Paula de Sousa Lima, Do Corpo e da Alma
Se há uma escritora portuguesa cuja consistência já se tornou numa vasta obra e num outro cânone autoral de todo e necessariamente pessoalizado, essa autora é Paula de Sousa Lima. Frequentemente na sua escrita reclama todo o seu país como referencial, mantendo quase sempre a vida açoriana no seu centro. Lionel Trilling, um dos grandes mestres da literatura judia-americana a partir dos anos 30 do século passado, se assim me é permitido classificar uma escrita que tinha como tema dominante a reclamação do chamado Novo Mundo a oeste sob outros olhares e passado ancestral numa Europa até então violenta, pedia, para além da arte na literatura de qualquer espécie, autenticidade. Nenhum autor pode e nunca deve fugir à sua própria vida interior e história pessoal, de andanças geográficas ou não, um narrador disfarçado de outro ou assumindo a sua própria pessoa torna a arte literária numa peça original e, nas melhores páginas, indeléveis para o seu tempo e para o devir de outras gerações. De resto, o primeiro modernismo radical na literatura ocidental já não deixava de combinar os géneros até então arrumados em prateleiras artísticas supostamente distintas. A poetização da grande literatura moderna nasce aí; nem sequer o ensaio, quando relevante para uma estória contada num romance de fôlego tinha de ficar ausente. O que chamamos de “conto” é do mesmo modo uma mistura de tudo isto, cada narrador nasce, só pode nascer, do interior ou do íntimo do seu autor ou autora. Literatura sem essa autenticidade, sem a plausibilidade de qualquer ficção que tenha a possibilidade de acontecer ou já ter sido vivida perde toda o seu encanto, perde a estética ou beleza de cada palavra. É este o paradoxo: a verdade tem de estar implícita na mentira da ficção. Foi com Lionel Trilling e outros que constituíram o grupo de novos escritores americanos que renovaram em parte toda uma literatura no país em que eu aprendi a ser português ao longe e ao mesmo tempo americano em casa na terra onde nasci.
Do Corpo e da Alma é um conjunto de contos que nos aparece numa bela edição bilingue, com traduções impecáveis de Avelina da Silveira, agora também editora nos Açores. O próprio título de Paula de Sousa Lima transmite a sua própria temática. Li e apresentei publicamente desde há anos a maior parte da sua obra ficcional. Sei como a autora tanto se desdobra nas mais variadas narradoras como raramente se desliga de si própria, confirmando o que um dia afirmou José Saramago: em cada narrador está o autor – se não nos factos e eventos que descreve ou reinventa, definitivamente permanece fiel aos seus sentimentos e interpretações de qualquer personagem por mais distante que nos pareça. Em cada um destes contos destaca-se o existencialismo quotidiano de quem fala em direto ao seu leitor. A solidão dos dias, o amor sentido e por vezes não retribuído com o mesmo ardor ou sequer sinceridade, a saudade de um amigo ou amiga que partilha um chá nos momentos de confissão, calma ou de memória dos ausentes, o permanecer viva e atuante ante as circunstâncias de cada momento de uma vida inteira. A sua linguagem é tão linear como precisa – nem uma frase fora do contexto e definidora do estado de espírito em momentos de cada dia ou experiência vivida ou reinventada pela memória, que poderá confirmar essas verdades de que já falei, ou então inevitavelmente acrescenta parte da narração sempre em curso de conto em conto numa sequência que depende de uma leitura atenta e interessada nessa autenticidade interior. Sim, também pela geografia que vamos apreendendo – a narradora como as personagens que ela reinventa ou imagina tornam-se parte de nós. São ilhas numa ilha nunca nomeada porque nunca ninguém deixa de sofrer a apartamento em qualquer geografia rodeada de mar ou só de terra, a frieza sentida ou o calor que outros ao nosso lado nos trazem.
“Assim, num dia muito distante – escreve a narradora em ‘Nas margens da ilha’ – daquele em que havia partido, levando consigo a claridade que ela sempre lhe reconhecera, ele voltou. Ela desatou o cabelo cinzento, deixou-o escorrer-lhe sobre os ombros, não teve pudor do corpo já tomado pela inclemência do tempo, sorriu, tomou a mão dele, conduziu-o ao leito. Os sentidos renasceram, inteiros, como sempre a cada regresso dele. Ele havia de se quedar sem demora que ela já não exigia, havia de partir, havia de voltar, e ela esperaria, sabendo agora que ele vivia, como sempre vivera, nas margens do amor, tal ela vivia, assim sempre vivera, nas margens da ilha; ela esperaria tomada de enlevo pelo mar, a quem nada se exige, cuja presença se aceita tal uma dádiva”.
Eis a simbologia marcante de como a geografia, ao contrário do que alguns pensam, se incute inevitavelmente em estados de alma de cada ser humano, a sua rudeza ou beleza parte da força ou paralisação dos nossos movimentos e pensamentos, euforia ou isolamento silencioso, alegre ou magoado. Um conto distingue-se deste modo: o momento reduzido a um pequeno espaço literário que consegue no leitor a criação redonda e inteira de uma personagem, fazendo com que se torne completo um ser reinventado por um momento que viva e sinta como se toda a sua vida fosse descrita ou imaginada. A contenção da linguagem torna-se como que num quadro pintado por um grande mestre, toda a história da humanidade representada por um só acontecimento decisivo, por uma visão de um clarão que ilumina toda a estória ou História, como escreveria Walter Benjamin. Estamos todos, por assim dizer, e relembrando essas palavras de Benjamin, nas fronteiras da terra ou da mente entre a vida e a morte, tudo o que resta em renascimento ou num estado de apagamento total. Não pretendo aqui, como nunca o pretendo, comparações autorais ou de géneros literários. Só pretendo dizer que a literatura do mundo é mais um encontro do que uma diferenciação do coração humano, mesmo que vivamos os mais radicais modos de vida em qualquer parte do mundo, ou do nosso próprio interior.
Do Corpo e da Alma de Paula de Sousa Lima é, creio, a continuação de velhos temas seus em toda a sua obra, desde a ficção de Crónica dos Senhores do Lenho à poesia de Quando Eu Mover a Sombra das Montanhas. Não é fácil dominar as formas da variedade da sua obra, que inclui muito mais. A sua persistência ao longo de décadas não é assim tão comum entre muitos dos nossos escritores, o que não implica de modo algum que não sejam autores da arte linguística que nos tem oferecido uma distinta literatura portuguesa, ou mesmo de língua portuguesa nas mais diversas geografias. Tentam alguns deles agora, com a mesma dedicação, chegar a essas novas gerações da nossa diáspora luso-americana através de traduções, e isso com o apoio de centros de estudos lusos em várias universidades.
Saberemos em pouco tempo do sucesso destes projetos literários. Seja como for, estas traduções de Avelina da Silveira são mais um contributo a essa tentativa de alargar a portugalidade através da literatura, que naturalmente vai além dos ritos comunitários tradicionais que nunca chegarão para definir a modernidade de um povo espalhado pelo mundo e já maioritariamente integrado nas sociedades que escolheram para si.
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Paula de Sousa Lima, Do Corpo e da Alma/Body and Soul (traduções de Avelina da Silveira), MoonWater, Wroclaw, 2025.
No BorderCrossings do Açoriano Oriental, 6 de janeiro de 2026



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