quinta-feira, 29 de outubro de 2026

De Diniz Borges e de um outro cânone


 Estas duzentas e cinquenta vozes pertencem a esse momento fundador em que a América procurava falar de si mesma.

Diniz Borges, Os livros Que Me Fizeram Americano


    Diniz Borges declara que este seu livro não é um “cânone”, mas para mim é isso mesmo. Uma listagem comentada de 258 livros, que traz ainda o subtítulo de 250 vozes para os os 250 anos da América. Escrevo aqui naturalmente como português e também enfaticamente como luso-americano porque desde há muito sou também cidadão daquele meu outro país. Formado em Estudos Latino-Americanos e com pós-estudos na literatura modernista desta minha outra geografia no outro lado do mar e continente não posso deixar de contrariar as palavras do autor do presente livro. Desde sempre leitor da literatura dita americana, reconheço-me nas escolhas de Diniz Borges como conheço muitas das obras por ele citadas e comentadas. A propósito destas minhas palavras: deixei os Estados Unidos há 35 anos, e para meus pecados estou em branco quanto à literatura mais recente dessa minha longa residência e formação na Califórnia. A lonjura, mais psicológica e outros projetos literários meus fizeram com que não continuasse a ler sistematicamente e a adicionar essas obras fundamentais à coleção aqui em casa – com especial falta dos autores americanos que então eram, talvez injustamente ou pelo menos erradamente, nomeados de “étnicos”. Seja como for, Os Livros Que Me Fizeram Americano é para mim essa referência que já me faltava, e ainda por outras razões que explicarei mais adiante. Diniz Borges começa com a literatura fundadora dos EUA, desde Anne Bradstreet, Herman Melville, Walt Whitman e Mark Twain, entre muitos outros, e segue em linha contínua com os modernistas do século passado até aos nossos dias. Por outras palavras, modernismo e pós-modernismo que completam e dialogam numa primorosa listagem que fica connosco, e faz ainda algo muito mais. Cada livro é seguido de um breve comentário que o situa a ele próprio em termos culturais e como imigrante desde criança em comunidades no vasto Vale de São Joaquim que se tornam simbólicas do que entende ser esse seu outro país e ser-se imigrante que aos pouco se integra na grande sociedade que o rodeia e a que pertence por inteiro.

    Diniz Borges faz ainda neste livro o que nenhum de nós pensou ou imaginou. Foram os livros que ele foi lendo ao longo da sua carreira académica e literária que nos trazem o processo da sua “americanização”, e a aceitação do que passaria a ser o seu inevitável destino – e de, uma vez mais, dos muitos dos seus conterrâneos reverem-se na sua prosa sobre cada um dos livros que escolhe como influências hoje indeléveis da nossa sorte na vida. Isto é uma obra especial. Quem não se rever nela ou é ignorante da vida a outro nível, ou então viveram a América com a obsessão da terra-pátria. Só que em nada destas páginas de breves comentários nos contradizem – dizem-nos como ninguém o teria dito antes. Diniz Borges é ainda mais original entre entre nós. Ler os escritores americanos é ler-nos a nós próprios, quer outros percebem isto ou não.

    Ele inclui escritores idos para a América das mais longínquas ou até há poucos anos improváveis geografias humanas. Os que não conhecíamos ou nunca temos lido. Eu tinha lido alguns deles com muita atenção pela afinidade imediata da primeira à última página. Não admira porque ele é formado a nível superior exatamente sobre a literatura dos que escreveram e publicaram com sucesso na sua terra nova. Levou-nos muito tempo, quando esquecemos, tanto na América como em Portugal, os mestres como, por exemplo, só ao acaso, Alfred Lewis. Há outra questão que devo acentuar: nem um escritor luso-americano para essas suas escolhas. No entanto, muito valorizados entre nós. A sua questão são os que lhe ajudaram a ser americano ou parte integral daquela sociedade, tal como muitos de nós. Estou em acordo absoluto com ele: esses sempre foram e são parte da nossa tradição na América em comunhão direta ou indireta com os nossos imigrantes e lusodescendentes. Os restantes autores de um cânone ou de outros mais recentes, companheiros de viagem é que nos são, neste contexto, muito especiais. Escrever, repito, sobre eles é escrever sobre nós. Aliás, o autor vai sempre interligando aos seus comentários sobre os escritores mais recentes à sua própria experiência de imigrante açoriano por dentro e fora das nossas comunidades.

    Os Livros Que Me fizeram Americano: 250 vozes para os 250 anos de América falam de uma América que nos recebeu do mesmo modo desde o seu início como nação independente, sem nunca ignorar o que Diniz Borges um dia escreveu sobre “festas e feridas”. Cada nacionalidade ou etnia teve os seus escritores supremos, e o melhor deles estão aqui nomeados e comentados em breve palavras. A formação superior de Diniz Borges levou-o a um livro que nunca tinha sido escrito entre nós. Quem ele menciona ou não é para uma descoberta de cada leitor. Eu que sempre me dediquei à literatura americana voltei a descobrir o que nunca tinha descoberto quanto à maioria dos escritores que levaram consigo outras tradições e linguagens para a terra nova. Só posso dizer que nem toda esta literatura, para além dos clássicos americanos, foi uma “notícia” para mim, como diria Ezra Pound na sua poesia e alguma prosa de interpretação mais ou menos problemática. São mais ou menos os restante escritores da nossa época vindos do longe e fazendo do seu país escolhido a casa do seu questionamento e perplexidade em prosas magistrais que requerem não só a leitura crítica e competente para nos podermos ver num outro espelho retorcido em que há uma luz esclarecida como nos tornamos um outro, e de seguida fazer desse território um espaço íntimo de que nos tornamos numa aceitação de que desconfiamos e depois confiamos. A literatura dos escritores menos conhecidos aqui na Europa justifica toda a bondade e justificação da busca sem fim.

    Este livro de Diniz Borges despertou-me toda a memória de como eu também procurava alguns dos nomes de identidade, que então se faziam notados a nível nacional nos Estados Unidos. Poucos deles estão traduzidos no nosso país, para perda nossa quando falamos de literatura americana. É certo que continua a haver por cá certos preconceitos até mesmo ante a escrita suprema de luso-americanos ou mesmo escritores da primeira geração, muitos deles formados nas melhores universidades daquele país. Os ignorantes é que perdem , não os criadores dalguma da melhor prosa do mundo atual em espasmos. Lembro-me de quando escrevi na revista LER sobre Toni Morrison quando ela venceu o Prémio Nobel. Tive uma resposta insinuada de um grande intelectual português. Era porque ela era uma americana de descendência africana, portanto era um prémio “politicamente correto”. Calei-me, claro está. O francesismo já tinha desaparecido entre nós, e ainda tentavam a habituar-se aos novos ventos literários que agora vinham de um país um tanto distante em tudo. O não saber, ou o pretender não saber, suponho, traz também um certo conforto.

    Diniz Borges com este seu livro nada tem a ver com isso. Só mostra a grandeza como uma nação se foi e vai construindo com as suas melhores e piores vozes.

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Diniz Borges, Os Livros Que Me Fizeram Americano: 250 vozes para os 250 anos da América, Bruma Publications e Moonwater Editions, Amazon, 2026.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental de 23 de outubro de 2026


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O renascimento da revista Insulana em Ponta Delgada

 


Finalmente, é uma feliz coincidência o facto de este ressurgimento da Insulana ocorrer no ano em que celebramos o meio século de Autonomia da Região e também no ano em que Ponta Delgada é a Capital Portuguesa da Cultura.

“Continuando e renovando”, A Comissão Editorial da Insulana


    Creio que a primeira coisa a afirmar aqui é que a Insulana faz parte de uma grande tradição açoriana quanto a revistas institucionais, essas que se caracterizam por erudição e ciência diversa entre o academismo e o saber de escritores e intelectuais independentes. Não está escrito no número desta nova edição, mas a intenção é manter uma escrita sólida não necessariamente “académica” se bem que muitos dos seus colaboradores estão colocados em várias instituições de ensino e investigação superiores e os que se distinguem por estudos-outros também nas mais variadas áreas do saber histórico, sociológico, científico e literário. Não publica ficção e poesia ou outros géneros da escrita criativa, mas dá espaço generoso aos textos sobre essas obras que circulam em grandes e qualitativos números nos Açores. Repito o que já vem escrito no texto que eu cito como epígrafe. A Insulana, que outrora foi publicada durante três quartos do século passado, junta-se de novo a outras revistas também já com uma grande tradição entre nós: Atlântida do Instituto Açoriano de Cultura e o Boletim do Instituto Histórico, as duas de Angra do Heroísmo, assim como ao nada menos significativo Boletim do Núcleo Cultural da Horta. A Insulana vem dividida em secções de Ensaios, Documentos e Leituras. Só mais uma observação essencial neste relançamento da revista micaelense: O instituto Cultural de Ponta Delgada tem sido dirigido por Henrique de Aguiar Oliveira Rodrigues, que assina nas presentes página um breve texto de agradecimento aos sócios que constituem a Comissão Editorial, e a Ponta Delgada Capital Portuguesa da Cultura 2026 em conjunto com a Brown University através da Cátedra Royce Famly Professorship in Teaching Excellence que foi instituida em nome de Onésimo Teotónio Almeida quando ele se aposentou daquela universidade como Professor Catedrático, e agora entre nós é um dos dinamizadores do reaparecimento da Insulana.

    A lista de colaboradores é extensa de mais para que os nomeie a todos, e ainda mais cada título dos seus trabalhos. A Insulana pretende voltar a ser uma revista açoriana em forma de livro, mas com São Miguel e Santa Maria em lugar destacado nas suas páginas deixando ainda o seu espaço a outros temas relevantes e relacionados com todo o arquipélago. O leitor será surpreendido com muitas da suas páginas, que nem esquecem de comentar uma outra produção literária da nossa diáspora norte-americana. A saber, só como exemplos do muito mais nestas páginas: Onésimo Teotónio Almeida com Os Açores e o Domínio Filipino (1580.90) de Avelino de Meneses e a reedição de um clássico da historiografia portuguesa”, Carlos Sousa e Urbano Bettencourt com “A saudade ‘do Corvo’”, Vasco Medeiros Rosa com com o surpreendente “Arrifes ‘bairro cubista’ – e ‘uma das aldeias mais portuguesas de Portugal’”, Miguel Lopes com o luso-canadiano “Michael Gouveia, O Herdeiro”.

foto de Aníbal C. Pires
    Os jornais generalistas têm a sua função desde sempre definida, só que os atuais condicionalismos financeiros e económicos têm de limitar a extensão cada vez mais reduzida de cada notícia ou artigo nalgumas das dessas publicações diárias, que estão a tentar a resistir ao que se tornou evidente com a concorrência de outros meios de comunicação, particularmente o digital entre as novas gerações. Os sinais destas circunstâncias são mistos: por um lado a publicação de livros entre nós não tem par, proporcionalmente falando, no nosso país, por outro a atenção sustentada pelas novas gerações aos temas mais prementes sobre a nossa longa história e tradição literária é uma questão por enquanto questionável. O certo é que a Insulana renasce num contexto literário que mantém clubes de leitura, uma universidade que nunca deixou da transmitir aos seus alunos a essencialidade da leitura em qualquer dos seus géneros mais tradicionais, da reflexão fundamentada através dos livros e de outros meios cujos conteúdos vão além da informação tantas vezes reinventada ou deformada. Bem sei que revistas como a Insulana são dirigidas a uma minoria para quem o seu lugar no mundo pode partir de uma grande geografia ou de uma cultura de pequenas terras dispersas rodeadas de mar por os lados, como é nosso caso nos Açores e noutros arquipélagos. Só que consciência da “pequenez” não evita, nunca evitou a formação de identidades que se conjugam necessariamente com todos os outros no mundo. Nos nossos dias essas identidades são fluidas para todos mas asseguram, uma vez mais, a comunhão profana e humanista entre todos. Um povo, como um colega meu escreveu há pouco na Califórnia numa apreciação da nossa vivência já multi-secular em vários países e geografias mais ou menos distantes e entre línguas e linguagens que começam por serem estranhas, é feita de festas e feridas. Só os textos bem elaborados, por assim dizer, e documentação investigada é que definem quem sempre fomos e somos. É assim que vejo toda a escrita séria: o arquivo indispensável mesmo aos que nunca leram uma das suas folhas, mas cuja osmose de ideias acaba sempre por dignificar todos nós, sem mais distinções de classe económico-financeira ou nível de formação académica.

    Publicar uma revista como a Insulana – ou todas as outras exemplificadas na sua reabertura aqui em Ponta Delgada – têm, nada mais nem nada menos, esse papel fulcral de dizer pelo menos ao restante país ou nação que existimos com a memória viva, que sabemos das nossas antigas origens e para onde queremos caminhar hoje e no futuro das gerações vindouras. Não se trata de um ato de manifesta arrogância intelectual, mas sim um ato de consciência e generosidade. Tudo isto inclui surpresas, para mim esses textos inesperados que nos forçam a outro olhar, a presença de outros entre nós, a novidade que nos enriquece de modo especial, como em certos textos ou documentos resgatados ou escritos nestas ricas páginas.

    Publicar uma revista como esta com mais de duzentas páginas em papel nos dias que correm é um privilégio e uma também inesperada dádiva aos seus leitores. Os nomes que formam a Comissão Editorial são Avelino de Freitas de Meneses, José Luís Brandão da Luz, Maria do Céu Fraga, Maria Leonor Pavão, Onésimo Teotónio Almeida, Rosa Goulart e Urbano Bettencourt. Eis aqui alguns dos nomes que fizeram carreira na Universidade Açores num outro grande contributo que agora se estende à comunidade da forma literária e científica mais digna, e como que num gesto de engrandecimento para os que apreciam um projeto como este. Estão todos – estamos – de parabéns. Devemos sobretudo um agradecimento especial ao Instituto Cultural de Ponta Delgada e aos já mencionados patrocinadores um agradecimento – o claro ojetivo é de um projeto para continuar. A Insulana será semestral, e o volume seguinte já está anunciado para o Outono. Que assim seja.

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Insulana: Volume LXXIII, Número I, Instituto Cultural de Ponta Delgada, impressa pela Nova Gráfica, Ponta Delgada, 2026.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental, de 7 de agosto de 2026


sexta-feira, 31 de julho de 2026

Alguma da poesia portuguesa numa escolha original


…desde a sua fundação por Snu Abecassis em 1965, a Editora tem permanentemente demonstrado um empenhamento sério na divulgação da poesia.

Manuel Alberto Valente, 60 anos de poesia: uma antologia


    É claro que se trata da editora D. Quixote, hoje parte do grande grupo Leya. Quanto a Manuel Alberto Valente, a sua distinta carreira como editor audaz vem desde a Asa, que publicou sempre alguns dos melhores escritores portugueses e estrangeiros em década recentes. Esta é uma seleção tão especial como original: escolhe o primeiro poema saído em livro na D. Quixote, indo desde Bocage a Salvador Santos, com notas bibliográficas pertinentes neste contexto e por ordem do nascimento de cada poeta. O que resulta é uma compilação de todo sedutora para qualquer leitor da nossa melhor poesia, como é evidente pelos nomes aqui presentes, alguns deles ainda no ativo neste e noutros géneros literários, que incluem ficção e até crítica literária, como no caso de Pedro Mexia e António Carlos Cortez entre outros. Pelo meio temos pelo menos três poetas de origem açoriana, todos eles começando e permanecendo quase toda a sua vida no continente: Antero de Quental, Natália Correia e João de Melo, este que continua numa pungente e diversa produção literária. 60 anos de poesia, e mesmo contendo um grande número de poetas, é um volume com menos de 100 páginas, esses que seguramos nas mãos e lemos com prazer em qualquer parte, a sequência torna-se um método secundário como é habitual a qualquer leitura do género. Uma antologia, para além dos seus critérios próprios, é sempre um ato de generosidade e respeito pela melhor literatura entre nós, facto de que ninguém duvide quando a colocamos entre todos os outros a nível mundial, contemporâneos ou não.

    Abro aqui um parêntese para mencionar algo que me parece justificar algumas das minhas palavras neste texto, assim como já o fiz noutros lugares e circunstâncias. Desde o século XVI que temos contribuindo para a reinvenção da grande literatura europeia sem nunca menosprezar todas as outras que conhecemos por vários modos e sensibilidade. Houve um período de tempo – segundo um texto de outro crítico – em que três dos grandes autores europeus estavam vivos e a publicar em determinada época diferentes géneros literários, dramaturgia, poesia e ficção. William Shakespeare, inspirado nalgumas peças e outras literaturas romanas, retratava nessa sua intemporal obra de palco a noção de teatro puro, a sede de poder, ciúmes entre os seus contendores e violências, numa modernidade que perdura até hoje, como o Rei Lear, esse mesmo que Álvaro Cunhal viria a traduzir já nos nossos dias; Camões no oriente e em Portugal saia quase às escondidas com Os Lusíadas, um deles, Shakespeare, classificado como autor que “inventava” o humano, e o outro, Camões, que previa a guerra das civilizações antes de ninguém. Foi afirmado por Harold Bloom no seu O Cânone Ocidental: Os Livros e a Escola do Tempo, que incluiu insistentemente três dos nossos escritores, precisamente Camões, Fernando Pessoa e José Saramago, essa volumosa antologia cuja leitura se tornou quase obrigatória para quem com ele quer refletir ou brigar. Em Espanha foi Cervantes que nos introduz, também segundo certos historiadores da literatura, e que nos afirmam ser o primeiro romance moderno, D. Quixote, essa fábula satírica à cavalaria do seu país, então quase sempre em guerras. a luta pela luta, a conquista pela riqueza e glória que nunca deveriam ter fim.

    Já no século passado outra coincidência literária vinda da preferia europeia e norte-americana. James Joyce abandonava a Irlanda e passeava-se num doce exílio na Suíça enquanto, suponho, escrevia Ulisses, de imediato proibido de entrar nos Estados Unidos nos primeiros tempos da sua publicação pela mítica livraria parisiense Shakespeare & Company nos anos 20, o romance que mais ninguém quis editar, só que levava a modernidade literária muito mais longe, inimitável, e ainda hoje lida quando não mesmo fonte de referência tanto em linguagens, estilos como, uma vez mais, em temáticas especialmente a partir dos anos 60 do século passado. Em Lisboa andava diariamente Fernando Pessoa entre dois cafés enquanto escrevia poemas em guardanapos ou qualquer papelinho à mão, sem um único livro publicado em vida para além de Mensagem. É desde alguns anos a esta parte um dos poetas portugueses mais elogiados no mundo, particularmente e ironicamente aquando da tradução da prosa algo dispersa e disruptiva do Livro do Desassossego. O modernista sem tréguas da Orpheu fazia sair a inesperada revista que provocou grande escândalo público e ruidoso, mais ou menos psiquiátrico, em Lisboa. Ao mesmo tempo, William Faulkner andava também meio transtornado pelo bourbon na sua pequena cidade de Oxford, Mississippi – ignorado pela sua estranheza, anos depois vencedor do Prémio Nobel. Deu a saber aos nova iorquinos e a outros arrogantes das redondezas que a sua “América” era mais e muito diferente do resto da nação, caída na guerra civil e ainda a lamber as feridas que nunca sararam. Eram todos, repita-se aqui, “periféricos”. São todos eles, séculos ou décadas depois, os grandes mestres da perpétua reinvenção na arte literária dita universalista, os que levavam a vida de cidade em cidade e ainda mais em recônditos que nunca motivaram qualquer busca de fama ou louvores em qualquer forma. A suposição é minha, mas fica em aberto para outros que pensam de outro modo ou juntam as peças noutros quadros de inteligentes malabarismos verbais ou por escrito.

    60 anos de poesia: uma antologia é daqueles livros que nos surpreendem não só pelos critérios do seu organizador, como nos vem lembrar do trabalho múltiplo de uma grande e corajosa editora em defesa da grande literatura. Os nomes dos seus cinquenta poetas estão aqui à vista, todos com o artífice da nossa melhor poesia modernista. Está aqui também Manuel Alegre com o poema “Fado”: Com que voz nos dirias com que voz/de lira já cansada e enrouquecida?/A gente cega e surda somos nós/o tempo se mudou mas não a vida.

    Nenhuma destas vozes se calaram, e nunca mais ficarão no silêncio de um tempo que valoriza a ignorância como saber, e o saber como atrevimento. Outras continuam a fazer-se ouvir aqui e ali nas mais diversas publicações do nosso país, outras delas atravessaram fronteiras para serem lidas noutras línguas.

    Não será só a forma artística destes poemas que continua a comover uma minoria de leitores ou apreciadores da grande arte em geral. É toda uma identidade na sua definição sempre ambígua ou fluida. Quer queiram ou não, são essas noções de quem fomos e quem somos, são os símbolos e as metáforas que definam toda a sensibilidade de uma cultura a um tempo marcado pela geografia e história, e pela sua inevitável inserção na condição humana vivida e cantada por todos os outros.

60 anos de poesia: uma antologia (organização e notas de Manuel Alberto Valente), D. Quixote/LeYa, Lisboa, 2026.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental de 31 de julho de 2026.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

A vida no Pópulo II

                                                                                

foto de Aníbal C. Pires

Só o posso explicar dizendo que sinto uma ligação a este lugar.

Henrik Brandão Jonsson, Saudade


    Daqui a poucos dias faz 35 anos que arribei a São Miguel por uma questão pessoal e profissional e por querer viver uma vida de adulto nas minhas ilhas de nascimento. Nenhuma diferença ou muito menos trauma ou o facto de eu ter nascido na Ilha Terceira e lá vivido 13 anos me causavam qualquer “choque” cultural porque simplesmente os Açores são para mim um todo, com a riqueza de sotaques, linguagens e até maneirismos, e apesar de alguns em todas as ilhas torcerem o nariz ao vizinho rodeado pela mesma água e sorte histórica circunstancial desde os idos do povoamento. Têm sido 35 anos de alegria e das tristezas humanas a que todos estamos inevitavelmente sujeitos. Só tinha estado em São Miguel duas vezes: a primeira a caminho da América como criança junto da minha família. Só muitos anos mais tarde visitava, já formado e professor na Cerritos High School, no sul da Califórnia e no medonho condado de Los Angeles, e residência em Orange County no outro lado dessa imaginária “fronteira” quase ao lado da Disneylândia que no verão me avisava da meia-noite com o seu alegre fogo artificial em cada encerramento noturno.

    Fui eventualmente convidado para participar com uma comunicação num dos agora históricos encontros literários da Maia que tinham lugar no solar de Lalém, e com organização de Daniel de Sá, Afonso Quental e Urbano Bettencourt. Foi precisamente aí que todo o meu destino mudaria – sala de conferências que também virava sala de festa e baile para outros em certas noites, e um bar ao lado para castigo cerebral dos que gostavam de copos e conversa fiada, e de quando em quando mais ou menos literária. Quando ainda me perguntam como foi a minha adaptação a esta ilha respondo com poucas palavras. Um pouco depois dessas memoráveis convivências eu aventurei-me à grande mudança geográfica e, sim, culturalmente em tudo o resto, pois passei a viver os Açores quotidianamente. Dar aulas como Leitor de Língua Inglesa na nossa universidade e olhar o mar a maior do tempo a partir da minha sala de trabalho rodeado também de livros e de angústia do que deveria ler e escrever a cada semana. Como que a dizer, estava a viver o sonho da minha vida – como ainda hoje, se bem mais cansado do que continuo a designar por “trabalho” para espanto dos que raramente ou nunca leem um livro, e, bom, para espanto de mim próprio e agora medo da quantidade desse papel desorganizado em três salas, que já me cansa e faz-me triste por, em vez disso, não andar de bicicleta como gente normal. Tenho saudades da Califórnia, da minha família que está toda lá, de visitar o jardim central da minha faculdade em Fullerton, dos cafés onde passava horas a ler ou a escrever ao balcão em modo de voo devido à quantidade de café, sem falar nas entradas noturnas no clube e bar de dança que me diziam ser dos Rightous Brothers, e que apareciam de surpresa só esporadicamente no palco a cantar e a alimentar certos estados de alma solitária vindos com as diversas espécies que então o wisky nos provocava. Nunca tive o privilégio de os ouvir ao vivo. Não me apetece mais nada por esses lados, a não ser ainda mais conversa e cumplicidade literária com certos amigos e colegas desde aqueles anos até hoje.

foto de Aníbal C. Pires
    Esta minha vida no Pópulo torna-se uma espécie de esquizofrenia, a “batalha” entre o trabalho que devo por escolha própria ao Açoriano Oriental e a outras publicações universitárias na nossa diáspora na costa leste e no oeste norte-americano, a saber, à revista Gávea-Brown, da Brown University, e dirigida por Onésimo Teotónio Almeida, e à Filamentos do Portuguese Beyond Borders Institute, da Universidade Estadual da Califórnia, em Fresno, dirigido por Diniz Borges. Começando este mês vai reaparecer a Insulana, do Instituto Cultural de Ponta Delgada, com a qual também vou colaborar. A tentação o dia inteiro de descer às esplanadas do Pópulo com vista para a grande praia enquanto leio ou escrevo é-me um dos maiores entraves. Não que as conversas quase sempre avulsas substituam a companhia de um bom poema ou de personagens em grandes romances, que me chegam a casa todas as semanas enviadas por várias editoras ou colegas escritores. Só que, como diria George Steiner no seu livro A Ideia de Europa, é também aí que a cultura surge ou é pensada antes de ser executada em papel ou qualquer género das artes. Trata-se se um vicio também bipolarizado: lá vêm a cafeína ou a outra substância que prende e desprende ao mesmo tempo a consciência fazendo a prosa escorrer como na escrita dita “automática” praticada noutros tempos por alguns dos americanos da literatura dita beat. Não, não estou a escrever isto numa mesa pública, só em casa a beber a inócua água, esse deslavado líquido que os médicos mais receitam contra todos os outros. Só que a vida do pecado também vem de longe, e, como todos sabem, agora pelo menos nalgumas festas e a certas horas do dia torna-se outra coisa.

    

De resto, devo repetir aqui o texto que escrevi há uns anos sobre a minha vida à beira mar e do nada mais interessante do que parece à primeira vista. O Pópulo será talvez a localidade mais diversificada nas suas mesas, pelo menos em São Miguel. Professores, advogados, polícias, indivíduos sóbrios ao lado dos transtornados, digamos assim, das mais diferentes nacionalidades e etnias, particularmente nestes anos de turismo desenfreado, que tanto se senta nas mesas como atrapalha no trânsito, até mesmo no “nosso” parque de estacionamento, já para não falar nos elevadores do prédio a que chamo mais ou menos de casa no inverno, e “hotel” de maio a outubro. Eis de novo a minha alegria de aqui viver e a inerente ambiguidade: sempre um sorriso seguido com o ranger de dentes provocado pelas outras situações aqui descritas. Eu sei que para outros, tudo poderá ser ao contrário: que se aumente sempre o ambiente da multidão que são os nossos hóspedes, que os outros continuem com olhares quase cobertos pelas sobrancelhas chateadas. No fundo, e na minha outra verdade, os Açores todos tornaram-se muito mais interessantes e sofisticados nos seus conhecimentos outrora escondidos ou nunca pensados, a universalidade ao vivo em pequenas e belas terras a meio do Atlântico-passadeira que nos leva para os outros e nos trazem em grandes números e curiosidade. Quanto mais as flores, os nossos verdes, e azuis do mar são partilhados, mais paz e entendimento, suponho, no nosso mundo por perto e ao longe.

    Que os economistas e todos os outros que criam empregos e capital e ainda mais os que dele desfrutam não me interpretem negativamente quando eu digo a alguns amigos ou conversadores ocasionais que tenho sentidas saudades de São Miguel do ano em que cá me radiquei para sempre em 1991. Não chamem provinciano a quem se fez homem e viveu a ruralidade do Vale de São Joaquim no interior da Califórnia durante pouco mais de um ano, e logo depois a urbanidade da grande Los Angeles e arredores onde me formei e depois dei aulas durante 14 anos na escola secundária que mencionei neste texto. Precisamente por ter vivido essa outra geografia humana adorei desde logo ver ou conhecer sempre as mesmas caras aqui na ilha. Uma vez mais, conhecer pessoalmente os vizinhos pode ser um grande embaraço por razões da natureza humana. Erguer uma parede um pouco mais alta ao nosso lado, ou pior, sermos olhados só de lado é um desconforto a que nos habituamos, ou não. A vida no Pópulo, como creio ser em toda a parte, é feita destas contradições existenciais. Tento, quando desço ao reduto da minha alegria, nunca ignorar um sorriso sincero ou uma breve conversa, desvio-me dos mais convencidos no espaço que é deles ou delas, da sua própria identidade quando manifestam o desagrado que por vezes nos assalta.

A citação da minha epígrafe é do recente livro Saudade: Cartografia de um sentimento, de Henrik Brandão Jonsson, Penguin, Lisboa, 2026.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental de 24 de julho de 2026