sexta-feira, 17 de março de 2023

“Somos uns cínicos e vaidosos – a começar por mim” - 2/3

 

Uma Conversa com Joel Neto 

     Nesta segunda parte da minha conversa Joel Neto abordamos outros aspetos da sua já vasta obra, sempre numa perspetiva do escritor consagrado e do seu impulso literário de nunca deixar de fora as questões sociais, económicas e culturais que definem o lugar de qualquer cidadão – personagens fictícias que simbolizam, por assim dizer, a condição existencial de cada um na sociedade que é a nossa, várias gerações que refletem a caminhada à procura da sua própria dignidade. “Todos os meus livros – diz-me no último passo desta entrevista, que será publicado na próxima semana – são, em larga medida, autoficção. Toda a literatura é, em alguma medida, autoficção. Tudo aquilo em que estou a trabalhar neste momento é, em fortíssima medida, autoficção”.

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 A tua extensa obra ficcional tem, para mim, o grande romance Arquipélago no centro do cânone literário de toda uma geração que se segue à minha. A ficção volta a ter de abordar a temática social em linguagens artísticas?

     Fico grato pela qualificação, ademais vinda de quem vem. Não é uma visão em que eu me detenha, mas evidentemente sensibiliza-me. O Arquipélago é um livro com muito significado para mim: porque é o livro em que, no fundo, eu já estava a trabalhar com todos os livros que publiquei até então; porque catalisou o meu regresso aos Açores, a melhor decisão pessoal que alguma vez tomei; porque gerou à volta do meu trabalho uma comunidade de leitores que ainda hoje me acompanha; e, sobretudo, porque é nele que eu tento levar mais longe a decifração do que significa esta paisagem dos Açores, do que significa este povo e do que significa o olhar que eles produziram em mim. O facto de ter recolhido atenções entre a comunicação social e a crítica é, digamos, um complemento (muito) feliz.

     E, sim, já estão lá as minhas preocupações sociais. Ao longo de todo o livro, e em particular num infame almoço em que, determinado a perceber as ilhas de que é originário e a que agora regressa, José Artur Drumonde se reúne com o advogado João de Brito e este lhe sugere: «E agora o senhor professor vai chegar a casa, vai ligar o computador e vai abrir o site do Instituto Nacional de Estatística. Vai conferir todos os rankings de subdesenvolvimento humano que lhe ocorrer: analfabetismo, alcoolismo, abuso sexual, violência doméstica, gravidez precoce, insucesso e abandono escolar, desemprego, pobreza persistente… E a seguir vai ver qual é a região portuguesa que, hoje em dia, está à frente em todos eles. (...) É nessas ilhas que o senhor professor se propõe viver. E eu só quero que perceba bem que lugar é esse e do que se alimenta o sistema em vigor. Ou a sociedade, se preferir um eufemismo. Leia um pouco sobre a história da Córsega e veja como tudo começou.»

     Mas, claro, o romance é extenso, e muito mais se atravessa no caminho tanto de José Artur Drumonde como do leitor. De certa maneira, parte do que estou a fazer agora, com os ensaios e com a Jénifer, é isolar essa matéria para poder iluminá-la como deve ser. Até porque, infelizmente, os números são hoje mais perturbadores ainda. Alguns deles pioraram em termos absolutos e quase todos restantes pioraram em termos relativos. Em geral, os Açores estão hoje ainda mais evidentemente atrás das médias nacionais. A crise financeira atrasou-nos e, agora, a crise sanitária acentuou esse atraso, como o provam os últimos dados relativos ao chamado risco de pobreza. O que vai acontecer com a crise inflacionista, portanto, não é difícil de adivinhar.

     

Agora, se a literatura tem realmente de reflecti-lo, disso já não estou certo. O escritor, enquanto escritor – repito –, não pode ser-lhe indiferente. Já os livros propriamente ditos estão sempre para além do escritor. Os livros pertencem em primeiro lugar às suas personagens e em último lugar aos seus leitores. O escritor é um intérprete, um veículo, o operador dessa máquina diabólica a que poderia talvez chamar-se intuição. Entretanto, às vezes as personagens tomam as melhores decisões. Foi o que – creio – fez a ‘Jénifer’. Assim que deu por si na posse de suficientes contornos, meteu os pés à parede e proclamou: não saio daqui enquanto não contares a minha história. Fez bem. Estou convencido de que é uma das minhas melhores personagens e que este é um dos meus livros mais importantes – a par do Arquipélago, dos volumes de A Vida no Campo e do Meridiano 28.

     Tiveste num passado recente uma experiência nos bastidores de um dos nossos partidos políticos, creio que como assessor ou conselheiro, sobre muitas destas questões que envolvem miséria e desigualdade nestas nove ilhas. Onde colocas a Educação e Cultura como arma de combate ao que entendes ser inaceitável numa sociedade moderna e aberta?

     Tive uma participação como coordenador do programa eleitoral e de Governo do PSD-Açores, no ciclo 2012-2016, e foi um desastre por uma série de razões. Primeiro, a actividade político-partidária resulta sempre mais ou menos deplorável; depois, a actividade político-partidária resulta sempre especialmente deplorável nas sociedades ocidentais, cínicas e entediadas, onde a agenda pessoal se sobrepõe a qualquer quimera em favor do bem comum; depois, o PSD é sempre um saco de gatos; depois, o PSD-Açores está cheio de caciques paroquiais semi-letrados, à volta dos quais serpenteia meia dúzia (se tanto) de líricos, efectivamente bem-intencionados, na expectativa de uma conjuntura humana; e depois ainda – o que provavelmente até foi o mais importante de tudo – as distâncias ideológicas entre nós eram insanáveis.

     O PSD-Açores é ainda mais conservador do que o PSD nacional, como aliás os Açores são mais conservadores do que o país. Como eu escolhi a equipa das áreas sociais e culturais e (por desconhecimento dos possíveis contribuintes) aceitei a equipa escolhida pela direcção do partido para as áreas económicas e financeiras, o programa resultou esquizofrénico: socialmente, era de centro-esquerda, como eu; economicamente, era de direita, como o partido. Naturalmente, podia perguntar-se o que estávamos, afinal, a fazer juntos, eu e o PSD. Mas na altura eu acreditava que, desde que nos mantivéssemos dentro do espectro democrático, o mais importante era interromper o ciclo político em curso, já a caminho dos 20 anos. Além de que, vindo de Lisboa, era menos responsável ideologicamente do que a realidade dos Açores me tornou.

Os resultados, claro, foram desastrosos. Mas nunca me esqueci de como em todas as filas à minha frente, sempre que subia ao púlpito e tornava a alertar para a tragédia humana que o agravamento dos nossos índices de desenvolvimento ia desenhando, havia militantes revirando os olhos: outra vez a mesma conversa? A única coisa que me traz algum alento é que, entre os poucos que não o faziam, estavam Duarte Freitas e José Manuel Bolieiro. Que me decepcionaram, naturalmente, no dia em que assinaram um acordo com a extrema-direita, mas que em todo o caso sei terem o coração no lugar.

     Quanto ao lugar que a Cultura deve ocupar na estrutura governativa, e nomeadamente como arma de combate à indigência (social e não só), é central. O primeiro passo em qualquer tentativa de inverter esta rota desastrosa será o de dizer aos açorianos todos, e em especial aos mais pobres: vocês não precisam de viver nesta miséria, e aliás não deviam viver nesta miséria. Agora, para que eles consigam – para que nós consigamos! – percebê-lo, é precisa desde logo um mínimo de cosmovisão, de mundividência. A Cultura é, portanto, o primeiro de todos os passos – a ideia de justiça, a noção das proporções. E a seguir vem a Educação, a que ela deve estar inextricavelmente ligada. Elas são os únicos motores de arranque possíveis para a corrida de fundo que precisamos de empreender. Faz sentido estarem juntas, e a decisão do Governo de  mudar a Direcção Regional de Cultura (agora “dos Assuntos Culturais”, e mal) para o âmbito da Secretaria Regional de Educação e Cultura foi inteligente. 

     Só que a nomeação do director regional foi entregue ao PPM, ao qual se entregariam sempre as nomeações menos importantes. Só isso já foi mau sinal. Como se não bastasse, o PPM nunca conseguiu produzir um quadro sólido para a tarefa, pelo que vamos com dois anos de Governo e a caminho do terceiro director – e com a secretária regional não só incapaz de resolver o problema com celeridade, mas inclusive concentrada em exclusivo na Educação. Este Governo tem tomado boas e más decisões, tem tido fracassos e sucessos. O futuro há-de ajudar-nos a fazer a melhor historiografia deste tempo. Mas uma avaliação, pelo menos por este mandato, já não se vai conseguir mudar: os seus resultados na Cultura são um desastre.

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    Joel Neto, Arquipélago, Lisboa, Marcador Editora, 2O15.

BorderCrossings do Açoriano Oriental, 17 de março de 2023.

    

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