quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O renascimento da revista Insulana em Ponta Delgada

 


Finalmente, é uma feliz coincidência o facto de este ressurgimento da Insulana ocorrer no ano em que celebramos o meio século de Autonomia da Região e também no ano em que Ponta Delgada é a Capital Portuguesa da Cultura.

Continuando e renovando, A Comissão Editorial da Insulana


    Creio que a primeira coisa a afirmar aqui é que a Insulana faz parte de uma grande tradição açoriana quanto a revistas institucionais, essas que se caracterizam por erudição e ciência diversa entre o academismo e o saber de escritores e intelectuais independentes. Não está escrito no número desta nova edição, mas a intenção é manter uma escrita sólida não necessariamente “académica” se bem que muitos dos seus colaboradores estão colocados em várias instituições de ensino e investigação superiores e os que se distinguem por estudos-outros também nas mais variadas áreas do saber histórico, sociológico, científico e literário. Não publica ficção e poesia ou outros géneros da escrita criativa, mas dá espaço generoso aos textos sobre essas obras que circulam em grandes e qualitativos números nos Açores. Repito o que já vem escrito no texto que eu cito como epígrafe. A Insulana, que outrora foi publicada durante três quartos do século passado, junta-se de novo a outras revistas também já com uma grande tradição entre nós: Atlântida do Instituto Açoriano de Cultura e o Boletim do Instituto Histórico, as duas de Angra do Heroísmo, assim como ao nada menos significativo Boletim do Núcleo Cultural da Horta. A Insulana vem dividida em secções de Ensaios, Documentos e Leituras. Só mais uma observação essencial neste relançamento da revista micaelense: O instituto Cultural de Ponta Delgada tem sido dirigido por Henrique de Aguiar Oliveira Rodrigues, que assina nas presentes página um breve texto de agradecimento aos sócios que constituem a Comissão Editorial, e a Ponta Delgada Capital Portuguesa da Cultura 2026 em conjunto com a Brown University através da Cátedra Royce Famly Professorship in Teaching Excellence que foi instituida em nome de Onésimo Teotónio Almeida quando ele se aposentou daquela universidade como Professor Catedrático, e agora entre nós é um dos dinamizadores do reaparecimento da Insulana.

    A lista de colaboradores é extensa de mais para que os nomeie a todos, e ainda mais cada título dos seus trabalhos. A Insulana pretende voltar a ser uma revista açoriana em forma de livro, mas com São Miguel e Santa Maria em lugar destacado nas suas páginas deixando ainda o seu espaço a outros temas relevantes e relacionados com todo o arquipélago. O leitor será surpreendido com muitas da suas páginas, que nem esquecem de comentar uma outra produção literária da nossa diáspora norte-americana. A saber, só como exemplos do muito mais nestas páginas: Onésimo Teotónio Almeida com Os Açores e o Domínio Filipino (1580.90) de Avelino de Meneses e a reedição de um clássico da historiografia portuguesa”, Carlos Sousa e Urbano Bettencourt com “A saudade ‘do Corvo’”, Vasco Medeiros Rosa com com o surpreendente “Arrifes ‘bairro cubista’ – e ‘uma das aldeias mais portuguesas de Portugal’”, Miguel Lopes com o luso-canadiano “Michael Gouveia, O Herdeiro”.

foto de Aníbal C. Pires
    Os jornais generalistas têm a sua função desde sempre definida, só que os atuais condicionalismos financeiros e económicos têm de limitar a extensão cada vez mais reduzida de cada notícia ou artigo nalgumas das dessas publicações diárias, que estão a tentar a resistir ao que se tornou evidente com a concorrência de outros meios de comunicação, particularmente o digital entre as novas gerações. Os sinais destas circunstâncias são mistos: por um lado a publicação de livros entre nós não tem par, proporcionalmente falando, no nosso país, por outro a atenção sustentada pelas novas gerações aos temas mais prementes sobre a nossa longa história e tradição literária é uma questão por enquanto questionável. O certo é que a Insulana renasce num contexto literário que mantém clubes de leitura, uma universidade que nunca deixou da transmitir aos seus alunos a essencialidade da leitura em qualquer dos seus géneros mais tradicionais, da reflexão fundamentada através dos livros e de outros meios cujos conteúdos vão além da informação tantas vezes reinventada ou deformada. Bem sei que revistas como a Insulana são dirigidas a uma minoria para quem o seu lugar no mundo pode partir de uma grande geografia ou de uma cultura de pequenas terras dispersas rodeadas de mar por os lados, como é nosso caso nos Açores e noutros arquipélagos. Só que consciência da “pequenez” não evita, nunca evitou a formação de identidades que se conjugam necessariamente com todos os outros no mundo. Nos nossos dias essas identidades são fluidas para todos mas asseguram, uma vez mais, a comunhão profana e humanista entre todos. Um povo, como um colega meu escreveu há pouco na Califórnia numa apreciação da nossa vivência já multi-secular em vários países e geografias mais ou menos distantes e entre línguas e linguagens que começam por serem estranhas, é feita de festas e feridas. Só os textos bem elaborados, por assim dizer, e documentação investigada é que definem quem sempre fomos e somos. É assim que vejo toda a escrita séria: o arquivo indispensável mesmo aos que nunca leram uma das suas folhas, mas cuja osmose de ideias acaba sempre por dignificar todos nós, sem mais distinções de classe económico-financeira ou nível de formação académica.

    Publicar uma revista como a Insulanaou todas as outras exemplificadas na sua reabertura aqui em Ponta Delgada – têm, nada mais nem nada menos, esse papel fulcral de dizer pelo menos ao restante país ou nação que existimos com a memória viva, que sabemos das nossas antigas origens e para onde queremos caminhar hoje e no futuro das gerações vindouras. Não se trata de um ato de manifesta arrogância intelectual, mas sim um ato de consciência e generosidade. Tudo isto inclui surpresas, para mim esses textos inesperados que nos forçam a outro olhar, a presença de outros entre nós, a novidade que nos enriquece de modo especial, como em certos textos ou documentos resgatados ou escritos nestas ricas páginas.

    Publicar uma revista como esta com mais de duzentas páginas em papel nos dias que correm é um privilégio e uma também inesperada dádiva aos seus leitores. Os nomes que formam a Comissão Editorial são Avelino de Freitas de Meneses, José Luís Brandão da Luz, Maria do Céu Fraga, Maria Leonor Pavão, Onésimo Teotónio Almeida, Rosa Goulart e Urbano Bettencourt. Eis aqui alguns dos nomes que fizeram carreira na Universidade Açores num outro grande contributo que agora se estende à comunidade da forma literária e científica mais digna, e como que num gesto de engrandecimento para os que apreciam um projeto como este. Estão todos – estamos – de parabéns. Devemos sobretudo um agradecimento especial ao Instituto Cultural de Ponta Delgada e aos já mencionados patrocinadores um agradecimento – o claro ojetivo é de um projeto para continuar. A Insulana será semestral, e o volume seguinte já está anunciado para o Outono. Que assim seja.

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Insulana: Volume LXXIII, Número I, Instituto Cultural de Ponta Delgada, impressa pela Nova Gráfica, Ponta Delgada, 2026.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental, de 7 de agosto de 2026


sexta-feira, 31 de julho de 2026

Alguma da poesia portuguesa numa escolha original


desde a sua fundação por Snu Abecassis em 1965, a Editora tem permanentemente demonstrado um empenhamento sério na divulgação da poesia.

Manuel Alberto Valente, 60 anos de poesia: uma antologia


    É claro que se trata da editora D. Quixote, hoje parte do grande grupo Leya. Quanto a Manuel Alberto Valente, a sua distinta carreira como editor audaz vem desde a Asa, que publicou sempre alguns dos melhores escritores portugueses e estrangeiros em década recentes. Esta é uma seleção tão especial como original: escolhe o primeiro poema saído em livro na D. Quixote, indo desde Bocage a Salvador Santos, com notas bibliográficas pertinentes neste contexto e por ordem do nascimento de cada poeta. O que resulta é uma compilação de todo sedutora para qualquer leitor da nossa melhor poesia, como é evidente pelos nomes aqui presentes, alguns deles ainda no ativo neste e noutros géneros literários, que incluem ficção e até crítica literária, como no caso de Pedro Mexia e António Carlos Cortez entre outros. Pelo meio temos pelo menos três poetas de origem açoriana, todos eles começando e permanecendo quase toda a sua vida no continente: Antero de Quental, Natália Correia e João de Melo, este que continua numa pungente e diversa produção literária. 60 anos de poesia, e mesmo contendo um grande número de poetas, é um volume com menos de 100 páginas, esses que seguramos nas mãos e lemos com prazer em qualquer parte, a sequência torna-se um método secundário como é habitual a qualquer leitura do género. Uma antologia, para além dos seus critérios próprios, é sempre um ato de generosidade e respeito pela melhor literatura entre nós, facto de que ninguém duvide quando a colocamos entre todos os outros a nível mundial, contemporâneos ou não.

    Abro aqui um parêntese para mencionar algo que me parece justificar algumas das minhas palavras neste texto, assim como já o fiz noutros lugares e circunstâncias. Desde o século XVI que temos contribuindo para a reinvenção da grande literatura europeia sem nunca menosprezar todas as outras que conhecemos por vários modos e sensibilidade. Houve um período de tempo – segundo um texto de outro crítico em que três dos grandes autores europeus estavam vivos e a publicar em determinada época diferentes géneros literários, dramaturgia, poesia e ficção. William Shakespeare, inspirado nalgumas peças e outras literaturas romanas, retratava nessa sua intemporal obra de palco a noção de teatro puro, a sede de poder, ciúmes entre os seus contendores e violências, numa modernidade que perdura até hoje, como o Rei Lear, esse mesmo que Álvaro Cunhal viria a traduzir já nos nossos dias; Camões no oriente e em Portugal saia quase às escondidas com Os Lusíadas, um deles, Shakespeare, classificado como autor que “inventava” o humano, e o outro, Camões, que previa a guerra das civilizações antes de ninguém. Foi afirmado por Harold Bloom no seu O Cânone Ocidental: Os Livros e a Escola do Tempo, que incluiu insistentemente três dos nossos escritores, precisamente Camões, Fernando Pessoa e José Saramago, essa volumosa antologia cuja leitura se tornou quase obrigatória para quem com ele quer refletir ou brigar. Em Espanha foi Cervantes que nos introduz, também segundo certos historiadores da literatura, e que nos afirmam ser o primeiro romance moderno, D. Quixote, essa fábula satírica à cavalaria do seu país, então quase sempre em guerras. a luta pela luta, a conquista pela riqueza e glória que nunca deveriam ter fim.

    Já no século passado outra coincidência literária vinda da preferia europeia e norte-americana. James Joyce abandonava a Irlanda e passeava-se num doce exílio na Suíça enquanto, suponho, escrevia Ulisses, de imediato proibido de entrar nos Estados Unidos nos primeiros tempos da sua publicação pela mítica livraria parisiense Shakespeare & Company nos anos 20, o romance que mais ninguém quis editar, que levava a modernidade literária muito mais longe, inimitável, e ainda hoje lida quando não mesmo fonte de referência tanto em linguagens, estilos como, uma vez mais, em temáticas especialmente a partir dos anos 60 do século passado. Em Lisboa andava diariamente Fernando Pessoa entre dois cafés enquanto escrevia poemas em guardanapos ou qualquer papelinho à mão, sem um único livro publicado em vida para além de Mensagem. É desde alguns anos a esta parte um dos poetas portugueses mais elogiados no mundo, particularmente e ironicamente aquando da tradução da prosa algo dispersa e disruptiva do Livro do Desassossego. O modernista sem tréguas da Orpheu fazia sair a inesperada revista que provocou grande escândalo público e ruidoso, mais ou menos psiquiátrico, em Lisboa. Ao mesmo tempo, William Faulkner andava também meio transtornado pelo bourbon na sua pequena cidade de Oxford, Mississippi – ignorado pela sua estranheza, anos depois vencedor do Prémio Nobel. Deu a saber aos nova iorquinos e a outros arrogantes das redondezas que a sua “América” era mais e muito diferente do resto da nação, caída na guerra civil e ainda a lamber as feridas que nunca sararam. Eram todos, repita-se aqui, “periféricos”. São todos eles, séculos ou décadas depois, os grandes mestres da perpétua reinvenção na arte literária dita universalista, os que levavam a vida de cidade em cidade e ainda mais em recônditos que nunca motivaram qualquer busca de fama ou louvores em qualquer forma. A suposição é minha, mas fica em aberto para outros que pensam de outro modo ou juntam as peças noutros quadros de inteligentes malabarismos verbais ou por escrito.

    60 anos de poesia: uma antologia é daqueles livros que nos surpreendem não só pelos critérios do seu organizador, como nos vem lembrar do trabalho múltiplo de uma grande e corajosa editora em defesa da grande literatura. Os nomes dos seus cinquenta poetas estão aqui à vista, todos com o artífice da nossa melhor poesia modernista. Está aqui também Manuel Alegre com o poema “Fado”: Com que voz nos dirias com que voz/de lira já cansada e enrouquecida?/A gente cega e surda somos nós/o tempo se mudou mas não a vida.

    Nenhuma destas vozes se calaram, e nunca mais ficarão no silêncio de um tempo que valoriza a ignorância como saber, e o saber como atrevimento. Outras continuam a fazer-se ouvir aqui e ali nas mais diversas publicações do nosso país, outras delas atravessaram fronteiras para serem lidas noutras línguas.

    Não será só a forma artística destes poemas que continua a comover uma minoria de leitores ou apreciadores da grande arte em geral. É toda uma identidade na sua definição sempre ambígua ou fluida. Quer queiram ou não, são essas noções de quem fomos e quem somos, são os símbolos e as metáforas que definam toda a sensibilidade de uma cultura a um tempo marcado pela geografia e história, e pela sua inevitável inserção na condição humana vivida e cantada por todos os outros.

60 anos de poesia: uma antologia (organização e notas de Manuel Alberto Valente), D. Quixote/LeYa, Lisboa, 2026.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental de 31 de julho de 2026.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

A vida no Pópulo II

                                                                                

foto de Aníbal C. Pires

Só o posso explicar dizendo que sinto uma ligação a este lugar.

Henrik Brandão Jonsson, Saudade


    Daqui a poucos dias faz 35 anos que arribei a São Miguel por uma questão pessoal e profissional e por querer viver uma vida de adulto nas minhas ilhas de nascimento. Nenhuma diferença ou muito menos trauma ou o facto de eu ter nascido na Ilha Terceira e lá vivido 13 anos me causavam qualquer “choque” cultural porque simplesmente os Açores são para mim um todo, com a riqueza de sotaques, linguagens e até maneirismos, e apesar de alguns em todas as ilhas torcerem o nariz ao vizinho rodeado pela mesma água e sorte histórica circunstancial desde os idos do povoamento. Têm sido 35 anos de alegria e das tristezas humanas a que todos estamos inevitavelmente sujeitos. Só tinha estado em São Miguel duas vezes: a primeira a caminho da América como criança junto da minha família. Só muitos anos mais tarde visitava, já formado e professor na Cerritos High School, no sul da Califórnia e no medonho condado de Los Angeles, e residência em Orange County no outro lado dessa imaginária “fronteira” quase ao lado da Disneylândia que no verão me avisava da meia-noite com o seu alegre fogo artificial em cada encerramento noturno.

    Fui eventualmente convidado para participar com uma comunicação num dos agora históricos encontros literários da Maia que tinham lugar no solar de Lalém, e com organização de Daniel de Sá, Afonso Quental e Urbano Bettencourt. Foi precisamente aí que todo o meu destino mudaria – sala de conferências que também virava sala de festa e baile para outros em certas noites, e um bar ao lado para castigo cerebral dos que gostavam de copos e conversa fiada, e de quando em quando mais ou menos literária. Quando ainda me perguntam como foi a minha adaptação a esta ilha respondo com poucas palavras. Um pouco depois dessas memoráveis convivências eu aventurei-me à grande mudança geográfica e, sim, culturalmente em tudo o resto, pois passei a viver os Açores quotidianamente. Dar aulas como Leitor de Língua Inglesa na nossa universidade e olhar o mar a maior do tempo a partir da minha sala de trabalho rodeado também de livros e de angústia do que deveria ler e escrever a cada semana. Como que a dizer, estava a viver o sonho da minha vida – como ainda hoje, se bem mais cansado do que continuo a designar por “trabalho” para espanto dos que raramente ou nunca leem um livro, e, bom, para espanto de mim próprio e agora medo da quantidade desse papel desorganizado em três salas, que já me cansa e faz-me triste por, em vez disso, não andar de bicicleta como gente normal. Tenho saudades da Califórnia, da minha família que está toda lá, de visitar o jardim central da minha faculdade em Fullerton, dos cafés onde passava horas a ler ou a escrever ao balcão em modo de voo devido à quantidade de café, sem falar nas entradas noturnas no clube e bar de dança que me diziam ser dos Rightous Brothers, e que apareciam de surpresa só esporadicamente no palco a cantar e a alimentar certos estados de alma solitária vindos com as diversas espécies que então o wisky nos provocava. Nunca tive o privilégio de os ouvir ao vivo. Não me apetece mais nada por esses lados, a não ser ainda mais conversa e cumplicidade literária com certos amigos e colegas desde aqueles anos até hoje.

foto de Aníbal C. Pires
    Esta minha vida no Pópulo torna-se uma espécie de esquizofrenia, a “batalha” entre o trabalho que devo por escolha própria ao Açoriano Oriental e a outras publicações universitárias na nossa diáspora na costa leste e no oeste norte-americano, a saber, à revista Gávea-Brown, da Brown University, e dirigida por Onésimo Teotónio Almeida, e à Filamentos do Portuguese Beyond Borders Institute, da Universidade Estadual da Califórnia, em Fresno, dirigido por Diniz Borges. Começando este mês vai reaparecer a Insulana, do Instituto Cultural de Ponta Delgada, com a qual também vou colaborar. A tentação o dia inteiro de descer às esplanadas do Pópulo com vista para a grande praia enquanto leio ou escrevo é-me um dos maiores entraves. Não que as conversas quase sempre avulsas substituam a companhia de um bom poema ou de personagens em grandes romances, que me chegam a casa todas as semanas enviadas por várias editoras ou colegas escritores. Só que, como diria George Steiner no seu livro A Ideia de Europa, é também aí que a cultura surge ou é pensada antes de ser executada em papel ou qualquer género das artes. Trata-se se um vicio também bipolarizado: lá vêm a cafeína ou a outra substância que prende e desprende ao mesmo tempo a consciência fazendo a prosa escorrer como na escrita dita “automática” praticada noutros tempos por alguns dos americanos da literatura dita beat. Não, não estou a escrever isto numa mesa pública, só em casa a beber a inócua água, esse deslavado líquido que os médicos mais receitam contra todos os outros. Só que a vida do pecado também vem de longe, e, como todos sabem, agora pelo menos nalgumas festas e a certas horas do dia torna-se outra coisa.

    

De resto, devo repetir aqui o texto que escrevi há uns anos sobre a minha vida à beira mar e do nada mais interessante do que parece à primeira vista. O Pópulo será talvez a localidade mais diversificada nas suas mesas, pelo menos em São Miguel. Professores, advogados, polícias, indivíduos sóbrios ao lado dos transtornados, digamos assim, das mais diferentes nacionalidades e etnias, particularmente nestes anos de turismo desenfreado, que tanto se senta nas mesas como atrapalha no trânsito, até mesmo no “nosso” parque de estacionamento, já para não falar nos elevadores do prédio a que chamo mais ou menos de casa no inverno, e “hotel” de maio a outubro. Eis de novo a minha alegria de aqui viver e a inerente ambiguidade: sempre um sorriso seguido com o ranger de dentes provocado pelas outras situações aqui descritas. Eu sei que para outros, tudo poderá ser ao contrário: que se aumente sempre o ambiente da multidão que são os nossos hóspedes, que os outros continuem com olhares quase cobertos pelas sobrancelhas chateadas. No fundo, e na minha outra verdade, os Açores todos tornaram-se muito mais interessantes e sofisticados nos seus conhecimentos outrora escondidos ou nunca pensados, a universalidade ao vivo em pequenas e belas terras a meio do Atlântico-passadeira que nos leva para os outros e nos trazem em grandes números e curiosidade. Quanto mais as flores, os nossos verdes, e azuis do mar são partilhados, mais paz e entendimento, suponho, no nosso mundo por perto e ao longe.

    Que os economistas e todos os outros que criam empregos e capital e ainda mais os que dele desfrutam não me interpretem negativamente quando eu digo a alguns amigos ou conversadores ocasionais que tenho sentidas saudades de São Miguel do ano em que me radiquei para sempre em 1991. Não chamem provinciano a quem se fez homem e viveu a ruralidade do Vale de São Joaquim no interior da Califórnia durante pouco mais de um ano, e logo depois a urbanidade da grande Los Angeles e arredores onde me formei e depois dei aulas durante 14 anos na escola secundária que mencionei neste texto. Precisamente por ter vivido essa outra geografia humana adorei desde logo ver ou conhecer sempre as mesmas caras aqui na ilha. Uma vez mais, conhecer pessoalmente os vizinhos pode ser um grande embaraço por razões da natureza humana. Erguer uma parede um pouco mais alta ao nosso lado, ou pior, sermos olhados de lado é um desconforto a que nos habituamos, ou não. A vida no Pópulo, como creio ser em toda a parte, é feita destas contradições existenciais. Tento, quando desço ao reduto da minha alegria, nunca ignorar um sorriso sincero ou uma breve conversa, desvio-me dos mais convencidos no espaço que é deles ou delas, da sua própria identidade quando manifestam o desagrado que por vezes nos assalta.

A citação da minha epígrafe é do recente livro Saudade: Cartografia de um sentimento, de Henrik Brandão Jonsson, Penguin, Lisboa, 2026.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental de 24 de julho de 2026

sexta-feira, 17 de julho de 2026

De Sam Pereira e da outra grande poesia da nossa diáspora norte-americana

 

It was a joke. Actually, he rode/Into town with a typewriter,/ Bach in the 70s/ Na verdade era uma brincadeira. /Ele foi até à cidade com uma máquina de escrever/nos idos dos anos 70.

Sam Pereira, Code Blue


    Comecemos assim. Foi o início de uma carreira literária absolutamente original e tematicamente bipartida no contexto da literatura dos Estados Unidos, em que a pessoalíssima experiência de Sam Pereira viria a convergir com a melhor literatura do seu país de nascença e ainda quase sempre com a da sua ancestralidade lusa, particularmente a dos Açores. Não foi só por mera curiosidade que há alguns uns anos recenseei nestas páginas a sua poesia intitulada, sem outras explicações, The Mariage of the Portuguese. O meu fascínio pela sua obra foi imediato após a leitura desta sua entre muitas outras obras. O meu regresso ao seu mais recente livro, Code Blue: New & Selected Poems, ser-me-ia inevitável. Aqui estava eu saltando sobre muitas das suas publicações saídas nos Estados Unidos no entretanto, mas agora com uma revisita e leitura de outros novos poemas numa maturidade de idade e poética, como me diz um colega na Califórnia, que fez questão de manter o contacto com ele, e agora saiu este seu no novo livro na Bruma Publications e das Letras Lavadas, que se expandem para os escritores das mais significantes geografias também historicamente nossas. Sam Pereira nasceu em 1949 e vive, creio que desde a maior parte da sua vida, em Los Banos, uma das pequenas cidades do Vale São Joaquim. A mesma de onde um dia viveu desde cedo um outro poeta e romancista nosso: Alfred Lewis (Alfredo Luís) que para lá emigrou das Flores e foi talvez o primeiro imigrante açoriano a publicar um romance, Home is an Island, na grande editora Random House, recenseado no New York Times em termos laudatórios nos anos 50. Foi traduzido no nosso país por Rui Zink, sem qualquer resposta digna da crítica portuguesa. Perda dos nossos leitores. Estas palavras, no entanto, são em primeiro lugar para a apreciação da poesia de Sam Pereira, esse que continua a ser um desconhecido na terra dos seus antepassados, esse poeta que também “viaja” entre a América e a muito antiga terra dos seus e de nós todos.

    Code Blue: New & Selected Poems é de uma linguagem tão sofisticada como direta, tão pessoal como irónica sobre a própria vida do distinto poeta que é Sam Pereira. Foi formado a nível superior na Universidade Estadual da California, em Fresno, na companhia do poeta anglo-saxónico Philip Levine, que lá dava aulas, e foi e é até aos nossos dias considerado uma das vozes mais lidas e valorizadas no seu país. Depois viria o mestrado de Sam Pereira na prestigiada University of Iowa Writers Worshop. Vai esta informação para os que entre nós muito falam sobre a nossa diáspora, essa ideia que permanece mais ou menos abstrata para alguns deles de quem somos e temos sido fora do território pátrio.

    Sam Pereira é esse desafio nosso de ler um poeta cujos versos relembram uma vida de boémio tranquilo, fumador e à maneira lusa sem nunca descurar um copo, mais ou menos cauteloso. Cada poema toma a sua forma variada sem nunca deixarem de ser a narrativa de uma vida em viagem perpétua até ao nosso momento juntos ou solitários em tudo. De convivência em convivência noturna ou ocasional, digamos assim, depressa passa ao coletivo múltiplo com quem se identifica na sua vida. Entre o que percebemos ter sido viver nos dias e nas noites de folia, das músicas e canções que lhe comoviam, passa noutros poemas à vida rural dos seus pais e avós, dirige ou atravessa a sua imaginação até às ilhas de saudade ou aventura, que nunca sabemos se foi vivida, ou simplesmente fantasiada por ele, como no poema, na companhia de uma mulher, “Hemingway in Angra”. Podia ser um fado de qualquer uma das nossas gerações. Amor e despedida, surrealismo e uma experiência nunca acontecida, mas que poderia ter sido no real se suspendermos por esses instante de leitura o que fica entre a verdade e a imaginação pura. O seu léxico poderá ser simples ou mais encoberto, mas o seu significado fica ao dever da capacidade de cada leitor. Que nenhum deles se sinta perdido num destes seus poemas. O seu tributo a outros poetas é uma constante, sem nunca a sua originalidade ser ambígua, como em “Give Me A Carton of Edna Millays”, uma das breves e livres namoradas do grande crítico Edmund Wilson em Nova Iorque, uma outra tirada com humor dos meados do século XX americano em movimento na modernidade total literária e vivencial que finalmente nascia no outro lado do mar.

    Sam Pereira é um dos primeiros poetas modernistas luso-americanos em atividade literária constante na nossa diáspora na Califórnia. Digo “na nossa diáspora” porque ele é americano sem nunca esquecer os seus progenitores lusos, tal como é o caso de Frank X. Gaspar, Katherine Vaz e Carlo Matos, entre alguns outros e outras escritoras mais recentes cujas obras eu não conheço. Trinta e cinco de Açores não me tornaram distante. Só que a literatura vive das proximidades tão humanas como geográficas. Tudo isto está felizmente a ser esbatido pelas novos meios de comunicação e contactos quase diários. Nunca ter conhecido pessoalmente Sam Pereira é hoje para mim como se eu tivesse falado com ele diariamente, tal o seu poder literário, tal o seu regresso ao nosso meio de lá ou de cá que foi transportado na alma e memória de cada imigrante e perpetuado por grande parte dos luso-descendentes. É isto que faz a grande – digo grande – literatura em qualquer um dos seus géneros. Há aqui um pedaço de prosa poética intitulado “Letter to St. John in the Style of Richard Hugo” que me confirma a sua quase incrível capacidade de dizer da vida e da morte que nunca deixam de estar entre os que, como eu, já vão em idade avançada. Em Sam Pereira há também outra característica dos grandes poetas, dos grandes escritores do mundo. Na superfície das palavras que aparentam linguagens ou versos de significados menos claros acabam por nos seduzir na sua beleza que se torna clara – memória, uma vez mais, de anos e lugares vividos ou simplesmente olhados, a condição existencial que acaba por nos ser clara na angústia de estarmos vivos e conscientes do que foi – e inevitavelmente será. Ri-me (deveria ter chorado?) com o poema “Tragic Cigarettes”. Sei do que fala, não com o sentido de tragédia, muito ao contrário, mas sim com a consciência quase como a que ouvir uma canção existncialista de Frank Sinatra, aparentemente admirado por Sam Pereira, como por mim.

    Eis aqui a suprema poesia em consonância com a grande arte de todos outros. Dedica certos poemas, num caso pelo menos, a um grande amigo comum a nós os dois. A epígrafe deste meu texto vem no poema “The Outlaw, Sam Pereira”. A liberdade em chamar-mo-nos pelo estilo das nossas próprias vidas é um dos mais corajosos atos ou, por outro lado, a desnecessidade de experimentar outros modos de vida. Tudo isto é a palavra de um poeta ou escritor que nos conta ou confronta. A sua terra a meio da Califórnia interior era para ser lavrada, e cantada ou elevada na grande literatura, como aliás sempre foi por muitos outros, esses que são o reduto de minorias que acaba por definir a nossa identidade, o nosso ser, a história, uma vez mais mais, das nossas viagens em busca do tudo e, ironicamente, do nada. A poesia de Sam Pereira é esse modo maior e artístico de nos dizer o nosso próprio destino nunca separado.

Sam Pereira, Code Blue: New & Selected Poems, Ponta Delgada, Bruma Publications/Letras Lavadas, 2026.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental, 17 de julho de 2026.