dele nos seus braços. Com isso, a sensação estranha que a tinha invadido abrandou.

    Keita olhou para ela, com os olhos húmidos. “Momoko, deixas-me tirar um molde do teu seio?”

    Para Francisco Agarez: obrigado pelas suas traduções. Li toda a obra de Philip Roth no original, e algumas delas repeti nas suas versões portuguesas. Bem sei que certos puristas linguísticos e outros críticos – foi o caso de Edmundo Wilson nos Estados Unidos, que queria muito ler Os Maias de Eça de Queirós mas nunca em inglês – não queriam saber de traduções. Perda deles. Como conheceríamos as grandes literaturas do mundo se não fossem as traduções? O que sei com certeza é que um romance como O Arco-Íris é da autoria de Yasunari Kawabata e da tradução para o inglês de Haydn Trowell, e agora da sua tradução para o Português. Só me resta ter esta certeza. O original será para mim o que é, ou o que para mim nunca foi. Na nossa língua não deixa nem deixará de ser a grande ficção de um autor japonês. Reinventado de certo modo e necessariamente? Talvez. Mas a sua grandeza permanece. Sei que a ética da tradução simplesmente faz uma única pergunta: como se diz isto na minha língua? Há que dizê-la com correção e elegância linguística. Só isso.

    Yasunari Kawabata tem ainda outros romances traduzidos na D. Quixote/LeYa, incluindo A Casa Das Belas Adormecidas.

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Yasunari Kawabata, O Arco-Iris, (tradução de Francisco Agarez), D. Quixote/Leya, Lisboa, 2024.


No BorderCrossings do Açoriano Oriental, 13 de fevereiro de 2026.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Quando a prosa e a poesia se encontram

                                           

Procuro a geografia do meu coração, e o tempo é o único aliado que tenho.

Paula de Sousa Lima, Do Corpo e da Alma


    Se há uma escritora portuguesa cuja consistência se tornou numa vasta obra e num outro cânone autoral de todo e necessariamente pessoalizado, essa autora é Paula de Sousa Lima. Frequentemente na sua escrita reclama todo o seu país como referencial, mantendo quase sempre a vida açoriana no seu centro. Lionel Trilling, um dos grandes mestres da literatura judia-americana a partir dos anos 30 do século passado, se assim me é permitido classificar uma escrita que tinha como tema dominante a reclamação do chamado Novo Mundo a oeste sob outros olhares e passado ancestral numa Europa até então violenta, pedia, para além da arte na literatura de qualquer espécie, autenticidade. Nenhum autor pode e nunca deve fugir à sua própria vida interior e história pessoal, de andanças geográficas ou não, um narrador disfarçado de outro ou assumindo a sua própria pessoa torna a arte literária numa peça original e, nas melhores páginas, indeléveis para o seu tempo e para o devir de outras gerações. De resto, o primeiro modernismo radical na literatura ocidental já não deixava de combinar os géneros até então arrumados em prateleiras artísticas supostamente distintas. A poetização da grande literatura moderna nasce aí; nem sequer o ensaio, quando relevante para uma estória contada num romance de fôlego tinha de ficar ausente. O que chamamos de “conto” é do mesmo modo uma mistura de tudo isto, cada narrador nasce, só pode nascer, do interior ou do íntimo do seu autor ou autora. Literatura sem essa autenticidade, sem a plausibilidade de qualquer ficção que tenha a possibilidade de acontecer ou já ter sido vivida perde toda o seu encanto, perde a estética ou beleza de cada palavra. É este o paradoxo: a verdade tem de estar implícita na mentira da ficção. Foi com Lionel Trilling e outros que constituíram o grupo de novos escritores americanos que renovaram em parte toda uma literatura no país em que eu aprendi a ser português ao longe e ao mesmo tempo americano em casa na terra onde nasci.

    

    Do Corpo e da Alma é um conjunto de contos que nos aparece numa bela edição bilingue, com traduções impecáveis de Avelina da Silveira, agora também editora nos Açores. O próprio título de Paula de Sousa Lima transmite a sua própria temática. Li e apresentei publicamente desde há anos a maior parte da sua obra ficcional. Sei como a autora tanto se desdobra nas mais variadas narradoras como raramente se desliga de si própria, confirmando o que um dia afirmou José Saramago: em cada narrador está o autor – se não nos factos e eventos que descreve ou reinventa, definitivamente permanece fiel aos seus sentimentos e interpretações de qualquer personagem por mais distante que nos pareça. Em cada um destes contos destaca-se o existencialismo quotidiano de quem fala em direto ao seu leitor. A solidão dos dias, o amor sentido e por vezes não retribuído com o mesmo ardor ou sequer sinceridade, a saudade de um amigo ou amiga que partilha um chá nos momentos de confissão, calma ou de memória dos ausentes, o permanecer viva e atuante ante as circunstâncias de cada momento de uma vida inteira. A sua linguagem é tão linear como precisa – nem uma frase fora do contexto e definidora do estado de espírito em momentos de cada dia ou experiência vivida ou reinventada pela memória, que poderá confirmar essas verdades de que já falei, ou então inevitavelmente acrescenta parte da narração sempre em curso de conto em conto numa sequência que depende de uma leitura atenta e interessada nessa autenticidade interior. Sim, também pela geografia que vamos apreendendo – a narradora como as personagens que ela reinventa ou imagina tornam-se parte de nós. São ilhas numa ilha nunca nomeada porque nunca ninguém deixa de sofrer a apartamento em qualquer geografia rodeada de mar ou só de terra, a frieza sentida ou o calor que outros ao nosso lado nos trazem.

    

    Assim, num dia muito distante – escreve a narradora em ‘Nas margens da ilha’ – daquele em que havia partido, levando consigo a claridade que ela sempre lhe reconhecera, ele voltou. Ela desatou o cabelo cinzento, deixou-o escorrer-lhe sobre os ombros, não teve pudor do corpo já tomado pela inclemência do tempo, sorriu, tomou a mão dele, conduziu-o ao leito. Os sentidos renasceram, inteiros, como sempre a cada regresso dele. Ele havia de se quedar sem demora que ela já não exigia, havia de partir, havia de voltar, e ela esperaria, sabendo agora que ele vivia, como sempre vivera, nas margens do amor, tal ela vivia, assim sempre vivera, nas margens da ilha; ela esperaria tomada de enlevo pelo mar, a quem nada se exige, cuja presença se aceita tal uma dádiva”.

    Eis a simbologia marcante de como a geografia, ao contrário do que alguns pensam, se incute inevitavelmente em estados de alma de cada ser humano, a sua rudeza ou beleza parte da força ou paralisação dos nossos movimentos e pensamentos, euforia ou isolamento silencioso, alegre ou magoado. Um conto distingue-se deste modo: o momento reduzido a um pequeno espaço literário que consegue no leitor a criação redonda e inteira de uma personagem, fazendo com que se torne completo um ser reinventado por um momento que viva e sinta como se toda a sua vida fosse descrita ou imaginada. A contenção da linguagem torna-se como que num quadro pintado por um grande mestre, toda a história da humanidade representada por um só acontecimento decisivo, por uma visão de um clarão que ilumina toda a estória ou História, como escreveria Walter Benjamin. Estamos todos, por assim dizer, e relembrando essas palavras de Benjamin, nas fronteiras da terra ou da mente entre a vida e a morte, tudo o que resta em renascimento ou num estado de apagamento total. Não pretendo aqui, como nunca o pretendo, comparações autorais ou de géneros literários. Só pretendo dizer que a literatura do mundo é mais um encontro do que uma diferenciação do coração humano, mesmo que vivamos os mais radicais modos de vida em qualquer parte do mundo, ou do nosso próprio interior.

    Do Corpo e da Alma de Paula de Sousa Lima é, creio, a continuação de velhos temas seus em toda a sua obra, desde a ficção de Crónica dos Senhores do Lenho à poesia de Quando Eu Mover a Sombra das Montanhas. Não é fácil dominar as formas da variedade da sua obra, que inclui muito mais. A sua persistência ao longo de décadas não é assim tão comum entre muitos dos nossos escritores, o que não implica de modo algum que não sejam autores da arte linguística que nos tem oferecido uma distinta literatura portuguesa, ou mesmo de língua portuguesa nas mais diversas geografias. Tentam alguns deles agora, com a mesma dedicação, chegar a essas novas gerações da nossa diáspora luso-americana através de traduções, e isso com o apoio de centros de estudos lusos em várias universidades.

    Saberemos em pouco tempo do sucesso destes projetos literários. Seja como for, estas traduções de Avelina da Silveira são mais um contributo a essa tentativa de alargar a portugalidade através da literatura, que naturalmente vai além dos ritos comunitários tradicionais que nunca chegarão para definir a modernidade de um povo espalhado pelo mundo e já maioritariamente integrado nas sociedades que escolheram para si.

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Paula de Sousa Lima, Do Corpo e da Alma/Body and Soul (traduções de Avelina da Silveira), MoonWater, Wroclaw, 2025.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental, 6 de janeiro de 2026