sexta-feira, 10 de julho de 2026

De Lara Gularte, ou como o longo passado se torna a viagem do presente

 


She collects them one by one/black stones on a black beach/and wonders if her future/can be lived out of the past.

Lara Gularte, Soul Of Blach Stone: Echoes Of Islands, Shadows Of Time



    Já escrevi sobre a poesia de Lara Gularte há uns bons anos, nomeadamente sobre os seus primeiros livros de poesia Kissing The Bee e Fourth World Woman. Que é uma das nossas melhores poetas da diáspora nos Estado Unidos vem agora confirmado no presente livro da Bruma Publications/Letras Lavadas. Diniz Borges tem feito o que nunca de nós teria feito nas décadas passadas, nunca esquecendo o início destas publicações luso-americanas do projeto ainda vivo da Gávea-Brown, tanto através sua revista fundada em 1980, como logo a seguir na publicação de alguns livros açorianos e da diáspora, em português e em inglês. O trabalho atual que começou há poucos anos através do Portuguese Beyond Borders Insititute da Califórnia State University, em Fresno, é também colossal e quase sem par na América do Norte, envolvendo outros como a maior editora açoriana, Letras Lavadas. Esta minha introdução visa contextualizar o que se passa entre nós na atualidade. “O território não é o mapa”, nas palavras de Simone de Beavoir um dia citadas pelo também grande poeta Emanuel Jorge Botelho. É a confirmação da grandeza da literatura que sai das ilhas e da diáspora em duas línguas, que sai das mais distantes geografias, que sai das primeiras e seguintes gerações nascidas longe mas cujas temáticas e memórias nunca nos deixaram nem deixam. Lara Gularte é uma escritora que insiste neste legado de séculos de viagens para fora e para dentro. Pode tudo isto não ser original quanto a descendentes de várias outras origens, mas tem sido a partir da segunda metade do século passado um ato extraordinário na sua insistência e qualidade superior. Os Açores têm uma dupla história na sua literatura: a portuguesa e a norte-americana. Tentar fugir desta realidade será fugirmos de nós próprios.

    É da poesia de Lara Gularte de que falo neste momento. The Soul Of Black Stone contém poemas originais e inclui outros que foram selecionados das obras anteriores mas que se encaixam perfeitamente neste seguimento literário de memórias, e, muito mais do que isso, no fazer renascer imaginado de todos os que a antecederam desde o século XIX até à sua condição nunca esquecida, como no caso e Lara Gularte, descendente açoriana de quarta geração. É uma poesia que torna a saudade dos seus que ela nunca conheceu tal como revive os que lhes foram os mais diretos do seu sangue pessoal e comunitário. A sua poesia é tão americana como é portuguesa. Revisita as ilhas como revisita o resto do país. Não é um nacionalismo bacoco em qualquer caso, é só o seu descobrimento da história que a leva através de todo o Atlântico às suas raízes de felicidade e dor. Lara Gularte não é de choro de vidas perdidas, é do seu embate consigo própria e da imaginação que persiste para além do que ela supõe ser os factos da sua vida – da nossa vida em viagem perpétua entre a realidade e a alma. Lara Gularte não quer estar só no presente, convoca tudo de que se lembra, ou imagina lembrar-se à beira de uma sepultara ou na presença das ilhas de onde saíram os seus em tempos já muito longínquos: Flores, Pico, Faial. Só assim ela se reencontra consigo própria. No muito que nos diz, relembra-nos a nós todos quem fomos e quem somos. O confronto com a sua identidade mista não é um gesto de nostalgia, é um gesto que lhe requer a reconstrução do seu próprio ser, a identidade sempre redefinida conforme o seu estado de espírito e a capacidade para se rever entre um longo passado ancestral e o seu quotidiano que nunca fica longe das origens distantes. Soul Of Black Stone é uma poesia da felicidade e da dor dos que nunca conheceram tudo isto, ou agora em direto mas que nunca foram esquecidos na vida e na morte. Sabe da sua história, como sabe, e muito bem, da geografia de onde partiram e da sua sorte num vasto continente onde cultivaram a terra, guardaram animais, procuraram ouro, e faleceram com a dignidade de missão cumprida.

    Lara Gularte faz desta poesia, uma e outra vez mais, a viagem às suas ilhas açorianas de referência. Faz da nossa natureza uma metáfora, não de tragédia mas de memória da vida atuante, da beleza como símbolo da sua gente, feliz ou infeliz. O mar dos Açores não é a ameaça que sentimos de quando em quando, foi a brava passagem do nosso destino. Mesmo em Lisboa reconhece a resiliência do povo de quem ela faz parte, pode ser uma catedral, pode ser o Tejo de onde navegamos para reconstruir todo um novo mundo, pode ser ainda a homenagem mesmo aos que nos deram outro princípio de vida mais ao longe de um arquipélago que quando descoberto ninguém tinha, mas onde viríamos a recriar toda uma sociedade que se tornaria num futuro diferente e, do mesmo modo, aventureiro. Reclamam-o para si, reclamam-o para todos nós nesse passo do nada até ao hoje de tudo. Para Lara Gularte, nascida no norte da Califórnia, os Açores são-lhe casa, a sua gente é a sua gente em duas línguas, entre ilhas e continentes: “They go back down the road/the way they came/Here is home, they say”. Eis o retorno a casa, às ilhas da sua ancestralidade, à sua identidade, talvez indefinida mas ironicamente segura, o mencionado território sem mapa, e com tudo que fez e faz vidas múltiplas em dois lados do mar nunca separadas, em falares nunca em conflito.

    Lara Gularte cultiva todas as formas da poesia livre. Dois versos, versos alongados. Todos com a força da palavra sempre colocada no seu lugar. Para a citar é um problema para mim, tal a sua contundência poderosa das suas palavras. Nela me revejo na própria experiência de imigrante no Vale de São Joaquim durante um ano e pouco, tal me revejo na urbanidade da grande Los Angeles e Orange County. Leio-me nela como leio a minha vida repartida. Leio-me nela como leio a minha própria vida nos meus momentos mais pensativos. Leio-me nela como leio todo o meu povo entre duas lealdades linguísticas, entre as duas lealdades nacionais. Lara Guarte escreve sobre as nossas ilhas e a América como eu as vivi e vivo – para sempre. Isto não é uma poeta que fala só de si. Fala de mim, fala do nosso povo, fala da nossa história. Como uma sinfonia – a euforia da vida, das suas tristezas, das nossas inseguranças, dos nossos medos e das nossas alegrias de (re)encontros. Soul Of Blach Stone? Sim, a alma de se estar só nas ilhas e na América. Mesmo na companhia de quem nos ama, mas nunca viveu exílios. É isso a poesia de Lara Gularte. Acompanha-nos mas sempre na falta de qualquer coisa que não nos pertence por inteiro. Só que é parte de nós, e será eternamente. Levaremos connosco todo o passado – é a condenação universal a que ninguém escapa.

    Soul Of Black Stone: Echos Of Islands, Shadows Of Time não é só um grande livro de poesia. É uma narrativa que conta parte da história dos Açores e da nossa vida simultaneamente doce e dura nos Açores e nas Américas. Lara Gularte nasceu lá e vive toda a caminhada na sua terra de nascença. Só que os Açores, Portugal no seu todo, são sempre uma pátria sua. Sem sentimentalismo. Só com a consciência e saber da sua e nossa história.

Lara Gularte, Soul Of Blach Stone: Echoes Of Islands, Shadows Of Time, Ponta Delgada, Bruma Publications/Letras Lavadas, 2026.


No BorderCrossings do Açoriano Oriental, 10 de julho de 2026



terça-feira, 7 de abril de 2026

Sobre literatura e a diáspora na voz de Diniz Borges


In central Califórnia, on the outskistrs of Tulare – a city twinned with Angra do Hiroísmo since 1966 – where I grew up/ No centro da Califórnia, nos arredores de Tulare – a cidade irmã de Angra do Heroísmo desde 1996 – em que eu cresci e me fiz homem.

Diniz Borges, The Infinite Blue

O mais recente livro de Diniz Borges, The Infinite Blue: Stories, Reflections and Essays from the

Azorean Diaspora é de longe o melhor livro em Inglês de ensaios sobre a história e experiência da nossa diáspora na América do Norte. O subtítulo diz tudo tudo o resto: “Histórias, Reflexões e Ensaios”. Finalmente, a nossa primeira geração imigrada nos Estados Unidos começa a escrever brilhantemente em Inglês para passar a palavra da nossa épica imigrante aos já nascidos lá, os que nos seguem e continuam a ter a sua ancestralidade portuguesa como outra das suas referências de vida e sorte. Este não é apenas um livro de ensaios. É um livro em cujas páginas escorre dor e felicidade: a literatura e histórias nos seus diversos géneros como testemunhas do que fomos aqui nos Açores e do que somos nesse outro longínquo lado do Atlântico que nunca nos separou, que foi sempre o nosso caminho para a salvação em tempos de miséria e da inconsciência ou mesmo brutalidade de elites regionais e do restante país que nem nos via partir em choro nos miseráveis cais de embarcar em navios e depois em aviões que nos transportavam na nossa dor, e da dessa partida que então era traumatizante, mas com a calma magoada e de coragem. A maior parte dos que nos governavam nessas épocas de lama nas ruas e na alma nem nos viam partir, estavam no seu conforto herdado, que nunca do seu trabalho. Os Açores têm uma dupla história: portuguesa e americana. O milagre é que os voluntariamente expulsos tudo perdoaram e perdoam ainda hoje, e com a passagem dos anos a ajudar desde sempre o bem-estar desses senhores e senhoras que se passeavam nas nossas ruas mais finas e em noutras geografias de bem-falantes. Cada imigrante nosso que aterra hoje nos Açores anualmente nem imagina como mantém os seus antigos e novos exploradores. Nós fomos e somos a fonte maior da sua riqueza porque nada já devemos, para além da nossa lealdade às nossas origens e à terra do nosso amor – cá e no outro lado que foi sempre o nosso destino.

    The Infinite Blue, para quem não saiba, quer simplesmente dizer O Azul Infinito. A seguir vem o subtítulo Stories, Reflections and Essays from the Azorean Diaspora. Sim, é uma homenagem à nossa terra natal, como é uma visão das nossas comunidades em movimento para além dos Espírito Santo e respetivas sopas. A literatura, as reflexões e os ensaios neste livro contradiz em tudo ou quase tudo o que tínhamos pensado sobre a nossa vida na América do Norte. Trabalhadores braçais, sem dúvida, e a seguir veio a geração que nos diz, que nos engrandece nalgumas das melhores páginas na sua língua natal, a do país aonde nasceram. Romances, poesia, ensaios, testemunhos nos mais variados contextos deram e dão-nos as “notícias” da nossa da nossa infelicidade e felicidade. A literatura imigrante modernista que começa nos anos 90 abre uma larga brecha que continua sem parar tanto nos Estados Unidos como no Canadá: quem somos, de onde viemos, como vivemos e sobrevivemos. No trabalho que vai desde ordenhar as vacas de outros como nas entradas nas melhores faculdades da Califórnia. Diniz Borges relembra o seu passado e os seus mais próximos, para adiantar com a literatura, especialmente já na língua dos nossos primeiros imigrantes e dos seus descendentes, que continuam a contar as histórias das ilhas e no grande país para onde foram os seus antepassados. Mais ninguém, entre nós, tinha feito isto. Um livro na língua dos nossos descendentes para que nunca se esquecessem. A literatura como memória, o seu pensamento parte da partida para a nossa integração equilibrada na nova sociedade sem nunca magoar o nosso próprio ser.

    

    Os escritores que Diniz Borges cita neste seu livro são muitos, o que me deixa constrangido em nomeá-los todos. A grande literatura modernista luso-americana começa nos anos 90, tanto nos Estados Unidos como, mais tarde, no Canadá. Abro aqui necessariamente uma espécie de parênteses. Desde Katherine Vaz na Califórnia até Anthony de Sá e Erika de Vasconcelos em Toronto, algumas dessas supremas obras traduzidas no nosso país. A nossa literatura em língua inglesa nada fica a dever à melhor literatura portuguesa, cujos chamamentos temáticos nunca deixam de absolver a nossa história, a nossa “condenação” e alegria à descoberta de novos mundos e vida. A desatenção da crítica portuguesa é o que é – nada. A sua arrogância, que se fica quase sempre por questões teóricas que pouco significam, dizem, ou repetem, o pior da crítica da crítica vinda de Paris, logo amigalhada pela crítica académica nalgumas faculdades norte-americanas. Perda deles. Nunca a perda da grandeza desta nova literatura da dita portugalidade noutra língua. Bem sei que são “universalistas”, só o vizinho é que fica excluído, pertence só à sua rua ou casa.

    The Infinite Blue diz o que precisámos ouvir ou ler. O respeito pela e continuidade das nossas tradições, e logo o passo em frente. Felizmente, Diniz Borges sempre batalhou por esta causa. A memória do passado e, uma vez mais, a nossa essencialidade de integração na grande sociedade norte-americana. A dignidade de um grande povo pouco tem haver com línguas ou vivência em duas línguas, ou mesmo em línguas recortadas tanto em Inglês como em Português. Portugal só se expande desta maneira: com o seu povo donos de si no seu outro país sem nunca se esquecer de onde veio, das suas duplas e nunca conflituosas lealdade. O azul – The Infinite Blue – é significante da nossa existência, o azul do nosso triunfo à beira do Atlântico e do Pacífico. Os sonhos alegres e o sentimento trágico e triunfante da nossa sorte. The Infinite Blue não é só um livro qualquer, é esse testemunho de um imigrante que fez e continua a fazer na faculdade da Universidade Estadual da Califórnia, em Fresno, por acaso a minha faculdade, só que num outro polo mais distante em Fullerton no sul da Califórnia. Quando um colega meu escreve um livro desta grandeza é como se fosse meu, ou o livro que nunca escrevi. A grandeza de um amigo e colega meu passa também a ser a minha. Ler este livro é perceber, a entender por inteiro, quem fomos e o que somos.

___

Diniz Borges, The Infinite Blue: Stories, Reflections and Essays from the Azorean Diaspora, (Graphic composition: Avelina da Silveira), printing and distribuition: Amazon, 2026. As traduções aqui são da minha responsabilidade.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental, 3 de abril de 2026.