terça-feira, 7 de abril de 2026

Manuel Alegre na sua intimidade poética e destes tempos que todos vivemos

        

Há um barco dentro de mim/uma bandeira rota/procura a última rota/além do longe e do fim.

Manuel Alegre, Balada do Corsário dos Sete Mares


    Os versos que tenho aqui como epígrafe é a primeira estrofe do poema “O Barco Abstracto” e faz parte do seu mais recente livro Balada do Corsário dos Sete Mares. Um açoriano como eu, que passou a vida de “navegante” mas em paz e em busca de algo sempre indefinido é uma oferta condizente com o meu aniversário que também chegou há poucos dias. O mar que quase bate no prédio onde vivo em São Miguel, em marés altas ou baixas já pouco diz. É para o horizonte que olho: ora com saudades de outras terras, ora com a imaginação e as memórias que continuam a dar sentido à minha vida. É tempo de pensar o que foi e é, é tempo da contagem decrescente e de lembrar todos os nomes que me foram significantes no desgosto e no amor. Não me podia comparar de modo algum ao grande poeta, que provavelmente tem umas das mais longas e brilhantes carreiras literárias no nosso país e mundo. Somos corsários na navegação como somos os homens e mulheres que tentam tomar a medida, por assim dizer, das nossas vidas e de tudo o que nos vai na alma. Quando se alia esta temática à genialidade de um poeta como Manuel Alegre tudo se torna como que uma autobiografia, o primeiro sinal universal da grande literatura que sempre foi e é a vastíssima obra do autor de Praça da Canção, o seu primeiro livro publicado em 1965, e que já vai na quinquagésima edição. Aliás, toda a sua obra poética é essa longa canção a um tempo dos nossos temores e amores como é a metáfora mais duradoura da nossas história coletiva e mundial. José Carlos de Vasconcelos, numa breve entrada na contracapa de Balada do Corsário dos Sete Mares, mas ainda sobre uma das edições de Praça da Canção, diz tudo isto muito melhor do que eu, e em brevíssimas palavras: “Lírico, romântico, épico; epopeia e anti-epopeia; tradição e inovação; discurso e dialéctica; passado, presente e futuro, vários tempos num só tempo; hino, bandeira, sonho, armas; trova, romance, canção, crónica – tudo”.

    A poesia de Manuel Alegre nunca é para ser lida em silêncio, é para ser ouvida exatamente como uma balada, é para apreciarmos a sua musicalidade, as suas metáforas e, sim, as suas imagens vivas e significantes. Os académicos, quase sempre habituados à poesia mais “obscura” nas palavras e na forma supostamente muito originais, alguns desses mais conhecidos poemas a necessitarem de notas de rodapé e outras explicações mais diretas, como a Terra Erma/The Wasteland de T. S. Eliot, por exemplo, para depois dela falarem com o mesmo tipo de linguagem que pensam ser “científica” ou reduto de “eruditos” levaram alguns anos a perceber o quanto vale a clareza e profundidade das palavras nos mais variados contextos da poesia de Manuel Alegre. Eliot gozou com os estudiosos académicos com notas de roda-pé falsas e de informação por ele inventada. Só o grande crítico Edmund Wilson furou esse balão poético em pessoa numa noite de copos num apartamento qualquer de Nova Iorque entre ele, Eliot e Ernest Himingway. quando Eliot regressou aos Estados Unidos seis anos depois de trabalhar num banco e a viver na Inglaterra, quando alguns poucos também já o tinham como um magno” na poesia e na definição do que deveria ser a “cultura”. Eis aqui como se trata com os supostos mestres num determinado período literário em que nascia o modernismo de escritores americanos exilados, imigrados, em Paris após o fim da Primeira Grande Guerra Mundial, e eles numa rejeição arrogante ao seu próprio país, e da própria literatura americana desde o início até ao seu tempo. Eram todos eles uma espécie de revolucionários no conforto relativo em que se havia tornado Montparnasse após a grande catástrofe europeia e uma América que eles consideravam boçal em tudo que era a grande arte literária. Foi precisamente lá – em ironia das ironias – que foram escritos alguns dos maiores romances modernistas americanos, como Paris é uma Festa.

    

    Em 2025, a Universidade de Pádua inaugura na Itália a Cátedra Manuel Alegre “destinada ao estudo da Língua e Cultura Portuguesas”. Um novo e permanente ciclo na interpretação da obra do autor foi aberta. No nosso país, finalmente, seguiram-se – ou anteciparam-se um pouco antes nalguns casos, ou só depois as honras de doutoramentos Honoris Causa, e conferências e publicações de alguns dos professores mais distintos na crítica e no ensaísmo. Manuel Alegre poderá ser ou é um herdeiro de Camões e de Fernando Pessoa, o que não me parece neste último caso. O que José Carlos de Vasconcelos afirma ser uma poesia de “epopeia” e “anti-epopeia” é isso mesmo, pessoal e portuguesa, menos o fechamento psiquiátrico, muito isolado, quase egoísta. Cada verso de Manuel Alegre faz parte dessa balada que a maioria dos seus leitores quereriam dizer mas não sabem para além do seu silêncio perante o mistério de sermos e estarmos vivos.

    Balada do Corsário dos Sete Mares é uma sequência de poemas que vem dividida em secções desde o estritamente privado à condição humana na nossa versão experiencial de sermos quem somos e parte consciente do mundo que então o rodeava e rodeia. Poemas da vida dia a dia, mas muito ao contrário de outros escritores nossos fechados numa redoma em que só eles – ou os seus protagonistas – existem, e todos os outros eram uma outra nódoa da sociedade em geral. Manuel Alegre dedica poemas aos seus mais chegados eem casa, ao mundo que intitula “Tempo Do Avesso”, ao tempo que vai rapidamente passando numa visão de finalidade sua e eventualmente para nós todos. O desastre humano criminoso e em curso em Gaza e em Kiev estão aqui nas suas poderosas palavras – nem ideologia nem dogmatismo, só a visão do sofrimento de uma criança com fome e com um pobre tacho vazio na mão e outros seres humanos a serem assassinados a partir do ar e sem saberem bem porquê. Quando a poesia pura vira documento artístico da História só nos faz lembrar as vozes maiores de toda a Humanidade. Às vezes chegam versos e nem sequer aponto./É talvez a forma suprema/versos que não se escrevem/chegam passam esquecem/e são o poema.

    Às vezes chegam versos” escreve Manuel Alegre? Não. Chegam uma crescente parte a obra colossal em que agora se integra Balada do Corsário dos Sete Mares, em várias formas e temática, da moderna literatura portuguesa. Isso foi, não sei se continua a ser, um problema sem explicação para a crítica literária do nosso país. Ninguém se lembrará mais dos críticos académicos, dos recenseadores, ou outros apreciadores da nossa grande literatura. Frederick Crews, o iminente professor da Universidade da Califórnia diz, sem apologia ou outra explicação, em The Critics Bear It Away, que nenhum leitor se lembrará mais do que quinze minutos de qualquer texto escrito sobre um livro. Para pena minha, obviamente, parece-me ser a verdade. A grande literatura, como a de Manuel Alegre, permanece na sua essência, na sua verdade, na sua arte, na sua linguagem que de um autor passa para nós todos – para sempre. O resto de pouco vale para além da teatralidade de uma aula ou outra, de um texto ocasional em qualquer publicação. A ironia pode ser também uma forma de autocrítica.

___

Manuel Alegre, Balada do Corsário dos Sete Mares, D. Quixote/LeYa, Lisboa, 2026.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental de 27 de março

Sem comentários:

Enviar um comentário