sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Sobre algumas apreciações da obra literária de Joel Neto


Quiseram as tramas da existência que nos ligássemos afetivamente num percurso em crescendo.

    Paulo Matos, Levanta os olhos para as montanhas

    Este é  um livro especial for razões pouco usuais entre nós. Levanta os olhos para as montanhas: Vinte e cinco passos pelos caminhos de um escritor é um tributo à obra de Joel Neto coordenado por Paulo Matos, também ele apreciador público de livros, e de quem falarei um pouco mais nas linhas seguintes. Este livro traz desde logo uma Nota do Editor João Gonçalves da Cultura Editora de Lisboa, um prefácio do próprio Paulo Matos, assim como um posfácio de Raquel Varela, todos eles identificados por entradas biográficas e outras informações relevantes para a inquestionável credibilidade e grandeza do livro. 25 anos na carreira de um escritor poderia passar-nos despercebido não fora a suprema qualidade que Joel Neto tem desenvolvido nos mais variados géneros literários – ficção, ensaio, jornalismo e memórias-outras da sua Ilha Terceira. O devido reconhecimento a um profissional em qualquer área – das artes e de outras profissões, particularmente quando tudo é feito para o nosso bem estar e prazer – é sempre um gesto que implica generosidade e camaradagem agradecida por parte de quem o assina ou expressa a sua admiração por outras palavras à obra e Joel Neto. É o que acontece sobre este livro de Joel Neto, que junta todos esses nomes de colegas açorianos e continentais, dos que sempre seguiram atentamente  a publicação de um ou outro livro seu, ou de todos eles. Uma lista aqui seria, como já o disse noutros textos meus deste género, demasiado longa, e retiraria a surpresa aos seus eventuais leitores. Lê-los nestas páginas é apreciar todas estas leituras originais, mas que se completam como num longo ensaio sobre a obra aqui em foco. Não falemos aqui e agora em comparações algumas. Só que Joel Neto se destaca na criação de textos literários muito próprios, muito seus, como nunca deixa de ser com todos os grandes escritores.

    
Paulo Matos
    T
oda uma grande obra
literária tem sempre um livro no seu centro, que alguns escritores detestam por, pensam eles, obliterar todos os seus outros. Para os leitores isso poderá também ser uma tendência, mas nunca uma verdade literária. Neste caso de Joel Neto sei do que falo depois de ter apresentado e escrito publicamente ao longo dos anos sobre quase todos os seus livros de ficção. É claro que o supremo romance simplesmente intitulado Arquipélago quase que monopoliza toda a sua obra criativa. Ler Arquipélago é ler um romance sem par entre nós. Esqueçamos alguns outros escritores que o antecederam para além da forma artística com que abordam os seus temas vincadamente açorianos. Bem sei que ao dizer isto não nego a obsessão de certos ensaístas nossos em constantemente reafirmarem que é “açoriano” e do “mundo”. Conheço alguns dos grandes romances de outras línguas e geografias, estas por vezes mais reduzidas do que a nossa. A abrangência temática de todos eles simbolizam essa verdade: a humanidade tanto se parece sempre nas suas tragédias como nos seus tempos mais felizes. Estou a parafrasear aqui um escritor russo do século XIX, de nome Liev Tolstói. Só para dizer que há passos na escrita de Joel Neto que nos levam à nossa infância, à nossa ruralidade, à nossa imaginação. Entrar com uma das suas personagens numa taverna da Terra Chã e ouvir os mais velhos em discussão, é escutar só com meio entendimento os mistérios dos lugares do nosso nascimento e vida sem rumo ou em estado de sonho que vá além de uma mesa de sueca ou simplesmente de bebida. Desde o futebol à passagem barulhenta de um trator em terra envelhecida, desde uma cidade que parece em festa constante à labuta de pequenos e pobres proprietários e seus trabalhadores, os Açores tornam-se uma realidade misteriosa, viva, em que o choro invisível nessas situações imaginadas ou mesmo “vividas” são abafadas ocasionalmente por uma filarmónica local a alegrar os tristes, os desamparados, os sem futuro que poderá só exister nos seus sonhos.

    Lembro-me do quão bom conversador – escreve Paulo Matos no prefácio – me pareceu o Joel, moço de humor inteligente, atento à realidade imediata e quotidiana, características que, entendi, transpunha para a sua escrita (e que ainda hoje fazem dele o escritor consagrado em que se tornou). Levou-me essa constatação à compra dos seus dois primeiros livros, os anteriores a Al-Jazeera, Meu Amor, o tal que havia sido apresentado nessa dia, na Quinta do Martelo. Amor à primeira leitura, nunca mais larguei aquela voz da terra e do mundo, do ser e do sentir, do pensar e do observar ações e estados, a essência da vida e o barro de que é feita a humanidade”.

    Aí estão as palavras de um companheiro de leitura da obra de Joel Neto, e que depois entra num projeto de saber de todos ou de quase todos, que sobre ele haviam escrito até data da organização de Levanta os olhos para as montanhas. O que mais me surpreende – ou não – nestes ensaios ou recensões publicadas um pouco por toda a parte, no nosso país e no estrangeiro, é a concordância na audácia literária de viajar pelo mundo sem nunca sair de casa, de inventar e reinventar personagens que por mais longe que estejam de nós parecem ser os nossos vizinhos, leitores ou tratadores da pouca terra que nos resta, sempre com os olhares no mar e nas nuvens tentando adivinhar outras terras ou a possibilidade de chuva e vento, de outros contratempos pessoais, dos caprichos da natureza das suas vida. Quando Angra cai a 1 de Janeiro de 1980, Joel sabia que tudo havia mudado, desde as casas e as vidas que nelas moravam aos amores que estranhos viriam a cultivar numa terra desconhecida mas que passava também a ser para muitos deles a chegada ao porto final das suas vidas.

    

    Joel Neto regressaria a casa definitivamente após a sua longa estadia e aprendizagem em Lisboa e arredores. Para além da escrita, sempre, em jornais e em livros, começa rapidamente a olhar o Poder que parece sem poder na terra açoriana. A novela Jénifer e alguns artigos em jornais ditos nacionais chamaram a atenção de muitos leitores, e pelas piores razões que perpetuam a realidade açoriana, a que fica fora da retórica oficializada, e não só entre outros cidadãos conscientes do que vai bem e mal na sua vivência cá dentro.

    Joel Neto fundou em Angra do Heroísmo há poucos anos a livraria-café de nome Lar Doce livro. Faz parte integral do seu projeto como autor nacional reconhecido e premiado. Espalha agora a palavra através da sua própria obra e a dos outros que lhe são próximos ou nos trazem saberes literários e consciência coletiva. A presente homenagem levada a cabo por Paulo Matos, ele também formado nas Humanidades e crítico literário que por enquanto não conheço pessoalmente, mas leio na sua coluna do Diário Insular, Açoriano Oriental e Portuguese Times, intitulada o “Rapaz que vai habitando os livros”. Acaba de nos enriquecer com esta sua coordenação de Levanta os os olhos para as montanhas: Vinte e cinco passos pelos caminhos de um escritor. O livro vem com toda a bibliografia de Joel Neto, e ainda as notas biográficas de cada autor dos textos apreciativos deste livro.

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Paulo Matos, Levanta os olhos para as montanhas : vinte e cinco passos pelos caminhos de um escritor (Nota do Editor João Gonçalves, prefácio de Paulo Matos, posfácio de Raquel Varela), Lisboa, Cultura Editora, 2025.

No BorderCrosssings do Açoriano Oriental, 20 de fevereiro de 2026.

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