She collects them one by one/black stones on a black beach/and wonders if her future/can be lived out of the past.
Lara Gularte, Soul Of Blach Stone: Echoes Of Islands, Shadows Of Time
Já escrevi sobre a poesia de Lara Gularte há uns bons anos, nomeadamente sobre os seus primeiros livros de poesia Kissing The Bee e Fourth World Woman. Que é uma das nossas melhores poetas da diáspora nos Estado Unidos vem agora confirmado no presente livro da Bruma Publications/Letras Lavadas. Diniz Borges tem feito o que nunca de nós teria feito nas décadas passadas, nunca esquecendo o início destas publicações luso-americanas do projeto ainda vivo da Gávea-Brown, tanto através sua revista fundada em 1980, como logo a seguir na publicação de alguns livros açorianos e da diáspora, em português e em inglês. O trabalho atual que começou há poucos anos através do Portuguese Beyond Borders Insititute da Califórnia State University, em Fresno, é também colossal e quase sem par na América do Norte, envolvendo outros como a maior editora açoriana, Letras Lavadas. Esta minha introdução visa contextualizar o que se passa entre nós na atualidade. “O território não é o mapa”, nas palavras de Simone de Beavoir um dia citadas pelo também grande poeta Emanuel Jorge Botelho. É a confirmação da grandeza da literatura que sai das ilhas e da diáspora em duas línguas, que sai das mais distantes geografias, que sai das primeiras e seguintes gerações nascidas longe mas cujas temáticas e memórias nunca nos deixaram nem deixam. Lara Gularte é uma escritora que insiste neste legado de séculos de viagens para fora e para dentro. Pode tudo isto não ser original quanto a descendentes de várias outras origens, mas tem sido a partir da segunda metade do século passado um ato extraordinário na sua insistência e qualidade superior. Os Açores têm uma dupla história na sua literatura: a portuguesa e a norte-americana. Tentar fugir desta realidade será fugirmos de nós próprios.
É da poesia de Lara Gularte de que falo neste momento. The Soul Of Black Stone contém poemas originais e inclui outros que foram selecionados das obras anteriores mas que se encaixam perfeitamente neste seguimento literário de memórias, e, muito mais do que isso, no fazer renascer imaginado de todos os que a antecederam desde o século XIX até à sua condição nunca esquecida, como no caso e Lara Gularte, descendente açoriana de quarta geração. É uma poesia que torna a saudade dos seus que ela nunca conheceu tal como revive os que lhes foram os mais diretos do seu sangue pessoal e comunitário. A sua poesia é tão americana como é portuguesa. Revisita as ilhas como revisita o resto do país. Não é um nacionalismo bacoco em qualquer caso, é só o seu descobrimento da história que a leva através de todo o Atlântico às suas raízes de felicidade e dor. Lara Gularte não é de choro de vidas perdidas, é do seu embate consigo própria e da imaginação que persiste para além do que ela supõe ser os factos da sua vida – da nossa vida em viagem perpétua entre a realidade e a alma. Lara Gularte não quer estar só no presente, convoca tudo de que se lembra, ou imagina lembrar-se à beira de uma sepultara ou na presença das ilhas de onde saíram os seus em tempos já muito longínquos: Flores, Pico, Faial. Só assim ela se reencontra consigo própria. No muito que nos diz, relembra-nos a nós todos quem fomos e quem somos. O confronto com a sua identidade mista não é um gesto de nostalgia, é um gesto que lhe requer a reconstrução do seu próprio ser, a identidade sempre redefinida conforme o seu estado de espírito e a capacidade para se rever entre um longo passado ancestral e o seu quotidiano que nunca fica longe das origens distantes. Soul Of Black Stone é uma poesia da felicidade e da dor dos que nunca conheceram tudo isto, ou agora em direto mas que nunca foram esquecidos na vida e na morte. Sabe da sua história, como sabe, e muito bem, da geografia de onde partiram e da sua sorte num vasto continente onde cultivaram a terra, guardaram animais, procuraram ouro, e faleceram com a dignidade de missão cumprida.
Lara Gularte faz desta poesia, uma e outra vez mais, a viagem às suas ilhas açorianas de referência. Faz da nossa natureza uma metáfora, não de tragédia mas de memória da vida atuante, da beleza como símbolo da sua gente, feliz ou infeliz. O mar dos Açores não é a ameaça que sentimos de quando em quando, foi a brava passagem do nosso destino. Mesmo em Lisboa reconhece a resiliência do povo de quem ela faz parte, pode ser uma catedral, pode ser o Tejo de onde navegamos para reconstruir todo um novo mundo, pode ser ainda a homenagem mesmo aos que nos deram outro princípio de vida mais ao longe de um arquipélago que quando descoberto ninguém tinha, mas onde viríamos a recriar toda uma sociedade que se tornaria num futuro diferente e, do mesmo modo, aventureiro. Reclamam-o para si, reclamam-o para todos nós nesse passo do nada até ao hoje de tudo. Para Lara Gularte, nascida no norte da Califórnia, os Açores são-lhe casa, a sua gente é a sua gente em duas línguas, entre ilhas e continentes: “They go back down the road/the way they came/Here is home, they say”. Eis o retorno a casa, às ilhas da sua ancestralidade, à sua identidade, talvez indefinida mas ironicamente segura, o mencionado território sem mapa, e com tudo que fez e faz vidas múltiplas em dois lados do mar nunca separadas, em falares nunca em conflito.
Lara Gularte cultiva todas as formas da poesia livre. Dois versos, versos alongados. Todos com a força da palavra sempre colocada no seu lugar. Para a citar é um problema para mim, tal a sua contundência poderosa das suas palavras. Nela me revejo na própria experiência de imigrante no Vale de São Joaquim durante um ano e pouco, tal me revejo na urbanidade da grande Los Angeles e Orange County. Leio-me nela como leio a minha vida repartida. Leio-me nela como leio a minha própria vida nos meus momentos mais pensativos. Leio-me nela como leio todo o meu povo entre duas lealdades linguísticas, entre as duas lealdades nacionais. Lara Guarte escreve sobre as nossas ilhas e a América como eu as vivi e vivo – para sempre. Isto não é uma poeta que fala só de si. Fala de mim, fala do nosso povo, fala da nossa história. Como uma sinfonia – a euforia da vida, das suas tristezas, das nossas inseguranças, dos nossos medos e das nossas alegrias de (re)encontros. Soul Of Blach Stone? Sim, a alma de se estar só nas ilhas e na América. Mesmo na companhia de quem nos ama, mas nunca viveu exílios. É isso a poesia de Lara Gularte. Acompanha-nos mas sempre na falta de qualquer coisa que não nos pertence por inteiro. Só que é parte de nós, e será eternamente. Levaremos connosco todo o passado – é a condenação universal a que ninguém escapa.
Soul Of Black Stone: Echos Of Islands, Shadows Of Time não é só um grande livro de poesia. É uma narrativa que conta parte da história dos Açores e da nossa vida simultaneamente doce e dura nos Açores e nas Américas. Lara Gularte nasceu lá e vive toda a caminhada na sua terra de nascença. Só que os Açores, Portugal no seu todo, são sempre uma pátria sua. Sem sentimentalismo. Só com a consciência e saber da sua e nossa história.
Lara Gularte, Soul Of Blach Stone: Echoes Of Islands, Shadows Of Time, Ponta Delgada, Bruma Publications/Letras Lavadas, 2026.
No BorderCrossings do Açoriano Oriental, 10 de julho de 2026


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