O mar das ilhas e o sonho americano interlaçados, sem sobressaltos nem dramatismos...
Diniz Borges, Raízes E Horizontes: Narrativas Da Diáspora Açoriana
Há amizades que resistem a uma vida inteira. Conheci o Diniz Borges quando ele tinha mais ou menos 19 anos de idade e a trabalhar com muita dignidade fora do ensino superior na cidade de Tulare no centro do mítico Vale de São Joaquim no interior a meio da Califórnia. Já o conhecia de nome e fiz uma obrigação minha visitá-lo no seu espaço de vida ativa. Sabia que ele já era nessa idade um ativista independente na nossa comunidade, aonde vivia quase toda a minha família imediata e de graus variantes. Sabia também que ele já fazia um programa de rádio comunitário, e que as suas linguagens me agradavam, e muito. Eu era um novo professor de uma escola secundária no condado de Los Angeles. Queria muito conhecer um homem de uma geração mais nova a dizer coisas das minhas então opções políticas – quietas e independentes, tal como ainda na minha velha idade aqui no meu país de nascença. A empatia foi de logo expressa entre nós os dois. Só que percebi que o seu futuro viria a ser muito diferente, e foi em pouco tempo – e de que maneira. Diniz seria uns poucos anos depois admitido sem qualquer dificuldade numa faculdade da Universidade Estadual da Califórnia, na área de literaturas, e logo de seguida faria com sucesso um mestrado em literaturas étnicas, o que ele talvez ainda chame de literaturas e geografias porosas, tal como os nossos dois destinos literários que perduram, e são cada mais a temática da nossa escrita. Comunicamos quase diariamente através das redes sociais, falamos sobre o que pensamos, lemos, dizemos, e, sim, criticamos tal como naqueles tempos que nunca esqueceremos. O estado ou modo de vida em que então viviam as nossas comunidades no oeste americano? Voluntariamente obedientes aos seus mandantes, sem a noção, creio eu, de que os seus filhos tinham abertas todas as portas para outras oportunidades, profissões fora de ordenha de vacas ou de duros trabalhos, digamos assim, associados. Vivemos sempre dois mundos totalmente comuns: os Estados Unidos e Portugal, com os Açores aqui e ao longe muito próximos e parte das nossas vidas quotidianas enquanto nos integrávamos conscientemente na grande sociedade americana, a “geografia” tendo acabado anos mais tarde com os novos meios de comunicação. Mantivemos a continuidade das nossas conversas com o mesmo vigor e crenças sociais e ideológicas (mais ou menos) dos anos iniciais do nosso convívio.
Há algo na vida académica e literária de Diniz Borges que muito – muito – aprecio, e muito para além desta nossa amizade forte, profunda. Ele faz mais pela inevitável dualidade da cultura que partilhamos sem complexos alguns, e pelo memorial da nossa gente no oeste americano que nunca vinte de nós faríamos naqueles anos, mesmo com o já falecido professor Eduardo Mayone Dias (natural de Lisboa e professor na Universidade da Califórnia em Los Angeles) como nosso grande exemplo e mentor. Há dois grandes grandes intelectuais, escritores e académicos nos Estados Unidos que desde há muitas décadas mantêm a nossa identidade viva, para além das tradições das sopas do Espírito Santo e de outros ritos religiosos e profanos. Onésimo Teotónio Almeida na Brown University em Providence, e Diniz Borges nos anos mais recentes na Universidade Estadual da Califórnia, em Fresno. De Onésimo T. Almeida já todos conhecemos muito bem como académico e escritor. Do Diniz é preciso dizer algo mais. Depois da sua reforma da Tulare Union High School foi quase de imediato chamado pela já mencionada Universidade Estadual da Califórnia, em Fresno, que fica no coração do Vale de São Joaquim, rodeada por uma vasta área agro-pecuária, boa parte dela controlada por açorianos e luso-descendentes. Não foi só por isso. A sua competência e credenciais determinaram que ele iria além de dar aulas de Português e sobre a nossa História durante uma longa e brilhante carreira a outro nível escolar. Seria o fundador e diretor do Portuguese Beyond Borders Institute, com responsabilidades pelas especiais relações académicas e literárias com os Açores, com Diáspora, e com todo o nosso país. É o primeiro responsável pela editora Bruma Publications, ligada ao mesmo instituto já aqui referido, que dinamiza e financia publicações de livros aqui nos Açores, e divulga entre nós e nas comunidades autores luso-americanos através de traduções feitas por ele próprio, com uma precisão e criatividade pouco habitual em qualquer parte, muito menos por cá. Mantém, ligado ao mesmo instituto universitário, o sítio de Artes e Letras Filamentos, que transmite diariamente notícias e textos literários dos dois lados do Atlântico, e não só. É um projeto com uma persistência e regularidade nunca vista, nascido e por ele mantido naquele extremo do continente norte-americano.
Escrevo do meu maior e mais querido amigo nesse lado da nossa diáspora como escreveria sobre um irmão. Fá-lo de maneira criteriosa, e sem exigir qualquer retorno seja de quem for. Isto é novo entre nós. Alguns dos nossos escritores devem-lhe, e muito. Nunca pede nada a ninguém, muito menos às nossas instituições governamentais. É algo a que não estamos habituais, mas não peço aqui que se habituem a tanto trabalho e dedicação. Só que o reconheçam como o académico que é, como o escritor e crítico que nos dá conta como ninguém da nossa história de uma parte de um outro grande país que sempre nos foi – ou era – essa outra pátria de sossego e boa vida. Permanece um cidadão de nacionalidade dupla que nunca desculpa as injustiças do que foi o nosso passado e do que agora é o seu presente. Tudo isto envolve um inquestionável esforço e uma indescritível dedicação. Será sempre justo o nosso reconhecimento. O resto não passa do resto. O trabalho feito e que continuará a ser feito falará um dia por si.
Sempre que o Diniz nos visita é como que um acontecimento à moda antiga, não com abraços nas docas, mas sim em aeroportos. Ainda bem. Quer isso dizer que famílias e amigos já não choram lágrimas de saudades que há décadas eram o nosso drama. Aliás, ele publicou há uns bons anos Nem Sempre a Saudade Chora: Antologia de Poesia sobre a Emigração. Nem mais.
“O inevitável aconteceu: foram ficando e foram criando, num dos estados mais diversificados da união americana, a sua própria subcultura, a qual, como não poderia deixar de ser, é uma amálgama da nostalgia das ilhas, das suas tradições rurais, com elementos da modernidade e da multietnicidade californiana. Hoje, cerca de 150 anos depois de terem chegado os primeiros emigrantes açorianos, existe no seio do multiculturalismo deste estado do pacífico norte-americano uma definitiva presença trazida pelas gentes dos Açores”.
Agora pode ser com certa frequência. Não nos trazem sacos de roupa para colmatar o que durante séculos foram as nossas misérias em tudo. Trazem-nos as notícias da proximidade contínua, do bem estar lá e, para muitos, cá dentro, nas pequenas terras rodeadas de mar nem sempre simpático para todos que dele fazem a sua sobrevivência. Esse abraço coletivo vale mais do que tudo no passado.
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Diniz Borges, Raízes E Horizontes: Narrativas da Diáspora Açoriana, Ponta Delgada, Letras Lavadas edições, 2025.
No BorderCrossings do Açoriano Oriental de 27 de fevereiro de 2026.



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