sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Sobre a vida num Japão que acabara de ser destruído pelos Estados Unidos

                                 


Com o passar dos anos, tinha começado a duvidar que a alegria e a tristeza, o prazer e a dor fossem verdades profundas da condição humana.

Yasunari Kawabata, O Arco-Íris


    O Arco-Íris de Yasunari Kawabata estava na minha estante de relevo desde 2024, numa tradução de Francisco Agarez para a Leya. Prémio Nobel em 1968, suicidou-se em 1972, tal como um outro grande escritor japonês que ele tinha influenciado, entre muitos outros, Yukio Mishima que também se suicidaria em 1970 após escrever a suprema trilogia Runaway Horses, The Decay of the Angel e The Temple of Dawn. Não estranhem aqui os títulos em inglês, pois toda literatura asiática que tenho lido é traduzida para o inglês ou para a nossa língua, tal como o romance aqui em foco. Um dia perguntaram a um intelectual japonês quem era o maior “escritor de guerra” no seu país. A resposta foi mais do que surpreendente – William Faulkner, respondeu com alguma ironia, sem hesitações, numa revista americana de que já não me lembro. Ler agora e pela primeira vez Yasunari Kawabata percebo um pouco melhor o que então me deixou perplexo. Faulkner tinha escrito toda uma vasta obra sobre um Sul norte-americano caído no conflito de separatismo nacional, definitivo, violento, e tentava após o que considerava a grande tragédia recuperar através da arte literária tudo ou o possível – e muito especialmente a humanidade abalada do seu povo. Ler este romance japonês foi uma das minhas maiores surpresas literárias. Nem numa única frase se menciona o que foi um dos maiores crimes de guerra até hoje, a denotação aérea de duas bombas atómicas que incinerou duas grandes cidades e provocou as mortes instantâneas de milhares de seres humanos, deixando ainda atrás a morte contínua durante décadas. Não há neste supremo romance qualquer queixa artística, qualquer recriação do terror que um leitor minimamente informado sobre a História esperaria.

    As protagonistas de O Arco Íris são três irmãs do mesmo pai e de três mães diferentes. Nem uma única passagem, repita-se, menciona a guerra, nem as palavras “América” ou “americanos” são escritas uma única vez. Só a vida a tentar a normalidade possível, as memórias nestas páginas são de relacionamentos, de amores perdidos, a felicidade da cama ocasional e o quotidiano que mais parece o nosso do que a de um país derrotado e de vidas completamente desfeitas. Essa “normalidade” tanto lida com a felicidade e infelicidade de cada uma dessas irmãs, como com as memórias de erros feitos pelos pais ou por amantes presentes ou descartados. O arco-íris que lhes aparece numa só cena de abertura abre o significado de tudo que vem depois. O mais lindo da natureza, como o dos seres humanos em geral, é uma visão breve que se manifesta para logo desaparecer, um mundo lindo nas suas cores que dura muito pouco, seguido da luta pela vida ora de choro, ora de alegria, ora de desconfiança sem que nenhuma das personagens perca o dever de continuar a viver em qualquer situação do dia a dia. É sobretudo uma (re)afirmação da vida para lá de todo o terror nunca dito, para lá da tristeza e de todas as dúvidas que nos assolam constantemente. Estão aqui passos de uma sensualidade discreta, da necessidade de nunca se deixar de pensar num outro futuro, numa vida movida pela força de mulheres e homens que ninguém percebe mas sofre-a com toda a coragem de sobreviventes ante as vidas pessoais destroçadas mas nunca vencidas.

    


    H
á em
O Arco-Íris passos constantes pouco comuns, creio eu, na nossa própria literatura. Toda a paisagem bela que resta é descrita com frequência, desde os pormenores de uma flor e a sua cor e cheiro, de uma árvore que embeleza as margens de um lago, de um templo com toda a sua história e ritos ancestrais. Uma vez mais, a afirmação do belo em contraponto ao desastre inimaginável sofrido pelo país já em plena reconstrução e redenção. As cenas de amor ou a vontade instinta dele são de uma sensualidade contida, como já disse, em momentos de prazer e afirmação de todos os desejos do corpo humano, como se tornam em recriminações de infelicidades ou de oportunismo sexual momentâneo de parte a parte. Uma das cenas mais inesquecíveis deste romance é quando um kamikaze das forças especiais da Força Área Japonesa se despede da sua amante. O rito habitual era muito simples: bebiam um copo de água antes do adeus para sempre, e mais nada. Só que neste caso o aviador que vai obrigado ao encontro da morte certa pede a Kamakoto que o deixe tirar em gesso a forma de um dos seus seios para levar consigo e beber dele uma água antes de se atirar ao seu inimigo a meio do Pacífico. Sem queixa nem remorso, só levar consigo no último momento uma lembrança da vida, do amor, da humanidade que tinha vivido. É a única menção, em analepse, a que o autor se permite neste seu romance.

    O inimigo, que sabemos muito bem quem é, não tem lugar nestas páginas. O Arco-Íris é um romance que trata só dos anos seguintes e dos seus traumatismos, o sentido de culpas tem só a ver com as amarguras de uma existência dentro de casa e nas suas andanças em busca de amores, as culpas de uma família em desencontros debaixo do mesmo teto e de viagens de prazer ao descobrimento de um passado nebuloso para pais e filhos. O pai dessas três filhas é um arquiteto – perante a destruição que adivinhamos ou já vimos em documentários lembra só o que resta nas cidades e aldeias que ficaram de pé e na beleza do seu passado. Se não nomeio aqui personagens ou geografias pertinentes no romance é porque recordá-las ou escrevê-las é para um leitor ocidental um esforço que trava a narrativa sem qualquer necessidade.


Momoko – a filha a primogénita da família aqui representada, após fazer amor com Keita, o kamikaze a caminho de seguir para o seu destino – sentiu um arrepio. Tentou saltar do sofá, mas as pernas não lhe obedeceram. Empalideceu como se tivesse sido percorrida por um súbito calafrio; mas quase sem dar por isso deu consigo a apertar a cabeça dele nos seus braços. Com isso, a sensação estranha que a tinha invadido abrandou.

    Keita olhou para ela, com os olhos húmidos. “Momoko, deixas-me tirar um molde do teu seio?”

    Para Francisco Agarez: obrigado pelas suas traduções. Li toda a obra de Philip Roth no original, e algumas delas repeti nas suas versões portuguesas. Bem sei que certos puristas linguísticos e outros críticos – foi o caso de Edmundo Wilson nos Estados Unidos, que queria muito ler Os Maias de Eça de Queirós mas nunca em inglês – não queriam saber de traduções. Perda deles. Como conheceríamos as grandes literaturas do mundo se não fossem as traduções? O que sei com certeza é que um romance como O Arco-Íris é da autoria de Yasunari Kawabata e da tradução para o inglês de Haydn Trowell, e agora da sua tradução para o Português. Só me resta ter esta certeza. O original será para mim o que é, ou o que para mim nunca foi. Na nossa língua não deixa nem deixará de ser a grande ficção de um autor japonês. Reinventado de certo modo e necessariamente? Talvez. Mas a sua grandeza permanece. Sei que a ética da tradução simplesmente faz uma única pergunta: como se diz isto na minha língua? Há que dizê-la com correção e elegância linguística. Só isso.

    Yasunari Kawabata tem ainda outros romances traduzidos na D. Quixote/LeYa, incluindo A Casa Das Belas Adormecidas.

____

Yasunari Kawabata, O Arco-Iris, (tradução de Francisco Agarez), D. Quixote/Leya, Lisboa, 2024.


No BorderCrossings do Açoriano Oriental, 13 de fevereiro de 2026.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Quando a prosa e a poesia se encontram

                                           

Procuro a geografia do meu coração, e o tempo é o único aliado que tenho.

Paula de Sousa Lima, Do Corpo e da Alma


    Se há uma escritora portuguesa cuja consistência se tornou numa vasta obra e num outro cânone autoral de todo e necessariamente pessoalizado, essa autora é Paula de Sousa Lima. Frequentemente na sua escrita reclama todo o seu país como referencial, mantendo quase sempre a vida açoriana no seu centro. Lionel Trilling, um dos grandes mestres da literatura judia-americana a partir dos anos 30 do século passado, se assim me é permitido classificar uma escrita que tinha como tema dominante a reclamação do chamado Novo Mundo a oeste sob outros olhares e passado ancestral numa Europa até então violenta, pedia, para além da arte na literatura de qualquer espécie, autenticidade. Nenhum autor pode e nunca deve fugir à sua própria vida interior e história pessoal, de andanças geográficas ou não, um narrador disfarçado de outro ou assumindo a sua própria pessoa torna a arte literária numa peça original e, nas melhores páginas, indeléveis para o seu tempo e para o devir de outras gerações. De resto, o primeiro modernismo radical na literatura ocidental já não deixava de combinar os géneros até então arrumados em prateleiras artísticas supostamente distintas. A poetização da grande literatura moderna nasce aí; nem sequer o ensaio, quando relevante para uma estória contada num romance de fôlego tinha de ficar ausente. O que chamamos de “conto” é do mesmo modo uma mistura de tudo isto, cada narrador nasce, só pode nascer, do interior ou do íntimo do seu autor ou autora. Literatura sem essa autenticidade, sem a plausibilidade de qualquer ficção que tenha a possibilidade de acontecer ou já ter sido vivida perde toda o seu encanto, perde a estética ou beleza de cada palavra. É este o paradoxo: a verdade tem de estar implícita na mentira da ficção. Foi com Lionel Trilling e outros que constituíram o grupo de novos escritores americanos que renovaram em parte toda uma literatura no país em que eu aprendi a ser português ao longe e ao mesmo tempo americano em casa na terra onde nasci.

    

    Do Corpo e da Alma é um conjunto de contos que nos aparece numa bela edição bilingue, com traduções impecáveis de Avelina da Silveira, agora também editora nos Açores. O próprio título de Paula de Sousa Lima transmite a sua própria temática. Li e apresentei publicamente desde há anos a maior parte da sua obra ficcional. Sei como a autora tanto se desdobra nas mais variadas narradoras como raramente se desliga de si própria, confirmando o que um dia afirmou José Saramago: em cada narrador está o autor – se não nos factos e eventos que descreve ou reinventa, definitivamente permanece fiel aos seus sentimentos e interpretações de qualquer personagem por mais distante que nos pareça. Em cada um destes contos destaca-se o existencialismo quotidiano de quem fala em direto ao seu leitor. A solidão dos dias, o amor sentido e por vezes não retribuído com o mesmo ardor ou sequer sinceridade, a saudade de um amigo ou amiga que partilha um chá nos momentos de confissão, calma ou de memória dos ausentes, o permanecer viva e atuante ante as circunstâncias de cada momento de uma vida inteira. A sua linguagem é tão linear como precisa – nem uma frase fora do contexto e definidora do estado de espírito em momentos de cada dia ou experiência vivida ou reinventada pela memória, que poderá confirmar essas verdades de que já falei, ou então inevitavelmente acrescenta parte da narração sempre em curso de conto em conto numa sequência que depende de uma leitura atenta e interessada nessa autenticidade interior. Sim, também pela geografia que vamos apreendendo – a narradora como as personagens que ela reinventa ou imagina tornam-se parte de nós. São ilhas numa ilha nunca nomeada porque nunca ninguém deixa de sofrer a apartamento em qualquer geografia rodeada de mar ou só de terra, a frieza sentida ou o calor que outros ao nosso lado nos trazem.

    

    Assim, num dia muito distante – escreve a narradora em ‘Nas margens da ilha’ – daquele em que havia partido, levando consigo a claridade que ela sempre lhe reconhecera, ele voltou. Ela desatou o cabelo cinzento, deixou-o escorrer-lhe sobre os ombros, não teve pudor do corpo já tomado pela inclemência do tempo, sorriu, tomou a mão dele, conduziu-o ao leito. Os sentidos renasceram, inteiros, como sempre a cada regresso dele. Ele havia de se quedar sem demora que ela já não exigia, havia de partir, havia de voltar, e ela esperaria, sabendo agora que ele vivia, como sempre vivera, nas margens do amor, tal ela vivia, assim sempre vivera, nas margens da ilha; ela esperaria tomada de enlevo pelo mar, a quem nada se exige, cuja presença se aceita tal uma dádiva”.

    Eis a simbologia marcante de como a geografia, ao contrário do que alguns pensam, se incute inevitavelmente em estados de alma de cada ser humano, a sua rudeza ou beleza parte da força ou paralisação dos nossos movimentos e pensamentos, euforia ou isolamento silencioso, alegre ou magoado. Um conto distingue-se deste modo: o momento reduzido a um pequeno espaço literário que consegue no leitor a criação redonda e inteira de uma personagem, fazendo com que se torne completo um ser reinventado por um momento que viva e sinta como se toda a sua vida fosse descrita ou imaginada. A contenção da linguagem torna-se como que num quadro pintado por um grande mestre, toda a história da humanidade representada por um só acontecimento decisivo, por uma visão de um clarão que ilumina toda a estória ou História, como escreveria Walter Benjamin. Estamos todos, por assim dizer, e relembrando essas palavras de Benjamin, nas fronteiras da terra ou da mente entre a vida e a morte, tudo o que resta em renascimento ou num estado de apagamento total. Não pretendo aqui, como nunca o pretendo, comparações autorais ou de géneros literários. Só pretendo dizer que a literatura do mundo é mais um encontro do que uma diferenciação do coração humano, mesmo que vivamos os mais radicais modos de vida em qualquer parte do mundo, ou do nosso próprio interior.

    Do Corpo e da Alma de Paula de Sousa Lima é, creio, a continuação de velhos temas seus em toda a sua obra, desde a ficção de Crónica dos Senhores do Lenho à poesia de Quando Eu Mover a Sombra das Montanhas. Não é fácil dominar as formas da variedade da sua obra, que inclui muito mais. A sua persistência ao longo de décadas não é assim tão comum entre muitos dos nossos escritores, o que não implica de modo algum que não sejam autores da arte linguística que nos tem oferecido uma distinta literatura portuguesa, ou mesmo de língua portuguesa nas mais diversas geografias. Tentam alguns deles agora, com a mesma dedicação, chegar a essas novas gerações da nossa diáspora luso-americana através de traduções, e isso com o apoio de centros de estudos lusos em várias universidades.

    Saberemos em pouco tempo do sucesso destes projetos literários. Seja como for, estas traduções de Avelina da Silveira são mais um contributo a essa tentativa de alargar a portugalidade através da literatura, que naturalmente vai além dos ritos comunitários tradicionais que nunca chegarão para definir a modernidade de um povo espalhado pelo mundo e já maioritariamente integrado nas sociedades que escolheram para si.

____

Paula de Sousa Lima, Do Corpo e da Alma/Body and Soul (traduções de Avelina da Silveira), MoonWater, Wroclaw, 2025.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental, 6 de janeiro de 2026


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Quando um livro inesperado nos aparece

                      


    O mundo de cada um é por vezes demasiado grande para caber dentro de uma só pessoa.

João Gago da Câmara, O Chamamento.


    A minha epígrafe para este texto é da autoria do próprio autor de um primeiro romance, O Chamamento de João Gago da Câmara. A descoberta da nossa literatura, neste caso açoriana, tem-me chegado desde sempre de quando em quando ao longo de décadas e nos mais improváveis contextos. Conheço o autor há muitos anos, desde que regressei definitivamente aos Açores em 1991, mas conheço-o como jornalista e cronista em jornais e noutros meios de comunicação, sem nunca prever esta sua incursão ficcional numa narrativa de grande fôlego, mais de trezentas e sessenta e tal páginas de prosa aliciante sobre a nossa emigração para os Estados Unidos no princípio do século passado, e em circunstâncias que para nós são demasiado conhecidas e seguidas de um destino pouco comum para o tempo e certas geografias desconhecidas mas sonhadas. Não se trata aqui de um romance que repete os estereótipos do costume sobre a nossa imigração entre outros escritores nossos. O Chamamento está algures entre o trabalho de investigação aturada nas ilhas e na América do Norte e o jornalista e escritor que trabalha a palavra com a maior criatividade e sabedoria da realidade dos açorianos que enfrentaram na sua aventura de salvação e desespero na busca do outro futuro e, sim, a rejeição da vida secular sem promessa nem perspetiva de bater o afogamento de serrados e vacas que pouco mais de mera sobrevivência ofereciam à maioria do seu povo, por mais que iludissem os que nunca foram descendentes de capitães generais e capitães donatários, alguns dos quais provavelmente nem conheceriam a geografia atlântica e as ilhas de que eram “donos”. A boa escrita é sempre um ato de redenção, uma acusação antes de ser a saudade dos seus filhos e filhas.

    

    Não vou entrar nos pormenores sobre as muitas personagens que pululam, vivem e simbolizam o destino açoriano desde sempre, e que permanece até aos nossos dias. Nascer nos Açores é um paradoxo, como suspeito ser de outros em muitas outras terras: amar as origens e querer logo depois fugir delas. Um novo mundo é sempre uma outra vida imaginada ou, uma vez mais, sonhada, faz parte, suponho, da condição universal, a noção de uma qualquer “utopia” parece provocar o impulso de cada ser humano. A nossa, a dos açorianos, foi sempre as Américas, desde o norte ao extremo sul daquele vasto continente, desde o frio do Canadá ao sul do Brasil e outros países vizinhos. É uma promessa que antes da escrita em várias formas já fora transmitida pela boca de torna-viagens de toda a parte, pelas fantasias que começam com uma história de descobertas muito antigas, com o instinto e sofrimento de terras do nosso lado quase sempre oprimidas e governadas por heteridade desde os tempos mais antigos. A maior parte dos açorianos nunca se conformaram com o seu destino fechado a meio mar e sempre numa terra tremida, num ajuste económico e social entre uns poucos escolhidos e uma maioria oprimida ou sem meios de vida razoáveis. Até hoje, quando boa parte dos nossos jovens continuam a sonhar e a querer partir – e partem sem sossego ou crença em melhores dias.

    

    O Chamamento de João Gago da Câmara nasce de longas conversas com uma senhora de Angra do Heroísmo que conta a história da sua família na freguesia do Raminho, na lha Terceira. Tem 88 anos de idade, e chama-se Clarinha Ferreira Cota. Conta em conversas e memória viva a João Gago da Câmara as longínquas andanças dos seus, nos Açores e nos Estados Unidos, quando ainda cavalgavam por lá os seus donos nativos – os “índios” – em defesa de si próprios, mas já em diálogo sereno negociavam de vários modos amenos com todos que eram trabalhadores nos seus territórios e arredores, desde que não fossem militares federais. A originalidade do romance de João Gado da Câmara reside nesse pressuposto ou realidade histórica já no início do século passado, em que a nossa gente aumentava a fuga de resistência à falta de qualquer outra esperança para as suas vidas. O protagonista chama-se António Cota, o irmão de uma grande família que já tinha emigrado, e ele ainda desde tenra idade nos Açores reduzia-se a tomar conta da lavoura dos seus pais que tinham ficado, avistando o dia em que ficaria a trabalhar só, e só com a promessa de herdar uma pequena parte dos anos mais ou menos solitários do seu trabalho e suor. É uma história muito nossa, muito comum. Um dia deixa a mulher que namorava e amava contra uma vida que apenas prometia mais trabalho e divisão de bens com os que haviam partido. A História, diria um dia alguém proeminente na luta por outro mundo, primeiro acontece como tragédia e depois repete-se como farsa. Só os corajosos quebram o ciclo da tradição. Com um irmão mais velho que havia escolhido a nossa geografia americana mais improvável nessa altura, creio, Wyoming (hoje no noticiário diário em todo o mundo pelas piores razões de violência injustificável) nas profundezas do interior na América das nossas ilusões, pastores prósperos de ovelhas, depressa se tornam o braço direito de António ido da Ilha Terceira secretamente.


    J
oão Gago da Câmara leva-nos ainda ao encontro do resto dos irmãos também
residentes e fazendo as suas vidas em geografias que raramente nos aparece na literatura referente à nossa imigração: Las Vegas, aonde reside parte da família e, como seria de esperar, na Califórnia. Cavalos, comboios, trabalho e festas em casa de um ou outro – até que os anos passam e inevitavelmente o futuro regressa. Boa parte dos açorianos acaba por visitar a terra outrora do seu sofrimento, para agora a festejar. Uns ficam permanentemente, outros regressam ao outro lado do mar. Numa história investigada e escrita entre a investigação jornalística e agora feita ficção, aqui está uma previsão dos nossos próprios dias. Já não são os “indios” a patrulhar as poucas terras que lhes restam ou restaram; é a saudade real e não mitificada que fica prevista nesta narrativa. São agora outros que provocam a vontade dos regressos – a insegurança da “terra prometida” tornada pesadelo para os mais conscientes. Cada imigrante regressado com quem falo atualmente mantém um silêncio visivelmente magoado. Outra parte deles, sentindo-se senhores de uma terra de que nunca foram, pelo menos num outro regime atual poucas vezes antecipado na sua história, continuam felizes. Só que do rebanho de ovelhas ou vacas que outrora cuidavam tornam-se alguns deles atualmente em “ovelhas obedientes”, sem palavra nem queixas. Nunca ninguém deixou esta terra açoriana sem lágrimas nem adeuses quase apocalípticos. Sei disso pessoalmente. Uma vez mais: a História primeiro acontece como tragédia, e depois como farsa. Nada dos nossos dias que correm ilustra esta verdade com tanta força e urgência. A terra da promessa parece tornar-se a terra do mais assustador gelo, real e metafórico.

    O Chamamento é uma dessas narrativas a que os americanos chamam o page-turner, num gesto de leitura quieta queremos virar cada página para saber o que vem a seguir. Isto é a melhor qualidade de um bom livro. Para alguns escritores entre nós torna-se mero jogo de palavras que nada significam para além de nos fazer consultar páginas de um qualquer dicionário à procura de sentidos que nos iludem – e nada significam para além do ego de quem os escreve apenas para si próprios ou para o amigo de ocasião.

___

João Gago da Câmara, O Chamamento (prefácio de Rita Ferro) Lisboa, cordel d’ prata, 2025.

Publicado no BorderCrossings do Açoriano Oriental, 30 de janeiro de 2026