It was a joke. Actually, he rode/Into town with a typewriter,/ Bach in the 70s/ Na verdade era uma brincadeira. /Ele foi até à cidade com uma máquina de escrever/nos idos dos anos 70.
Sam Pereira, Code Blue
Comecemos assim. Foi o início de uma carreira literária absolutamente original e tematicamente bipartida no contexto da literatura dos Estados Unidos, em que a pessoalíssima experiência de Sam Pereira viria a convergir com a melhor literatura do seu país de nascença e ainda quase sempre com a da sua ancestralidade lusa, particularmente a dos Açores. Não foi só por mera curiosidade que há alguns uns anos recenseei nestas páginas a sua poesia intitulada, sem outras explicações, The Mariage of the Portuguese. O meu fascínio pela sua obra foi imediato após a leitura desta sua entre muitas outras obras. O meu regresso ao seu mais recente livro, Code Blue: New & Selected Poems, ser-me-ia inevitável. Aqui estava eu saltando sobre muitas das suas publicações saídas nos Estados Unidos no entretanto, mas agora com uma revisita e leitura de outros novos poemas numa maturidade de idade e poética, como me diz um colega na Califórnia, que fez questão de manter o contacto com ele, e agora saiu este seu no novo livro na Bruma Publications e das Letras Lavadas, que se expandem para os escritores das mais significantes geografias também historicamente nossas. Sam Pereira nasceu em 1949 e vive, creio que desde a maior parte da sua vida, em Los Banos, uma das pequenas cidades do Vale São Joaquim. A mesma de onde um dia viveu desde cedo um outro poeta e romancista nosso: Alfred Lewis (Alfredo Luís) que para lá emigrou das Flores e foi talvez o primeiro imigrante açoriano a publicar um romance, Home is an Island, na grande editora Random House, recenseado no New York Times em termos laudatórios nos anos 50. Foi traduzido no nosso país por Rui Zink, sem qualquer resposta digna da crítica portuguesa. Perda dos nossos leitores. Estas palavras, no entanto, são em primeiro lugar para a apreciação da poesia de Sam Pereira, esse que continua a ser um desconhecido na terra dos seus antepassados, esse poeta que também “viaja” entre a América e a muito antiga terra dos seus e de nós todos.
Code Blue: New & Selected Poems é de uma linguagem tão sofisticada como direta, tão pessoal como irónica sobre a própria vida do distinto poeta que é Sam Pereira. Foi formado a nível superior na Universidade Estadual da California, em Fresno, na companhia do poeta anglo-saxónico Philip Levine, que lá dava aulas, e foi e é até aos nossos dias considerado uma das vozes mais lidas e valorizadas no seu país. Depois viria o mestrado de Sam Pereira na prestigiada University of Iowa Writers Worshop. Vai esta informação para os que entre nós muito falam sobre a nossa diáspora, essa ideia que permanece mais ou menos abstrata para alguns deles de quem somos e temos sido fora do território pátrio.
Sam Pereira é esse desafio nosso de ler um poeta cujos versos relembram uma vida de boémio tranquilo, fumador e à maneira lusa sem nunca descurar um copo, mais ou menos cauteloso. Cada poema toma a sua forma variada sem nunca deixarem de ser a narrativa de uma vida em viagem perpétua até ao nosso momento juntos ou solitários em tudo. De convivência em convivência noturna ou ocasional, digamos assim, depressa passa ao coletivo múltiplo com quem se identifica na sua vida. Entre o que percebemos ter sido viver nos dias e nas noites de folia, das músicas e canções que lhe comoviam, passa noutros poemas à vida rural dos seus pais e avós, dirige ou atravessa a sua imaginação até às ilhas de saudade ou aventura, que nunca sabemos se foi vivida, ou simplesmente fantasiada por ele, como no poema, na companhia de uma mulher, “Hemingway in Angra”. Podia ser um fado de qualquer uma das nossas gerações. Amor e despedida, surrealismo e uma experiência nunca acontecida, mas que poderia ter sido no real se suspendermos por esses instante de leitura o que fica entre a verdade e a imaginação pura. O seu léxico poderá ser simples ou mais encoberto, mas o seu significado fica ao dever da capacidade de cada leitor. Que nenhum deles se sinta perdido num destes seus poemas. O seu tributo a outros poetas é uma constante, sem nunca a sua originalidade ser ambígua, como em “Give Me A Carton of Edna Millays”, uma das breves e livres namoradas do grande crítico Edmund Wilson em Nova Iorque, uma outra tirada com humor dos meados do século XX americano em movimento na modernidade total literária e vivencial que finalmente nascia no outro lado do mar.
Sam Pereira é um dos primeiros poetas modernistas luso-americanos em atividade literária constante na nossa diáspora na Califórnia. Digo “na nossa diáspora” porque ele é americano sem nunca esquecer os seus progenitores lusos, tal como é o caso de Frank X. Gaspar, Katherine Vaz e Carlo Matos, entre alguns outros e outras escritoras mais recentes cujas obras eu não conheço. Trinta e cinco de Açores não me tornaram distante. Só que a literatura vive das proximidades tão humanas como geográficas. Tudo isto está felizmente a ser esbatido pelas novos meios de comunicação e contactos quase diários. Nunca ter conhecido pessoalmente Sam Pereira é hoje para mim como se eu tivesse falado com ele diariamente, tal o seu poder literário, tal o seu regresso ao nosso meio de lá ou de cá que foi transportado na alma e memória de cada imigrante e perpetuado por grande parte dos luso-descendentes. É isto que faz a grande – digo grande – literatura em qualquer um dos seus géneros. Há aqui um pedaço de prosa poética intitulado “Letter to St. John in the Style of Richard Hugo” que me confirma a sua quase incrível capacidade de dizer da vida e da morte que nunca deixam de estar entre os que, como eu, já vão em idade avançada. Em Sam Pereira há também outra característica dos grandes poetas, dos grandes escritores do mundo. Na superfície das palavras que aparentam linguagens ou versos de significados menos claros acabam por nos seduzir na sua beleza que se torna clara – memória, uma vez mais, de anos e lugares vividos ou simplesmente olhados, a condição existencial que acaba por nos ser clara na angústia de estarmos vivos e conscientes do que foi – e inevitavelmente será. Ri-me (deveria ter chorado?) com o poema “Tragic Cigarettes”. Sei do que fala, não com o sentido de tragédia, muito ao contrário, mas sim com a consciência quase como a que ouvir uma canção existncialista de Frank Sinatra, aparentemente admirado por Sam Pereira, como por mim.
Eis aqui a suprema poesia em consonância com a grande arte de todos outros. Dedica certos poemas, num caso pelo menos, a um grande amigo comum a nós os dois. A epígrafe deste meu texto vem no poema “The Outlaw, Sam Pereira”. A liberdade em chamar-mo-nos pelo estilo das nossas próprias vidas é um dos mais corajosos atos ou, por outro lado, a desnecessidade de experimentar outros modos de vida. Tudo isto é a palavra de um poeta ou escritor que nos conta ou confronta. A sua terra a meio da Califórnia interior era para ser lavrada, e cantada ou elevada na grande literatura, como aliás sempre foi por muitos outros, esses que são o reduto de minorias que acaba por definir a nossa identidade, o nosso ser, a história, uma vez mais mais, das nossas viagens em busca do tudo e, ironicamente, do nada. A poesia de Sam Pereira é esse modo maior e artístico de nos dizer o nosso próprio destino nunca separado.
Sam Pereira, Code Blue: New & Selected Poems, Ponta Delgada, Bruma Publications/Letras Lavadas, 2026.
No BorderCrossings do Açoriano Oriental, 17 de julho de 2026.


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