sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Ainda Carlo Matos e o reencontro com as suas raízes açorianas

    

    Carlo Matos é um autor bi+/poly que publicou 13 livros, incluindo We Prefer the Damned (Unbound Edition Press) e As Malcriadas: or Names We Inherit (New Meridian, 2022). Os seus poemas, contos, ensaios e recensões têm saído em inúmeras publicações. Os seus livros foram recenseados em publicações como Kirkus ReviewsBoston ReviewIowa Review e Portuguese American Journal. Carlo recebeu bolsas e apoios da Disquiet ILP (Portugal), CantoMundo, Illinois Arts Council, Sundress Academy for the Arts e La Romita School of Art (Itália). É membro fundador do coletivo de escritores luso-americanos Kale Soup for the Soul e vencedor do Heartland Poetry Prize. Vive atualmente em Chicago, é professor nos City Colleges of Chicago e foi lutador de MMA e kickboxer. A nossa conversa foi feita por escrito, com trocas continuadas a propósito desta entrevista. Nesta versão para o Açoriano Oriental parte da resposta que se segue foi cortada a favor do espaço desta página.

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    Na minha recensão  A School for Fishermen, publicada aqui nos Açores, escrevi: “Fishermen do açor-americano Carlo Matos é uma viagem persistente por geografias vividas e imaginadas, uma narrativa com várias vozes, todas elas ligadas a uma mesma família que tenta apaziguar a ansiedade provocada pelas sombras de um certo passado, tanto em dias luminosos como em tempos mais sombrios...” Como chegou a esta necessidade artística?

    Costumo dizer que Fishermen é o tipo de livro de poesia que um dramaturgo poderia escrever. Embora tenha começado como poeta, apaixonei-me pelo teatro muito cedo na faculdade, e apaixonei-me a sério. Ao contrário da poesia, tive quase sucesso imediato (na medida em que isso existe) no teatro, enquanto lutei por anos para escrever poemas suficientemente bons para serem publicados. Acho que isso se deve, em grande parte, a todas as ideias erradas sobre poesia que herdei de filmes, séries de televisão e até de alguns professores bem-intencionados. Não tinha os mesmos preconceitos em relação à escrita dramática, por isso não tive de perder tempo desaprendendo maus hábitos.

    Curiosamente, o meu pai também escreveu peças quando era jovem, e eu sempre estive envolvido em teatro como intérprete, por isso, o teatro fazia parte da cultura da minha família. Não é que os meus pais fossem propriamente apoiantes da minha presença em palco, mas também não resistiam nem denegriam — o que, em minha casa, era o mais próximo de apoio que se podia ter. Ainda assim, nunca tinha escrito uma peça antes da universidade.

    Mais ou menos na mesma época em que escrevia, encenava e produzia peças, consegui pôr as mãos em Fernando Pessoa & Co., de Richard Zenith. Se não me engano, cronologicamente, terminei a minha primeira peça em 1997 e o livro do Zenith saiu em 1998. Estava há uma vida à espera de encontrar um livro de poesia portuguesa em tradução. Consigo ler português, mas muito mal, e nunca seria capaz de lidar com poesia ou prosa sofisticada com alguma fluência.

    

    Um dos meus cursos académicos é em teatro, e os outros, em literatura; por isso, estudei incontáveis autores europeus. A minha tese de doutoramento, por exemplo, foi sobre Henrik Ibsen. Na escola, estudei escritores de toda a Europa, mas nenhum de Portugal (ou de descendentes de portugueses). Nenhum! No secundário, lemos muitos autores da “lost generation” como Hemingway e Fitzgerald, mas não Dos PassosManhattan Transfer é um livro excelente, mas tive de descobri-lo sozinho. Ninguém mencionou que Emma Lazarus, a autora do célebre poema da Estátua da Liberdade, também era de ascendência portuguesa. E eu cresci num lugar cheio de portugueses; por isso, o que se passava ali? Porque é que passava todo o meu tempo a ler, sobretudo, escritores ingleses?

Não me interprete mal: ainda adoro muitos desses escritores; gostar ou não gostar deles não é a questão. A questão é que os escritores do país de onde vem a minha família foram praticamente apagados do currículo das minhas várias escolas. Ainda hoje, embora esteja muito melhor, o número de livros traduzidos para inglês é relativamente pequeno comparado com escritores de outros países. Foi preciso o Saramago ganhar o Nobel, em 1998, para as coisas começarem, finalmente, a mudar a sério.

    O livro do Zenith foi o que eu queria há tanto tempo. E o Pessoa, claro, é um escritor selvagem à partida, tornando as explorações de persona de poetas como Eliot e Pound em brincadeira de criança. As heteronímias de Pessoa conduziram-me indiretamente à ideia de escrever poemas de persona por meio da dramaturgia. Dessa forma, podia escrever sobre os temas que vinha explorando há anos, mas a partir de uma perspetiva mais distanciada. Eu ainda era um homem muito jovem quando comecei a escrever os primeiros poemas que viriam a constituir Fishermen. Os poemas mais antigos dessa coletânea datam de 1998, quando eu ainda estava no penúltimo ano da faculdade. Precisava de sair da minha frente, por assim dizer, e fiz isso criando personagens como fazia nas minhas peças.

    João Filipe — a voz de “Stonemasonry” — torna-se pedreiro, como o meu pai, e desenvolve, por assim dizer, toda uma metafísica em torno da construção e destruição de muros. Eu também tentava associar a cantaria a outras formas de conhecimento esotérico: o pedreiro como maçom ou outra espécie de sociedade secreta que diz guardar saberes ocultos.

    A voz do Filipe surgiu quase totalmente formada. Foi um daqueles raros momentos quase místicos de que costumo desconfiar. Não é que não faça espaço para o acaso; simplesmente não tenho paciência para o misticismo levado demasiado a sério. Parte do trabalho de escrever é estar aberto ao acaso, estar aberto à musa, por assim dizer, mas há uma diferença entre isso e ficar sentado à espera de que algo venha do nada. Se ficarmos à espera da musa a sussurrar-nos ao ouvido, como ainda é tão habitual nas dramatizações populares de artistas e escritores, nunca fazemos trabalho nenhum, ou, pelo menos, não muito...

    Uma das minhas obsessões da chamada “meia-idade”- middle age - é a ideia de ter os sonhos errados. Não sei como é nos Açores, mas na América a noção popular de sucesso é patológica. Ensinaram-nos a nunca desistir. Ouvimos esta frase, nunca examinada, em todos os contextos imagináveis. Há algum mérito nisto, claro. Não podemos queixar-nos de falta de sucesso se não nos dedicamos de forma suficiente ao trabalho duro de lá chegar; contudo, também há perigo nesta ideia. Se nunca desistirmos, aconteça o que acontecer, nunca poderemos distinguir as buscas que valem a pena das que devemos abandonar. Há uma diferença entre trabalhar arduamente e passar a vida a bater a cabeça numa porta fechada até ficarmos em sangue...

    A minha coleção de ensaios breves, The Quitters, lida com a ideia de falhar e desistir repetidas vezes, tentando mostrar como esse “nunca desistir” se torna uma ideia cancerígena, em vez de um caminho para o sucesso.

    Mas a minha primeira abordagem séria desta ideia deu-se com o Felipe. Ele debate-se com os seus muitos fracassos internalizados, alguns já ligados à sua queeridade escondida, que se tornaria um tema central anos mais tarde em We Prefer the Damned. Ele tem uma paixão por um novo heterónimo que inventei, o filho de Alberto Caeiro, o verdadeiro “guardador de rebanhos”. Quis acrescentar o meu heterónimo ao panteão do Pessoa. Foi a minha maneira de me situar na tradição literária do modernismo português. Com algumas referências a Camões e ao fado, foi uma das primeiras tentativas de me ligar a coisas portuguesas para lá da minha experiência pessoal.

    Curiosamente, a árvore genealógica, no início do livro, foi uma das últimas coisas a surgir. Não foi ideia minha, gostava muito que tivesse sido. Veio de um dos meus melhores amigos da altura, que tinha lido praticamente tudo o que eu escrevera até então. Percebi imediatamente que era a ideia certa. Colava tudo.

    Este livro demorou 10 anos do começo ao fim, e foi a minha primeira tentativa de pôr um pé nos Açores e outro nos Estados Unidos, como um colosso. E, como a estátua grega original, sabia que, quando tudo estivesse dito e feito, o mais provável era que só sobrassem uns pés desmembrados para marcar que alguém tinha estado ali, quem quer que fosse.

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  De Gávea-Brown, VOL. L, N.º 2, 2025. Tradução de Diniz Borges. Agradecemos à Gávea-Brown e ao seu diretor Onésimo T. Almeida por permitir que a plataforma Filamentos a publicasse.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental, 19 de dezembro de 2025

 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Parte de uma longa conversa em inglês com o escritor luso-americano Carlo Matos para a revista Gávea-Brown numa tradução de Diniz Borges

 

Como está a viver, enquanto escritor, a situação política e cultural atual nos Estados Unidos?

    Não creio que o surpreenda se disser que é um pesadelo. Custa-me acreditar que um país tão obcecado com a Segunda Guerra Mundial se encontre agora a descer na loucura do fascismo e do totalitarismo, mas uma parte de mim sempre soube que a narrativa superficial da democracia era apenas uma cobertura num bolo de racismo, guerra de classes e suposta supremacia branca. Um país “bem-sucedido” – o que quer que isso signifique – acaba sempre por cansar-se de si próprio e auto-devorar-se. Acordo todos os dias sabendo que haverá mais disparates para enfrentar e, de repente, tudo passou de absurdo a assustador, como suponho acontecer sempre nestes casos. É a pior espécie de paralisia, porque toda a gente sabe onde isto acaba e, no entanto, quase ninguém faz grande coisa. Quando actores e apresentadores de concursos se tornam figuras políticas, é sinal de que os dias estão contados. Fomos tão bons a criar repúblicas de bananas que, de alguma forma, acabámos por nos tornar uma. Há nisto um certo tipo de poesia, suponho. Pela primeira vez na vida, considerei seriamente obter a dupla cidadania e mudar-me para os Açores, mas é fácil dizer isso. A vida real é bem mais complexa do que fugir. Pensei muitas vezes em reformar-me nos Açores, mas falta pelo menos uma década para isso. Nos últimos cinco ou seis anos, tenho trabalhado no meu segundo romance, In the Alien Field. É um desvio em relação à maior parte da minha obra, na medida em que é a minha incursão na ficção especulativa. À superfície, é uma história de vampiros contra alienígenas, mas o livro não trata disso. O livro é uma fantasia utópica. Estou farto de distopias. Vivemos numa, por isso não sei que valor tem de continuar a repeti-las, sobretudo quando, no fim, a humanidade encontra sempre uma forma de se tornar a heroína. Se eu tivesse escrito Terminator ou The Matrix, não haveria sequelas, porque os humanos teriam perdido — e, com o que a IA está a fazer ao nosso mundo, ainda podemos perder essa batalha, custa-me dizer. O meu romance centra-se numa comunidade de vampiros chamada Bruxa. A sociedade bruxa é tudo o que eu desejaria que o nosso mundo fosse. É uma cultura não hierárquica, poliamorosa, areligiosa e bissexual, devotada à arte, à música, à filosofia e a todas as coisas desta vida que têm valor real. Chamam-se bruxas porque chegaram aos Açores com os portugueses. Assumiram traços culturais e linguísticos dos colonos e se escondem à vista de todos. No meu romance, são eles que fundam a povoação de Mosteiros, que, como sabe, é de onde vem a minha família. Estes não são os vampiros pálidos, sedentos de sangue, mortos-vivos sensíveis ao sol que vemos em filmes e livros. Estão bem vivos. Comem comida normal, reproduzem-se como a maior parte dos animais e não são repelidos por crucifixos, água benta ou luz solar. Sim, bebem sangue, e é o sangue que lhes confere imortalidade, mas é a única ligação à tradição dos vampiros a partir de Bram Stoker. Os alienígenas, por sua vez, também não são monstros. A sua característica definidora é ser silenciosa e inescrutável. Os aliens nem sequer conquistam a Terra no sentido convencional. Chegam e encontram o planeta devastado, em ruínas, pois uma praga global matou quase toda a humanidade. Fui profundamente influenciado pela pandemia quando comecei a escrever este livro. Os aliens limitam-se a aproveitar a oportunidade e iniciam um projeto para reparar os estragos causados pelos humanos no ambiente. Em meros 50 anos, transformam o planeta num paraíso natural, algo que as bruxas chamam de Renovação. Fazem-no para cultivar, num ambiente saudável, a sua planta misteriosa. As bruxas estão finalmente livres do medo de serem caçadas e mortas por humanos e vivem num mundo que já não se encontra permanentemente à beira do colapso. E os humanos? Há alguns, uma fração minúscula, que sobreviveram, mas trabalham nas quintas alienígenas, já sem serem senhores do planeta nem de seus destinos. O único motivo de conflito entre bruxas e alecrim (como chamam aos aliens) é o facto de as bruxas precisarem de sangue humano para manter a imortalidade. Não posso dizer muito mais sem revelar demasiado. Estou perto de terminar o livro e impressiona-me perceber quanta realização de desejo está ali. A cultura bruxa é o lugar onde eu pertenceria, mas não creio que exista, neste mundo, uma cultura assim. E o meu país afasta-se cada vez mais disso, tornando-se mais grosseiro, ganancioso, cruel, anti-intelectual e hipócrita. Sempre foi um lugar difícil para um artista, pois confunde o quanto algo rende com a qualidade, e sabemos que essa relação muitas vezes é inversa. Não digo que uma boa arte não possa fazer dinheiro – às vezes faz – mas quanto dinheiro algo faz não é medida de mérito artístico. É por isso que hoje há pessoas famosas por serem famosas, e não por fazerem ou criarem algo.

Vamberto, Alex e Carlo Matos
Quando fomos visitar (os Açores), o Alex disse que gostava do meu trabalho porque era sofisticado, tal como lhe afirmaste. Não tem ideia do que isso significou para mim. Acho de um cansaço extremo ser constantemente considerado – mesmo em críticas muito positivas – um escritor difícil, críptico ou obtuso. Não digo que explique tudo, porque não explico, mas o meu trabalho está bem longe de ser críptico. O meu filho adora The Quitters, por exemplo, e tinha 15 anos quando o leu. Senti que estava a ser dolorosamente óbvio em We Prefer the Damned, muito mais do que me agrada, mas isso não alterou a minha perceção crítica. As redes sociais pioraram isto porque o nível de “dificuldade” para o entretenimento popular é hoje ainda mais baixo. Os criadores sabem que estão a falar para um público provavelmente ao telemóvel, por isso reduzem tudo a pedacinhos digeríveis, para que o espectador distraído não perca o fio. O que se ganha, para além de uma simplificação perturbadora, é um diálogo que, basicamente, volta a dizer o que a imagem já mostra. É como ver um filme ou uma série numa câmara de eco. Torna-se rapidamente tedioso, a interatividade perde-se, o envolvimento intelectual esvai-se e os efeitos emocionais são superficiais. O problema do meu romance, além de oscilar de forma perigosa entre obra literária e ficção especulativa, é que a minha única resposta ao nosso dilema é a humanidade praticamente se extinguir. Não é solução nenhuma. Talvez nem seja particularmente produtivo; não sei.

O que torna tudo isto tão enlouquecedor é o facto de ser completamente desnecessário. Não há, agora, nem há muito, qualquer justificação para a disparidade de rendimentos que está na raiz de tantos dos problemas que enfrentamos. Não há razão para trabalharmos tanto. Não há razão para inventar todos os cargos administrativos desnecessários para manter um sistema que já não funciona. Quando os industrialistas rasgaram as promessas feitas aos trabalhadores, ao confiscarem para si os ganhos da mecanização, condenaram-nos a esta farsa ridícula. À data de hoje, devíamos todos estar a trabalhar um mínimo de horas e o resto do tempo a viver experiências significativas, enquanto a IA e as máquinas tratavam do grosso. Mas, quando a imaginação se empobrece, esta ideia pode ser mais assustadora do que trabalhar até cair. Caso contrário, não entendo o que estamos a fazer – e provavelmente nunca entenderei.

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De Gávea-Brown, VOL. L, N.º 2, 2025. Tradução de Diniz Borges. Agradecemos à Gávea-Brown e ao seu diretor Onésimo T. Almeida por permitir que a plataforma Filamentos a publicasse.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental, 12 de dezembro de 2025.

 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Outras vozes sobre Ponta Delgada

O turismo obriga a uma afirmação de identidade que a cidade, no fundo, ainda procura.

Pedro Arruda, (Re)Imaginar Ponta Delgada



    Não vou aqui escrever sobre a atual questão do turismo quase em massa nas maiores ilhas dos Açores, com São Miguel a receber todos os anos centenas de milhares de visitantes chegados cá de várias partes do mundo, juntamente com os nossos emigrantes, principalmente da América do Norte. O 7º volume da Avenida Marginal, que tem vindo a ser publicados pela Artes e Letras da Livraria Solmar, é o seu maior volume até hoje. Discute o fenómeno do turismo, e vai ainda muito mais além quando aborda o que cada um dos seus intervenientes escreve no que Pedro Arruda, o coordenador do presente livro, resume na sua introdução juntando as suas temáticas no que resulta uma original narrativa sobre a maior cidade dos Açores, sem nunca a colocar em vantagem ao resto do nosso arquipélago apesar de Ponta Delgada ser a maior e o nosso mais dinâmico centro populacional. A questão da identidade de que ele nos fala – ou alerta – junta-se ao seu cosmopolitismo e à recusa de qualquer sentimento restritivo a todos que nasceram ou optaram por se fazerem parte integral da nossa sociedade, agora em ebulição, que ora é saudade, que ora é criticada por razões, digamos, de ordenamento ou necessidade de se reajustar a uma população felizmente diversa em termos de nacionalidades cá presentes, ou dos constrangimentos e avanços que inevitavelmente certo progresso nos traz. Como em volumes anteriores, este recomenda ainda mais a civilidade que agora convive com mais problemas humanos e estruturais no seu todo. Cabe ao leitor descobrir estas paginas tão serenas como preocupantes nas esferas principais das nossas vidas, da cidade a reinventar-se enquanto lida com o bem estar de todos por entre o que preocupa alguns dos escritores aqui presentes. A minha intenção aqui é outra: a celebração de um grupo de ensaístas que difere saudavelmente em idades e mundividências numa cidade à beira do grande mar que se tornou desde há muito a sua passadeira na ultrapassagem dos horizontes que outrora nos fechavam na nossa pequenez e na angústia da nossa sobrevivência. Pedro Arruda fala da nossa já longa história, desde Gaspar Frutuoso, a questão, uma vez mais, da identidade, que ao longo dos séculos até aos nossos dias foi fluida, e agora apresenta-nos alguns dos outros pensadores nossos conterrâneos, e que pensam não a sua pessoa mas toda a coletividade do seu, do nosso, quotidiano e convivência, e ainda a articulação da cultura com toda a sociedade.

    “(Re)Imaginar Ponta Delgada – escreve Pedro Arruda na sua introdução dos variados textos seguintes – foi o repto lançado, neste volume, a todos os que nele colaboraram e aos que o lêem. Repensar a cidade e o seu papel. Os desborderafios e as aspirações de uma cidade e o seu papel. Os desafios e as aspirações de uma cidade atlântica e insular no século XXI. Convidámos, para isso, um conjunto vasto e diversificado de colaboradores: historiadores e médicos, escritores e professores, académicos e artistas, empresários e jornalistas, juristas e arquitetos. Uma pluralidade de vozes que quisemos que fosse, também ela, expressão de uma característica distintiva da cidade: o debate, a controvérsia, a troca de ideias. Recusando os unanimismos fáceis e procurando sentir, nessa divergência convergente, o verdadeiro pulsar da cidade”.

    

Pedro Arruda

    P
ara mim, ler este livro plural nas suas ideias, e até nos seus sobressaltos na diagnose das suas maiores ou menores dificuldades e promessas por cumprir, foi uma viagem de (re)descoberta no que eu próprio pensava, e ainda do que nunca tinha pensado ou visto, mesmo nos meus olhares menos atentos ou distantes. Entre a minha casa em São Roque e a cidade aqui ao lado já tinha deixado até de notar o próprio mar ao meu lado e o caos de estrada em que tudo se havia tornado ao longo dos anos, focado na minha mente essencialmente literária e sentimentos de saudades do que tenho vivido desde a minha viagem definitiva e conclusiva dos Estados Unidos para cá em 1991. Já tinha deixado de falar ou de pensar no que muitos à minha volta consideram agora degradação e confusão, motoristas desatentos e agressivos, serviços cada vez mais difíceis e de pouca atenção, esplanadas sobrecarregadas e domínio de outras línguas. Vindo da grande Los Angeles para Ponta Delgada só me podia e me posso sentir privilegiado. A cidadania toma formas diferentes: um buraco na estrada já não me incomoda, o turista a atravessar a passadeira a falar ao telefone, ou a demora do empregado de mesa que serve primeiro o outro que lhe poderá compensar muito melhor do que eu também não me consume. Ao ler este Avenida Marginal reconheço todos os reparos, admiro as sugestões, partilho a saudade do outro futuro que demora a chegar. Tem aqui ensaios que são pura literatura, como tem alguns que são os mais autênticos atos de cidadania através da palavra bem colocada, do pensamento sempre construtivo e a expressar o desejo de nunca perdermos a cidade às dimensões da ilha, à promessa da sua história, ao dever que deve ter perante qualquer cidadão cá nascido ou que decidiu fazer de Ponta Delgada e dos seus arredores mais próximos ou longínquos um outro chão do seu destino, da sua felicidade, da tranquilidade que lhes faltavam nos grandes centros metropolitanos mundo afora.

    São 14 as vozes que, como outros antes deles, tentam “redifinir” Ponta Delgada. Muito para além das cansativas estatísticas são as suas claras e significantes linguagens que nos transportam uma vez mais a repensar a nossa cidade, as nossas ilhas, o nosso lugar numa geografia única do Atlântico. Nenhum destes textos é um manifesto ou coisa que se pareça, tão só, e é muito, permitem-nos acompanhar a realidade ou a mítica de uma antiga urbe que tem sabido sobreviver a todas as tempestades, a desfrutar dos seus dias de sol e paz, a viver a normalidade (crescentemente problemática, como em toda a parte) cumprimentando os que por nós passam, admirando o milagre rodeado de mar por todos os lados e um pouco adiante a terra que durante séculos foi o nosso alimento, a nossa salvação – e a nossa partida sem raiva nem remorso para terras distantes, que não nos afastaram das origens nem da vontade de regressos múltiplos. Este é outro livro não só da memoria como é também um memorial, ofendido por vezes, sem nunca rejeitar a nossa identidade e a fundura das nossas raízes. Ninguém critica o que não ama, ninguém repara o que deseja ser um cultivo mais ameno e rico do seu terreno, do seu mar, dos seus sonhos ou do que todos nós, nascidos cá ou não, desejamos um outro futuro, sem mágoa pelo passado. É disto tudo que o mais comovido pensamento humano deseja para toda uma comunidade, seja ela residente ou no além-fronteiras.

    Uma última palavra. A capa de (Re)Imaginar Ponta Delgada é genial. Da autoria da artista Andrea Santolaya, a fotografia vem a preto e branco, num dos sítios mais reconhecidos para quem sabe da sua cultura literária, de biografias improváveis mas reais. O Campo de São Francisco e o banco onde se suicidou um dos maiores poetas açorianos de sempre, Antero de Quental. Como sabem, bem na parede atrás ainda permanece o dístico original que diz simplesmente “Esperança”. a parede do que foi um venerado convento. Olhar este espaço nesta capa muda toda a nossa interpretação – a que vai da verdade, alegria e futuro da vida sobre a finalização da morte.

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(Re)Imaginar Ponta Delgada: Avenida Marginal - Ensaios (coordenação e introdução de Pedro Arruda), Artes e Letras, Ponta Delgada, 2025

No BorderCrossings do Açoriano Oriental, 5 de dezembro de 2025.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

José Rodrigues Miguéis revisto e tornado vivo


Mas a verdade, no caso de Miguéis, é que são os seus livros que refletem a sua psicologia, idiossincrasias e personalidade…

Teresa Martins Marques, Nos Passos De José Rodrigues Miguéis: Uma Biografia Como Um Romance



    Este volumoso livro de Teresa Martins Marques, José Rodrigues Miguéis: Uma Biografia Como Um Romance não tem par entre nós, e creio que nas outras línguas que me são familiares, pelo seu estilo, pela sua forma, pela audácia literária de voltar a contar uma vida que combina a “verdade” de um dos maiores escritores portugueses do século passado com a imaginação de um romance feito de diálogos, quase todos documentados com uma interlocutora com quem ele partilhou a sua experiência em Manhattan, que já tinha durado mais de trinta anos. A grande cientista portuguesa, Maria de Sousa, também falecida já em Portugal durante os anos da pandemia Covid (uma outra ironia porque a sua especialidade era isso mesmo, pandemias ou doenças associadas), devolve-nos alguns dos segredos de um dos mais originais autores nossos, tanto na ficção como em escrita-outra. É necessário aqui relembrar que Teresa Martins Marques, ela própria ficcionista e ensaísta de maior projeção entre nós e outros, haveria de ser e é uma das suas biografas mais conhecedoras da obra de Miguéis, aqui e no estrangeiro. Direi mais disso um pouco mais adiante. Basta por agora relembrar que esta sua obra segue uma outra e primeira biografia de Mário Neves, José Rodrigues Miguéis: Vida e Obra, publicado em 1990.

    


    J
osé Rodrigues
Miguéis foi um dos nossos mais irrequietos escritores em Nova Iorque, depois da sua vivência na Bélgica e em Lisboa, aonde nasceu e se tornou numa das nossas inevitáveis e louváveis referências. Teresa Martins Marques tinha escrito muitíssimo sobre o autor, como haveria de dirigir a republicação da obra completa de Miguéis no Círculo de Leitores em 1994-1996. Miguéis foi a voz que nunca deixou de viver Portugal até à sua morte em 1980. Viveu a América por inteiro sem nunca por um dia deixar de lembrar Portugal, especialmente a sua Lisboa de nascença e das suas obsessões quase psiquiátricas, o que também fez dele o escritor genial que sempre foi. Teresa Martins Marques inclui aqui todos os pormenores e credenciais académicas da sua vida dentro e fora do país natal.

    A sua relação com as suas origens, no entanto, tal como é abordada nesta suprema biografia, nunca deixou que convivesse como exilado naquela grande metrópole, em parte determinada pelas suas ideias políticas ante o Estado Novo. Dedicou-se a intervir quase todos esses anos com esclarecimentos e opiniões entre os nossos próprios imigrantes na Nova Inglaterra ali por perto, escreveu nos jornais das nossas comunidades circundantes, e foi o primeiro grande escritor que retratou a vida dos que haviam escolhido o longe para sua a sobrevivência, como nos contos Gente da Terceira Classe, assim como na maior parte da sua própria ficção, aludindo não ao estatuto de outros imigrantes mas ao modo marítimo nos barcos em que tinham lá chegado. Miguéis, para além do que aqui já foi dito, pouco conviveria com essa sua gente na imigração americana, que tanto poderiam ser portugueses ou luso-americanos e outros das mais diversas geografias que ainda não eram perseguidos e mal-tratados Nos Estados Unidos como hoje. Nunca se tratou da sua ideologia política, mas sim da sua profunda humanidade e cumplicidade, por assim dizer. Casado, mas sempre num quotidiano solitário, sempre só ou com uma neta a passear-se na no Central Park, e nas outras ruas citadinas da maior ebulição mundial. Nova Iorque passou durante de mais de 30 anos a ser a sua residência permanente. Portugal era a pátria que tanto o desgostava como o comovia. As suas conversas com Maria de Sousa eram sobre o seu estado de vida binária, como que a dizer: nem de cá nem de lá, ou melhor de outras referências, verdadeiramente multinacionais, para além de esporádicas visitas ao nosso país.

    As minhas atitudes públicas prejudicaram – diz Miguéis à sua interlocutora em Nova Iorque – o meu desenvolvimento profissional e literário. À parte ocasionais convites para conferências, sobretudo em institutos hispânicos, senti-me alheado dos departamentos das universidades que, apesar de não me atraírem então grandemente, seriam o lugar natural para o meu avanço literário. Pensei muito sobre tudo isso. Vejo-o quando leio manuscritos desse tempo. Tenho aqui um, datado de 12 de Setembro de 1945”.

    A prosa contundente de Teresa Martins Marques é, como que num outro “romance” de um escritor/a maior, tal como foi José Rodrigues Miguéis. A sua voz mistura-se nestas brilhantes páginas com outras visões da sua própria vida, ora recebendo palavras simpáticas ou compreensíveis, ora reparando e por vezes testemunhando a sua instabilidade interior, a saudade do nada e de tudo, desde a casa e ruas do seu nascimento e da sua infância aos que com ele anos depois o contactavam regularmente sobre livros e a sua publicação em Lisboa, com José Saramago como interlocutor e colaborador direto na sua editora da época. A autora desta biografia leva o leitor fascinado de página em página, recordando os títulos de toda a sua grandiosa obra, desafiando tanto os que já o tinham lido mas levando-nos a outras interpretações, desafiando os que tudo isto desconheciam a uma outra redescoberta. Teresa Martins Marques relembra-nos que Miguéis, na sua própria ficção, era o seu primeiro “biógrafo”. Tudo o que tinha vivido e viveria acabaria por ser, insinuado ou redito diretamente noutros dos seus livros, como Um Homem Sorri à Morte Com Meia Cara, que viria a ser traduzido por George Monteiro sob o título A Man Smiles At Death With Half A Face. É um exemplo perfeito desta capacidade autobiográfica e dos seus momentos mais angustiantes.

    Teresa Martins Marques combina nesta prosa a sua quase incrível capacidade de juntar a ensaísta à ficcionista de A Mulher que Venceu Don Juan e, mais recentemente, Não Matarás. A obra presente de Teresa Martins Marques sobre José Rodrigues Miguéis, repita-se, ao quebrar com todos os cânones biográficos, apresenta-nos um livro absolutamente original e de leitura compulsiva a qualquer leitor dedicado à grande literatura do mundo, à literatura do autor biografado e a si própria, um feito literário nunca escrito entre nós.

Nos Passos De José Rodrigues Miguéis foi prefaciado, com toda a justiça e propriedade, por Onésimo Teotónio Almeida, que convidou José Rodrigues Miguéis três vezes para conferenciar sobre a sua própria obra na Brown University, o que ele sempre rejeitou, não por falta de competência – nem de vontade, creio eu – mas sim pela sua humildade e não reconhecimento próprio da sua grandeza dentro e fora dos Estados Unidos. Que hoje, em Portugal, este autor esteja mais ou menos esquecido, é quase inacreditável para quem ainda sabe do que significa para um pequeno país a sua melhor, a sua grande literatura.

    A Teresa Martins Marques mais um obrigado, assim como à Âncora editora, que teve a coragem e a dignidade de publicar este livro, finalmente devolvendo-nos o grande autor às novas gerações e a muitos dos que aparentemente já o haviam esquecido.

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Teresa Martins Marques, Nos Passos De José Rodrigues Miguéis: Uma Biografia Como Um Romance (prefácio de Onésimo Teotónio Almeida), Âncora editora, Lisboa, 2025.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental, 28 de novembro de 2025.

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Ricardo Barros entre a ficção e as suas memórias


Há vinte e quatro anos afastei-me das águas frias de Leixões, rumando a São Miguel…

Ricardo Barros, Árvore Anciã


    Eis aqui uma das metáforas mais significantes – “árvore anciã” – quando nos lembramos das nossas origens e da saudade dos que nos foram morrendo mas nunca esquecidos. Ainda hoje quando me lembro da casa dos meus pais, é precisamente de uma dessas árvores menores que eu trepava no nosso jardim e me escondia dos meus amigos e colegas da escola primária nas Fontinhas, desafiando com pouca coragem quem passava em frente e me tinha ora aborrecido ora demonstrando toda a amizade, tudo o que se torna doce e eterno. Ler este livro de Ricardo Barros, natural de Matosinhos, trouxe-me de volta o que agora só existe na minha imaginação, que poderá estar um tanto distorcida mas que para mim, como para o autor deste belo livro, são as lembranças que nos dão certa “identidade” até ao fim, que definem a nossa pessoa por entre toda uma caminhada ao longe enquanto tentamos, só tentamos, ser igualmente parte do nosso mais íntimo e verdadeiro ser. Este é o primeiro livro do autor, mas parece que ele sempre escreveu mesmo que só agora publique com a dúvida natural sobre sua prosa, ou de como seria lido por desconhecidos leitores. Não vou reproduzir nesta linhas a sua biografia, basta dizer que ele é um artista plástico formado em Artes Visuais pela Escola Superior de Artes e Design, presente nos últimos anos em exposições um pouco por toda a parte, e atualmente professor nesta área na Escola Secundária Antero de Quental aqui em Ponta Delgada.

    Esta nota inicial tem a sua razão de ser. Um pintor de quadros e artista de design tem em si necessariamente o que também muito interessa à grande escrita: o sentido do pormenor, que por mais escondido que esteja nas suas palavras torna a arte literária o que poderiam ser apenas palavras de significado avulso, uma mera redação de memórias ou notas para escrita futura. O que acontece nestas páginas é bem diferente e com impacto inesquecível no leitor. Pode o autor chamar contos a Árvore Anciã, mas uma leitura sequencial dá-nos a verdadeira natureza da sua narrativa, que é completa de capítulo em capítulo como um romance na sua evolução da primeira à última página. Ricardo Barros é o narrador na primeira pessoa no que poderemos, com toda segurança, considerar memórias e ficção – a memória é sempre uma reinvenção, quer o próprio autor se conta disso ou não. Está ainda entre esta espécie do que Vladimir Nabokov intitulou um dos seus livros Speak Memory/Fala Memória, o juntar do passado nas penumbras de certo esquecimento agora tornado de novo “realidade” na criatividade das palavras que em conjunto devolvem ao escritor e ao seu leitor um outro mundo inteiro, uma outra vida a um tempo estranha e familiar. A literatura dos nossos dias demarca-se por esta liberdade de géneros linguísticos, temáticos e metafóricos interligados.


    Á
rvore Anciã
faz-me lembrar muita outra literatura, especialmente a norte-americana. No centro são sempre as nossas famílias ancestrais e os descendentes das nossas vivências na terra-pátria, aldeia, vila ou cidade, como é o caso de Ricardo Barros em Matosinhos, e, uma vez mais, há alguns anos em São Miguel, aonde se reencontra consigo próprio enquanto vão para o além os seus mais queridos, os que o formaram como jovem e homem adulto. Relembra-os, todos estes os seus anos de infância e juventude, os mais velhos até aos dias de hoje, os momentos que na altura poderão ter passado como banais ou de meras ocasiões no dia a dia. A memória “recria-os” eventualmente dando lugar ao sentido mais profundo da sua atual existência, a sua mente clara e sã conjuga-se com estados quase psiquiátricos por sentidas culpas diversas, por querer que o passado não o foi, tudo o que determina a sua presença nos seus dias em ilha, no meio de um mar de distâncias que assim mesmo se assemelha ao das suas origens no continente natal, nas ruas da sua alegria e aventuras. Trata-se aqui de uma prosa que devo chamar de calma e também de dúvida e de certa insegurança natural de quem nunca deixa de sentir de ser um outro, quer perante quem convive e ama quer perante os que lhe falam em linguagens de imediato reconhecidas mas sempre um tanto estranhas. O que ele escreve sobre os da sua atualidade açoriana eu poderia escrever sobre a minha. Cada ilha açoriana, disse-me um dia Dias de Melo, é um “continente”, e cada uma delas cultiva a sua própria ideia do mundo, a sua própria linguagem e modos de ser e estar.

    Acautele-se! – sussurra-me um colega, sentado ao lado, pousando a mão no meu ombro. Os micaelenses – escreve o autor já a findar a sua narrativa – são exímios criadores de mitos. Não sabia? Ah, pois são. Tratam-se como deuses e reduzem a pó quem ousa rivalizar.

    Sempre soube que em pequenas comunidades o endeusamento mútuo é uma prática vulgar. Mas outra coisa era ouvir tal confissão da boca de um açoriano. Isso, sim, deixou-me perplexo”.


    C
omo eu conheço isto em todas as nossas ilhas. É, no entanto, em qualquer
uma dessas ilhas que nos sentimos em casa. Ricardo Barros há muito que faz parte destes criadores de mitos, daquilo que alguns cientistas sociais já chamam a “genética da comunidade”. A beleza da literatura raramente nasce da realidade, seja isso o que for. Nasce das perceções que cada escritor desenvolve do modo mais subjetivo dos lugares de nascença e dos que escolhe para viver, por vontade ou circunstâncias de vida, e toda a sua arte pictórica ou escrita não pode fugir a uma mente plena de memórias ou experiências vividas em direto. No que por vezes nos parece uma mera condição pessoal pode, em primeiro ou segundo lugar, uma questão de ver e saber ouvir as vozes que nos condicionam em tudo na vida quotidiana. É disso e nisso que se desenvolve a desusada narrativa de Árvore Anciã, numa linguagem que escorre da clareza do pensamento e dessas visões memorizadas dos começas da nossas vidas, ou do mesmo modo das vivências em geografias-outras que aos poucos passam a ser nossas.

    Esta narrativa de Ricardo Barros é feita tanto de um certo realismo, passe o paradoxo, como de metáforas de uma vida sempre em ebulição e em busca da difícil tranquilidade interior, solitária, mesmo que em companhia de quem se ama e nos ama. Há aqui a dada altura a imagem aterrorizadora de um cargueiro afundado com a proa à superfície do mar à beira de Matosinhos. Brilhante na sua descrição, e ainda mais nos olhos tristes dos que o olham na saudade de desconhecidos, no medo que do inesperado, na consciência de que ninguém está salvo de afundar em terra ou no mar. Na sua chegada à ilha o autor olha o ilhéu de São Roque na sua altivez natural a mirar um além indiferente à sorte de todos. O destino em silêncio ou em tempestade, o princípio e o fim do mundo em pedra e água.

    Como num dos capítulos de Árvore Anciã, nem sempre o filho pródigo regressa a casa – e nem a felicidade ou tragédia são certas nas partidas e muito menos nos regressos.

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Ricardo Barros, Árvore Anciã/Contos (prefácio de Joaquim Queirós), Ponta Delgada, Letras Lavadas edições, 2025.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental de 21 de novembro de 2025