segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Quando um livro inesperado nos aparece

                      


    O mundo de cada um é por vezes demasiado grande para caber dentro de uma só pessoa.

João Gago da Câmara, O Chamamento.


    A minha epígrafe para este texto é da autoria do próprio autor de um primeiro romance, O Chamamento de João Gago da Câmara. A descoberta da nossa literatura, neste caso açoriana, tem-me chegado desde sempre de quando em quando ao longo de décadas e nos mais improváveis contextos. Conheço o autor há muitos anos, desde que regressei definitivamente aos Açores em 1991, mas conheço-o como jornalista e cronista em jornais e noutros meios de comunicação, sem nunca prever esta sua incursão ficcional numa narrativa de grande fôlego, mais de trezentas e sessenta e tal páginas de prosa aliciante sobre a nossa emigração para os Estados Unidos no princípio do século passado, e em circunstâncias que para nós são demasiado conhecidas e seguidas de um destino pouco comum para o tempo e certas geografias desconhecidas mas sonhadas. Não se trata aqui de um romance que repete os estereótipos do costume sobre a nossa imigração entre outros escritores nossos. O Chamamento está algures entre o trabalho de investigação aturada nas ilhas e na América do Norte e o jornalista e escritor que trabalha a palavra com a maior criatividade e sabedoria da realidade dos açorianos que enfrentaram na sua aventura de salvação e desespero na busca do outro futuro e, sim, a rejeição da vida secular sem promessa nem perspetiva de bater o afogamento de serrados e vacas que pouco mais de mera sobrevivência ofereciam à maioria do seu povo, por mais que iludissem os que nunca foram descendentes de capitães generais e capitães donatários, alguns dos quais provavelmente nem conheceriam a geografia atlântica e as ilhas de que eram “donos”. A boa escrita é sempre um ato de redenção, uma acusação antes de ser a saudade dos seus filhos e filhas.

    

    Não vou entrar nos pormenores sobre as muitas personagens que pululam, vivem e simbolizam o destino açoriano desde sempre, e que permanece até aos nossos dias. Nascer nos Açores é um paradoxo, como suspeito ser de outros em muitas outras terras: amar as origens e querer logo depois fugir delas. Um novo mundo é sempre uma outra vida imaginada ou, uma vez mais, sonhada, faz parte, suponho, da condição universal, a noção de uma qualquer “utopia” parece provocar o impulso de cada ser humano. A nossa, a dos açorianos, foi sempre as Américas, desde o norte ao extremo sul daquele vasto continente, desde o frio do Canadá ao sul do Brasil e outros países vizinhos. É uma promessa que antes da escrita em várias formas já fora transmitida pela boca de torna-viagens de toda a parte, pelas fantasias que começam com uma história de descobertas muito antigas, com o instinto e sofrimento de terras do nosso lado quase sempre oprimidas e governadas por heteridade desde os tempos mais antigos. A maior parte dos açorianos nunca se conformaram com o seu destino fechado a meio mar e sempre numa terra tremida, num ajuste económico e social entre uns poucos escolhidos e uma maioria oprimida ou sem meios de vida razoáveis. Até hoje, quando boa parte dos nossos jovens continuam a sonhar e a querer partir – e partem sem sossego ou crença em melhores dias.

    

    O Chamamento de João Gago da Câmara nasce de longas conversas com uma senhora de Angra do Heroísmo que conta a história da sua família na freguesia do Raminho, na lha Terceira. Tem 88 anos de idade, e chama-se Clarinha Ferreira Cota. Conta em conversas e memória viva a João Gago da Câmara as longínquas andanças dos seus, nos Açores e nos Estados Unidos, quando ainda cavalgavam por lá os seus donos nativos – os “índios” – em defesa de si próprios, mas já em diálogo sereno negociavam de vários modos amenos com todos que eram trabalhadores nos seus territórios e arredores, desde que não fossem militares federais. A originalidade do romance de João Gado da Câmara reside nesse pressuposto ou realidade histórica já no início do século passado, em que a nossa gente aumentava a fuga de resistência à falta de qualquer outra esperança para as suas vidas. O protagonista chama-se António Cota, o irmão de uma grande família que já tinha emigrado, e ele ainda desde tenra idade nos Açores reduzia-se a tomar conta da lavoura dos seus pais que tinham ficado, avistando o dia em que ficaria a trabalhar só, e só com a promessa de herdar uma pequena parte dos anos mais ou menos solitários do seu trabalho e suor. É uma história muito nossa, muito comum. Um dia deixa a mulher que namorava e amava contra uma vida que apenas prometia mais trabalho e divisão de bens com os que haviam partido. A História, diria um dia alguém proeminente na luta por outro mundo, primeiro acontece como tragédia e depois repete-se como farsa. Só os corajosos quebram o ciclo da tradição. Com um irmão mais velho que havia escolhido a nossa geografia americana mais improvável nessa altura, creio, Wyoming (hoje no noticiário diário em todo o mundo pelas piores razões de violência injustificável) nas profundezas do interior na América das nossas ilusões, pastores prósperos de ovelhas, depressa se tornam o braço direito de António ido da Ilha Terceira secretamente.


    J
oão Gago da Câmara leva-nos ainda ao encontro do resto dos irmãos também
residentes e fazendo as suas vidas em geografias que raramente nos aparece na literatura referente à nossa imigração: Las Vegas, aonde reside parte da família e, como seria de esperar, na Califórnia. Cavalos, comboios, trabalho e festas em casa de um ou outro – até que os anos passam e inevitavelmente o futuro regressa. Boa parte dos açorianos acaba por visitar a terra outrora do seu sofrimento, para agora a festejar. Uns ficam permanentemente, outros regressam ao outro lado do mar. Numa história investigada e escrita entre a investigação jornalística e agora feita ficção, aqui está uma previsão dos nossos próprios dias. Já não são os “indios” a patrulhar as poucas terras que lhes restam ou restaram; é a saudade real e não mitificada que fica prevista nesta narrativa. São agora outros que provocam a vontade dos regressos – a insegurança da “terra prometida” tornada pesadelo para os mais conscientes. Cada imigrante regressado com quem falo atualmente mantém um silêncio visivelmente magoado. Outra parte deles, sentindo-se senhores de uma terra de que nunca foram, pelo menos num outro regime atual poucas vezes antecipado na sua história, continuam felizes. Só que do rebanho de ovelhas ou vacas que outrora cuidavam tornam-se alguns deles atualmente em “ovelhas obedientes”, sem palavra nem queixas. Nunca ninguém deixou esta terra açoriana sem lágrimas nem adeuses quase apocalípticos. Sei disso pessoalmente. Uma vez mais: a História primeiro acontece como tragédia, e depois como farsa. Nada dos nossos dias que correm ilustra esta verdade com tanta força e urgência. A terra da promessa parece tornar-se a terra do mais assustador gelo, real e metafórico.

    O Chamamento é uma dessas narrativas a que os americanos chamam o page-turner, num gesto de leitura quieta queremos virar cada página para saber o que vem a seguir. Isto é a melhor qualidade de um bom livro. Para alguns escritores entre nós torna-se mero jogo de palavras que nada significam para além de nos fazer consultar páginas de um qualquer dicionário à procura de sentidos que nos iludem – e nada significam para além do ego de quem os escreve apenas para si próprios ou para o amigo de ocasião.

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João Gago da Câmara, O Chamamento (prefácio de Rita Ferro) Lisboa, cordel d’ prata, 2025.

Publicado no BorderCrossings do Açoriano Oriental, 30 de janeiro de 2026


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