sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Quando a prosa e a poesia se encontram

                                           

Procuro a geografia do meu coração, e o tempo é o único aliado que tenho.

Paula de Sousa Lima, Do Corpo e da Alma


    Se há uma escritora portuguesa cuja consistência se tornou numa vasta obra e num outro cânone autoral de todo e necessariamente pessoalizado, essa autora é Paula de Sousa Lima. Frequentemente na sua escrita reclama todo o seu país como referencial, mantendo quase sempre a vida açoriana no seu centro. Lionel Trilling, um dos grandes mestres da literatura judia-americana a partir dos anos 30 do século passado, se assim me é permitido classificar uma escrita que tinha como tema dominante a reclamação do chamado Novo Mundo a oeste sob outros olhares e passado ancestral numa Europa até então violenta, pedia, para além da arte na literatura de qualquer espécie, autenticidade. Nenhum autor pode e nunca deve fugir à sua própria vida interior e história pessoal, de andanças geográficas ou não, um narrador disfarçado de outro ou assumindo a sua própria pessoa torna a arte literária numa peça original e, nas melhores páginas, indeléveis para o seu tempo e para o devir de outras gerações. De resto, o primeiro modernismo radical na literatura ocidental já não deixava de combinar os géneros até então arrumados em prateleiras artísticas supostamente distintas. A poetização da grande literatura moderna nasce aí; nem sequer o ensaio, quando relevante para uma estória contada num romance de fôlego tinha de ficar ausente. O que chamamos de “conto” é do mesmo modo uma mistura de tudo isto, cada narrador nasce, só pode nascer, do interior ou do íntimo do seu autor ou autora. Literatura sem essa autenticidade, sem a plausibilidade de qualquer ficção que tenha a possibilidade de acontecer ou já ter sido vivida perde toda o seu encanto, perde a estética ou beleza de cada palavra. É este o paradoxo: a verdade tem de estar implícita na mentira da ficção. Foi com Lionel Trilling e outros que constituíram o grupo de novos escritores americanos que renovaram em parte toda uma literatura no país em que eu aprendi a ser português ao longe e ao mesmo tempo americano em casa na terra onde nasci.

    

    Do Corpo e da Alma é um conjunto de contos que nos aparece numa bela edição bilingue, com traduções impecáveis de Avelina da Silveira, agora também editora nos Açores. O próprio título de Paula de Sousa Lima transmite a sua própria temática. Li e apresentei publicamente desde há anos a maior parte da sua obra ficcional. Sei como a autora tanto se desdobra nas mais variadas narradoras como raramente se desliga de si própria, confirmando o que um dia afirmou José Saramago: em cada narrador está o autor – se não nos factos e eventos que descreve ou reinventa, definitivamente permanece fiel aos seus sentimentos e interpretações de qualquer personagem por mais distante que nos pareça. Em cada um destes contos destaca-se o existencialismo quotidiano de quem fala em direto ao seu leitor. A solidão dos dias, o amor sentido e por vezes não retribuído com o mesmo ardor ou sequer sinceridade, a saudade de um amigo ou amiga que partilha um chá nos momentos de confissão, calma ou de memória dos ausentes, o permanecer viva e atuante ante as circunstâncias de cada momento de uma vida inteira. A sua linguagem é tão linear como precisa – nem uma frase fora do contexto e definidora do estado de espírito em momentos de cada dia ou experiência vivida ou reinventada pela memória, que poderá confirmar essas verdades de que já falei, ou então inevitavelmente acrescenta parte da narração sempre em curso de conto em conto numa sequência que depende de uma leitura atenta e interessada nessa autenticidade interior. Sim, também pela geografia que vamos apreendendo – a narradora como as personagens que ela reinventa ou imagina tornam-se parte de nós. São ilhas numa ilha nunca nomeada porque nunca ninguém deixa de sofrer a apartamento em qualquer geografia rodeada de mar ou só de terra, a frieza sentida ou o calor que outros ao nosso lado nos trazem.

    

    Assim, num dia muito distante – escreve a narradora em ‘Nas margens da ilha’ – daquele em que havia partido, levando consigo a claridade que ela sempre lhe reconhecera, ele voltou. Ela desatou o cabelo cinzento, deixou-o escorrer-lhe sobre os ombros, não teve pudor do corpo já tomado pela inclemência do tempo, sorriu, tomou a mão dele, conduziu-o ao leito. Os sentidos renasceram, inteiros, como sempre a cada regresso dele. Ele havia de se quedar sem demora que ela já não exigia, havia de partir, havia de voltar, e ela esperaria, sabendo agora que ele vivia, como sempre vivera, nas margens do amor, tal ela vivia, assim sempre vivera, nas margens da ilha; ela esperaria tomada de enlevo pelo mar, a quem nada se exige, cuja presença se aceita tal uma dádiva”.

    Eis a simbologia marcante de como a geografia, ao contrário do que alguns pensam, se incute inevitavelmente em estados de alma de cada ser humano, a sua rudeza ou beleza parte da força ou paralisação dos nossos movimentos e pensamentos, euforia ou isolamento silencioso, alegre ou magoado. Um conto distingue-se deste modo: o momento reduzido a um pequeno espaço literário que consegue no leitor a criação redonda e inteira de uma personagem, fazendo com que se torne completo um ser reinventado por um momento que viva e sinta como se toda a sua vida fosse descrita ou imaginada. A contenção da linguagem torna-se como que num quadro pintado por um grande mestre, toda a história da humanidade representada por um só acontecimento decisivo, por uma visão de um clarão que ilumina toda a estória ou História, como escreveria Walter Benjamin. Estamos todos, por assim dizer, e relembrando essas palavras de Benjamin, nas fronteiras da terra ou da mente entre a vida e a morte, tudo o que resta em renascimento ou num estado de apagamento total. Não pretendo aqui, como nunca o pretendo, comparações autorais ou de géneros literários. Só pretendo dizer que a literatura do mundo é mais um encontro do que uma diferenciação do coração humano, mesmo que vivamos os mais radicais modos de vida em qualquer parte do mundo, ou do nosso próprio interior.

    Do Corpo e da Alma de Paula de Sousa Lima é, creio, a continuação de velhos temas seus em toda a sua obra, desde a ficção de Crónica dos Senhores do Lenho à poesia de Quando Eu Mover a Sombra das Montanhas. Não é fácil dominar as formas da variedade da sua obra, que inclui muito mais. A sua persistência ao longo de décadas não é assim tão comum entre muitos dos nossos escritores, o que não implica de modo algum que não sejam autores da arte linguística que nos tem oferecido uma distinta literatura portuguesa, ou mesmo de língua portuguesa nas mais diversas geografias. Tentam alguns deles agora, com a mesma dedicação, chegar a essas novas gerações da nossa diáspora luso-americana através de traduções, e isso com o apoio de centros de estudos lusos em várias universidades.

    Saberemos em pouco tempo do sucesso destes projetos literários. Seja como for, estas traduções de Avelina da Silveira são mais um contributo a essa tentativa de alargar a portugalidade através da literatura, que naturalmente vai além dos ritos comunitários tradicionais que nunca chegarão para definir a modernidade de um povo espalhado pelo mundo e já maioritariamente integrado nas sociedades que escolheram para si.

____

Paula de Sousa Lima, Do Corpo e da Alma/Body and Soul (traduções de Avelina da Silveira), MoonWater, Wroclaw, 2025.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental, 6 de janeiro de 2026


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Quando um livro inesperado nos aparece

                      


    O mundo de cada um é por vezes demasiado grande para caber dentro de uma só pessoa.

João Gago da Câmara, O Chamamento.


    A minha epígrafe para este texto é da autoria do próprio autor de um primeiro romance, O Chamamento de João Gago da Câmara. A descoberta da nossa literatura, neste caso açoriana, tem-me chegado desde sempre de quando em quando ao longo de décadas e nos mais improváveis contextos. Conheço o autor há muitos anos, desde que regressei definitivamente aos Açores em 1991, mas conheço-o como jornalista e cronista em jornais e noutros meios de comunicação, sem nunca prever esta sua incursão ficcional numa narrativa de grande fôlego, mais de trezentas e sessenta e tal páginas de prosa aliciante sobre a nossa emigração para os Estados Unidos no princípio do século passado, e em circunstâncias que para nós são demasiado conhecidas e seguidas de um destino pouco comum para o tempo e certas geografias desconhecidas mas sonhadas. Não se trata aqui de um romance que repete os estereótipos do costume sobre a nossa imigração entre outros escritores nossos. O Chamamento está algures entre o trabalho de investigação aturada nas ilhas e na América do Norte e o jornalista e escritor que trabalha a palavra com a maior criatividade e sabedoria da realidade dos açorianos que enfrentaram na sua aventura de salvação e desespero na busca do outro futuro e, sim, a rejeição da vida secular sem promessa nem perspetiva de bater o afogamento de serrados e vacas que pouco mais de mera sobrevivência ofereciam à maioria do seu povo, por mais que iludissem os que nunca foram descendentes de capitães generais e capitães donatários, alguns dos quais provavelmente nem conheceriam a geografia atlântica e as ilhas de que eram “donos”. A boa escrita é sempre um ato de redenção, uma acusação antes de ser a saudade dos seus filhos e filhas.

    

    Não vou entrar nos pormenores sobre as muitas personagens que pululam, vivem e simbolizam o destino açoriano desde sempre, e que permanece até aos nossos dias. Nascer nos Açores é um paradoxo, como suspeito ser de outros em muitas outras terras: amar as origens e querer logo depois fugir delas. Um novo mundo é sempre uma outra vida imaginada ou, uma vez mais, sonhada, faz parte, suponho, da condição universal, a noção de uma qualquer “utopia” parece provocar o impulso de cada ser humano. A nossa, a dos açorianos, foi sempre as Américas, desde o norte ao extremo sul daquele vasto continente, desde o frio do Canadá ao sul do Brasil e outros países vizinhos. É uma promessa que antes da escrita em várias formas já fora transmitida pela boca de torna-viagens de toda a parte, pelas fantasias que começam com uma história de descobertas muito antigas, com o instinto e sofrimento de terras do nosso lado quase sempre oprimidas e governadas por heteridade desde os tempos mais antigos. A maior parte dos açorianos nunca se conformaram com o seu destino fechado a meio mar e sempre numa terra tremida, num ajuste económico e social entre uns poucos escolhidos e uma maioria oprimida ou sem meios de vida razoáveis. Até hoje, quando boa parte dos nossos jovens continuam a sonhar e a querer partir – e partem sem sossego ou crença em melhores dias.

    

    O Chamamento de João Gago da Câmara nasce de longas conversas com uma senhora de Angra do Heroísmo que conta a história da sua família na freguesia do Raminho, na lha Terceira. Tem 88 anos de idade, e chama-se Clarinha Ferreira Cota. Conta em conversas e memória viva a João Gago da Câmara as longínquas andanças dos seus, nos Açores e nos Estados Unidos, quando ainda cavalgavam por lá os seus donos nativos – os “índios” – em defesa de si próprios, mas já em diálogo sereno negociavam de vários modos amenos com todos que eram trabalhadores nos seus territórios e arredores, desde que não fossem militares federais. A originalidade do romance de João Gado da Câmara reside nesse pressuposto ou realidade histórica já no início do século passado, em que a nossa gente aumentava a fuga de resistência à falta de qualquer outra esperança para as suas vidas. O protagonista chama-se António Cota, o irmão de uma grande família que já tinha emigrado, e ele ainda desde tenra idade nos Açores reduzia-se a tomar conta da lavoura dos seus pais que tinham ficado, avistando o dia em que ficaria a trabalhar só, e só com a promessa de herdar uma pequena parte dos anos mais ou menos solitários do seu trabalho e suor. É uma história muito nossa, muito comum. Um dia deixa a mulher que namorava e amava contra uma vida que apenas prometia mais trabalho e divisão de bens com os que haviam partido. A História, diria um dia alguém proeminente na luta por outro mundo, primeiro acontece como tragédia e depois repete-se como farsa. Só os corajosos quebram o ciclo da tradição. Com um irmão mais velho que havia escolhido a nossa geografia americana mais improvável nessa altura, creio, Wyoming (hoje no noticiário diário em todo o mundo pelas piores razões de violência injustificável) nas profundezas do interior na América das nossas ilusões, pastores prósperos de ovelhas, depressa se tornam o braço direito de António ido da Ilha Terceira secretamente.


    J
oão Gago da Câmara leva-nos ainda ao encontro do resto dos irmãos também
residentes e fazendo as suas vidas em geografias que raramente nos aparece na literatura referente à nossa imigração: Las Vegas, aonde reside parte da família e, como seria de esperar, na Califórnia. Cavalos, comboios, trabalho e festas em casa de um ou outro – até que os anos passam e inevitavelmente o futuro regressa. Boa parte dos açorianos acaba por visitar a terra outrora do seu sofrimento, para agora a festejar. Uns ficam permanentemente, outros regressam ao outro lado do mar. Numa história investigada e escrita entre a investigação jornalística e agora feita ficção, aqui está uma previsão dos nossos próprios dias. Já não são os “indios” a patrulhar as poucas terras que lhes restam ou restaram; é a saudade real e não mitificada que fica prevista nesta narrativa. São agora outros que provocam a vontade dos regressos – a insegurança da “terra prometida” tornada pesadelo para os mais conscientes. Cada imigrante regressado com quem falo atualmente mantém um silêncio visivelmente magoado. Outra parte deles, sentindo-se senhores de uma terra de que nunca foram, pelo menos num outro regime atual poucas vezes antecipado na sua história, continuam felizes. Só que do rebanho de ovelhas ou vacas que outrora cuidavam tornam-se alguns deles atualmente em “ovelhas obedientes”, sem palavra nem queixas. Nunca ninguém deixou esta terra açoriana sem lágrimas nem adeuses quase apocalípticos. Sei disso pessoalmente. Uma vez mais: a História primeiro acontece como tragédia, e depois como farsa. Nada dos nossos dias que correm ilustra esta verdade com tanta força e urgência. A terra da promessa parece tornar-se a terra do mais assustador gelo, real e metafórico.

    O Chamamento é uma dessas narrativas a que os americanos chamam o page-turner, num gesto de leitura quieta queremos virar cada página para saber o que vem a seguir. Isto é a melhor qualidade de um bom livro. Para alguns escritores entre nós torna-se mero jogo de palavras que nada significam para além de nos fazer consultar páginas de um qualquer dicionário à procura de sentidos que nos iludem – e nada significam para além do ego de quem os escreve apenas para si próprios ou para o amigo de ocasião.

___

João Gago da Câmara, O Chamamento (prefácio de Rita Ferro) Lisboa, cordel d’ prata, 2025.

Publicado no BorderCrossings do Açoriano Oriental, 30 de janeiro de 2026


sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Ainda Carlo Matos e o reencontro com as suas raízes açorianas

    

    Carlo Matos é um autor bi+/poly que publicou 13 livros, incluindo We Prefer the Damned (Unbound Edition Press) e As Malcriadas: or Names We Inherit (New Meridian, 2022). Os seus poemas, contos, ensaios e recensões têm saído em inúmeras publicações. Os seus livros foram recenseados em publicações como Kirkus ReviewsBoston ReviewIowa Review e Portuguese American Journal. Carlo recebeu bolsas e apoios da Disquiet ILP (Portugal), CantoMundo, Illinois Arts Council, Sundress Academy for the Arts e La Romita School of Art (Itália). É membro fundador do coletivo de escritores luso-americanos Kale Soup for the Soul e vencedor do Heartland Poetry Prize. Vive atualmente em Chicago, é professor nos City Colleges of Chicago e foi lutador de MMA e kickboxer. A nossa conversa foi feita por escrito, com trocas continuadas a propósito desta entrevista. Nesta versão para o Açoriano Oriental parte da resposta que se segue foi cortada a favor do espaço desta página.

*

    Na minha recensão  A School for Fishermen, publicada aqui nos Açores, escrevi: “Fishermen do açor-americano Carlo Matos é uma viagem persistente por geografias vividas e imaginadas, uma narrativa com várias vozes, todas elas ligadas a uma mesma família que tenta apaziguar a ansiedade provocada pelas sombras de um certo passado, tanto em dias luminosos como em tempos mais sombrios...” Como chegou a esta necessidade artística?

    Costumo dizer que Fishermen é o tipo de livro de poesia que um dramaturgo poderia escrever. Embora tenha começado como poeta, apaixonei-me pelo teatro muito cedo na faculdade, e apaixonei-me a sério. Ao contrário da poesia, tive quase sucesso imediato (na medida em que isso existe) no teatro, enquanto lutei por anos para escrever poemas suficientemente bons para serem publicados. Acho que isso se deve, em grande parte, a todas as ideias erradas sobre poesia que herdei de filmes, séries de televisão e até de alguns professores bem-intencionados. Não tinha os mesmos preconceitos em relação à escrita dramática, por isso não tive de perder tempo desaprendendo maus hábitos.

    Curiosamente, o meu pai também escreveu peças quando era jovem, e eu sempre estive envolvido em teatro como intérprete, por isso, o teatro fazia parte da cultura da minha família. Não é que os meus pais fossem propriamente apoiantes da minha presença em palco, mas também não resistiam nem denegriam — o que, em minha casa, era o mais próximo de apoio que se podia ter. Ainda assim, nunca tinha escrito uma peça antes da universidade.

    Mais ou menos na mesma época em que escrevia, encenava e produzia peças, consegui pôr as mãos em Fernando Pessoa & Co., de Richard Zenith. Se não me engano, cronologicamente, terminei a minha primeira peça em 1997 e o livro do Zenith saiu em 1998. Estava há uma vida à espera de encontrar um livro de poesia portuguesa em tradução. Consigo ler português, mas muito mal, e nunca seria capaz de lidar com poesia ou prosa sofisticada com alguma fluência.

    

    Um dos meus cursos académicos é em teatro, e os outros, em literatura; por isso, estudei incontáveis autores europeus. A minha tese de doutoramento, por exemplo, foi sobre Henrik Ibsen. Na escola, estudei escritores de toda a Europa, mas nenhum de Portugal (ou de descendentes de portugueses). Nenhum! No secundário, lemos muitos autores da “lost generation” como Hemingway e Fitzgerald, mas não Dos PassosManhattan Transfer é um livro excelente, mas tive de descobri-lo sozinho. Ninguém mencionou que Emma Lazarus, a autora do célebre poema da Estátua da Liberdade, também era de ascendência portuguesa. E eu cresci num lugar cheio de portugueses; por isso, o que se passava ali? Porque é que passava todo o meu tempo a ler, sobretudo, escritores ingleses?

Não me interprete mal: ainda adoro muitos desses escritores; gostar ou não gostar deles não é a questão. A questão é que os escritores do país de onde vem a minha família foram praticamente apagados do currículo das minhas várias escolas. Ainda hoje, embora esteja muito melhor, o número de livros traduzidos para inglês é relativamente pequeno comparado com escritores de outros países. Foi preciso o Saramago ganhar o Nobel, em 1998, para as coisas começarem, finalmente, a mudar a sério.

    O livro do Zenith foi o que eu queria há tanto tempo. E o Pessoa, claro, é um escritor selvagem à partida, tornando as explorações de persona de poetas como Eliot e Pound em brincadeira de criança. As heteronímias de Pessoa conduziram-me indiretamente à ideia de escrever poemas de persona por meio da dramaturgia. Dessa forma, podia escrever sobre os temas que vinha explorando há anos, mas a partir de uma perspetiva mais distanciada. Eu ainda era um homem muito jovem quando comecei a escrever os primeiros poemas que viriam a constituir Fishermen. Os poemas mais antigos dessa coletânea datam de 1998, quando eu ainda estava no penúltimo ano da faculdade. Precisava de sair da minha frente, por assim dizer, e fiz isso criando personagens como fazia nas minhas peças.

    João Filipe — a voz de “Stonemasonry” — torna-se pedreiro, como o meu pai, e desenvolve, por assim dizer, toda uma metafísica em torno da construção e destruição de muros. Eu também tentava associar a cantaria a outras formas de conhecimento esotérico: o pedreiro como maçom ou outra espécie de sociedade secreta que diz guardar saberes ocultos.

    A voz do Filipe surgiu quase totalmente formada. Foi um daqueles raros momentos quase místicos de que costumo desconfiar. Não é que não faça espaço para o acaso; simplesmente não tenho paciência para o misticismo levado demasiado a sério. Parte do trabalho de escrever é estar aberto ao acaso, estar aberto à musa, por assim dizer, mas há uma diferença entre isso e ficar sentado à espera de que algo venha do nada. Se ficarmos à espera da musa a sussurrar-nos ao ouvido, como ainda é tão habitual nas dramatizações populares de artistas e escritores, nunca fazemos trabalho nenhum, ou, pelo menos, não muito...

    Uma das minhas obsessões da chamada “meia-idade”- middle age - é a ideia de ter os sonhos errados. Não sei como é nos Açores, mas na América a noção popular de sucesso é patológica. Ensinaram-nos a nunca desistir. Ouvimos esta frase, nunca examinada, em todos os contextos imagináveis. Há algum mérito nisto, claro. Não podemos queixar-nos de falta de sucesso se não nos dedicamos de forma suficiente ao trabalho duro de lá chegar; contudo, também há perigo nesta ideia. Se nunca desistirmos, aconteça o que acontecer, nunca poderemos distinguir as buscas que valem a pena das que devemos abandonar. Há uma diferença entre trabalhar arduamente e passar a vida a bater a cabeça numa porta fechada até ficarmos em sangue...

    A minha coleção de ensaios breves, The Quitters, lida com a ideia de falhar e desistir repetidas vezes, tentando mostrar como esse “nunca desistir” se torna uma ideia cancerígena, em vez de um caminho para o sucesso.

    Mas a minha primeira abordagem séria desta ideia deu-se com o Felipe. Ele debate-se com os seus muitos fracassos internalizados, alguns já ligados à sua queeridade escondida, que se tornaria um tema central anos mais tarde em We Prefer the Damned. Ele tem uma paixão por um novo heterónimo que inventei, o filho de Alberto Caeiro, o verdadeiro “guardador de rebanhos”. Quis acrescentar o meu heterónimo ao panteão do Pessoa. Foi a minha maneira de me situar na tradição literária do modernismo português. Com algumas referências a Camões e ao fado, foi uma das primeiras tentativas de me ligar a coisas portuguesas para lá da minha experiência pessoal.

    Curiosamente, a árvore genealógica, no início do livro, foi uma das últimas coisas a surgir. Não foi ideia minha, gostava muito que tivesse sido. Veio de um dos meus melhores amigos da altura, que tinha lido praticamente tudo o que eu escrevera até então. Percebi imediatamente que era a ideia certa. Colava tudo.

    Este livro demorou 10 anos do começo ao fim, e foi a minha primeira tentativa de pôr um pé nos Açores e outro nos Estados Unidos, como um colosso. E, como a estátua grega original, sabia que, quando tudo estivesse dito e feito, o mais provável era que só sobrassem uns pés desmembrados para marcar que alguém tinha estado ali, quem quer que fosse.

___

  De Gávea-Brown, VOL. L, N.º 2, 2025. Tradução de Diniz Borges. Agradecemos à Gávea-Brown e ao seu diretor Onésimo T. Almeida por permitir que a plataforma Filamentos a publicasse.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental, 19 de dezembro de 2025