Com o passar dos anos, tinha começado a duvidar que a alegria e a tristeza, o prazer e a dor fossem verdades profundas da condição humana.
Yasunari Kawabata, O Arco-Íris
O Arco-Íris de Yasunari Kawabata estava na minha estante de relevo desde 2024, numa tradução de Francisco Agarez para a Leya. Prémio Nobel em 1968, suicidou-se em 1972, tal como um outro grande escritor japonês que ele tinha influenciado, entre muitos outros, Yukio Mishima que também se suicidaria em 1970 após escrever a suprema trilogia Runaway Horses, The Decay of the Angel e The Temple of Dawn. Não estranhem aqui os títulos em inglês, pois toda literatura asiática que tenho lido é traduzida para o inglês ou para a nossa língua, tal como o romance aqui em foco. Um dia perguntaram a um intelectual japonês quem era o maior “escritor de guerra” no seu país. A resposta foi mais do que surpreendente – William Faulkner, respondeu com alguma ironia, sem hesitações, numa revista americana de que já não me lembro. Ler agora e pela primeira vez Yasunari Kawabata percebo um pouco melhor o que então me deixou perplexo. Faulkner tinha escrito toda uma vasta obra sobre um Sul norte-americano caído no conflito de separatismo nacional, definitivo, violento, e tentava após o que considerava a grande tragédia recuperar através da arte literária tudo ou o possível – e muito especialmente a humanidade abalada do seu povo. Ler este romance japonês foi uma das minhas maiores surpresas literárias. Nem numa única frase se menciona o que foi um dos maiores crimes de guerra até hoje, a denotação aérea de duas bombas atómicas que incinerou duas grandes cidades e provocou as mortes instantâneas de milhares de seres humanos, deixando ainda atrás a morte contínua durante décadas. Não há neste supremo romance qualquer queixa artística, qualquer recriação do terror que um leitor minimamente informado sobre a História esperaria.
As protagonistas de O Arco Íris são três irmãs do mesmo pai e de três mães diferentes. Nem uma única passagem, repita-se, menciona a guerra, nem as palavras “América” ou “americanos” são escritas uma única vez. Só a vida a tentar a normalidade possível, as memórias nestas páginas são de relacionamentos, de amores perdidos, a felicidade da cama ocasional e o quotidiano que mais parece o nosso do que a de um país derrotado e de vidas completamente desfeitas. Essa “normalidade” tanto lida com a felicidade e infelicidade de cada uma dessas irmãs, como com as memórias de erros feitos pelos pais ou por amantes presentes ou descartados. O arco-íris que lhes aparece numa só cena de abertura abre o significado de tudo que vem depois. O mais lindo da natureza, como o dos seres humanos em geral, é uma visão breve que se manifesta para logo desaparecer, um mundo lindo nas suas cores que dura muito pouco, seguido da luta pela vida ora de choro, ora de alegria, ora de desconfiança sem que nenhuma das personagens perca o dever de continuar a viver em qualquer situação do dia a dia. É sobretudo uma (re)afirmação da vida para lá de todo o terror nunca dito, para lá da tristeza e de todas as dúvidas que nos assolam constantemente. Estão aqui passos de uma sensualidade discreta, da necessidade de nunca se deixar de pensar num outro futuro, numa vida movida pela força de mulheres e homens que ninguém percebe mas sofre-a com toda a coragem de sobreviventes ante as vidas pessoais destroçadas mas nunca vencidas.
Há em O Arco-Íris passos constantes pouco comuns, creio eu, na nossa própria literatura. Toda a paisagem bela que resta é descrita com frequência, desde os pormenores de uma flor e a sua cor e cheiro, de uma árvore que embeleza as margens de um lago, de um templo com toda a sua história e ritos ancestrais. Uma vez mais, a afirmação do belo em contraponto ao desastre inimaginável sofrido pelo país já em plena reconstrução e redenção. As cenas de amor ou a vontade instinta dele são de uma sensualidade contida, como já disse, em momentos de prazer e afirmação de todos os desejos do corpo humano, como se tornam em recriminações de infelicidades ou de oportunismo sexual momentâneo de parte a parte. Uma das cenas mais inesquecíveis deste romance é quando um kamikaze das forças especiais da Força Área Japonesa se despede da sua amante. O rito habitual era muito simples: bebiam um copo de água antes do adeus para sempre, e mais nada. Só que neste caso o aviador que vai obrigado ao encontro da morte certa pede a Kamakoto que o deixe tirar em gesso a forma de um dos seus seios para levar consigo e beber dele uma água antes de se atirar ao seu inimigo a meio do Pacífico. Sem queixa nem remorso, só levar consigo no último momento uma lembrança da vida, do amor, da humanidade que tinha vivido. É a única menção, em analepse, a que o autor se permite neste seu romance.
O inimigo, que sabemos muito bem quem é, não tem lugar nestas páginas. O Arco-Íris é um romance que trata só dos anos seguintes e dos seus traumatismos, o sentido de culpas tem só a ver com as amarguras de uma existência dentro de casa e nas suas andanças em busca de amores, as culpas de uma família em desencontros debaixo do mesmo teto e de viagens de prazer ao descobrimento de um passado nebuloso para pais e filhos. O pai dessas três filhas é um arquiteto – perante a destruição que adivinhamos ou já vimos em documentários lembra só o que resta nas cidades e aldeias que ficaram de pé e na beleza do seu passado. Se não nomeio aqui personagens ou geografias pertinentes no romance é porque recordá-las ou escrevê-las é para um leitor ocidental um esforço que trava a narrativa sem qualquer necessidade.
“Momoko – a filha a primogénita da família aqui representada, após fazer amor com Keita, o kamikaze a caminho de seguir para o seu destino – sentiu um arrepio. Tentou saltar do sofá, mas as pernas não lhe obedeceram. Empalideceu como se tivesse sido percorrida por um súbito calafrio; mas quase sem dar por isso deu consigo a apertar a cabeça dele nos seus braços. Com isso, a sensação estranha que a tinha invadido abrandou.
Keita olhou para ela, com os olhos húmidos. “Momoko, deixas-me tirar um molde do teu seio?”
Para Francisco Agarez: obrigado pelas suas traduções. Li toda a obra de Philip Roth no original, e algumas delas repeti nas suas versões portuguesas. Bem sei que certos puristas linguísticos e outros críticos – foi o caso de Edmundo Wilson nos Estados Unidos, que queria muito ler Os Maias de Eça de Queirós mas nunca em inglês – não queriam saber de traduções. Perda deles. Como conheceríamos as grandes literaturas do mundo se não fossem as traduções? O que sei com certeza é que um romance como O Arco-Íris é da autoria de Yasunari Kawabata e da tradução para o inglês de Haydn Trowell, e agora da sua tradução para o Português. Só me resta ter esta certeza. O original será para mim o que é, ou o que para mim nunca foi. Na nossa língua não deixa nem deixará de ser a grande ficção de um autor japonês. Reinventado de certo modo e necessariamente? Talvez. Mas a sua grandeza permanece. Sei que a ética da tradução simplesmente faz uma única pergunta: como se diz isto na minha língua? Há que dizê-la com correção e elegância linguística. Só isso.
Yasunari Kawabata tem ainda outros romances traduzidos na D. Quixote/LeYa, incluindo A Casa Das Belas Adormecidas.
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Yasunari Kawabata, O Arco-Iris, (tradução de Francisco Agarez), D. Quixote/Leya, Lisboa, 2024.
No BorderCrossings do Açoriano Oriental, 13 de fevereiro de 2026.



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