quinta-feira, 29 de outubro de 2026

De Diniz Borges e de um outro cânone


 Estas duzentas e cinquenta vozes pertencem a esse momento fundador em que a América procurava falar de si mesma.

Diniz Borges, Os livros Que Me Fizeram Americano


    Diniz Borges declara que este seu livro não é um “cânone”, mas para mim é isso mesmo. Uma listagem comentada de 258 livros, que traz ainda o subtítulo de 250 vozes para os os 250 anos da América. Escrevo aqui naturalmente como português e também enfaticamente como luso-americano porque desde há muito sou também cidadão daquele meu outro país. Formado em Estudos Latino-Americanos e com pós-estudos na literatura modernista desta minha outra geografia no outro lado do mar e continente não posso deixar de contrariar as palavras do autor do presente livro. Desde sempre leitor da literatura dita americana, reconheço-me nas escolhas de Diniz Borges como conheço muitas das obras por ele citadas e comentadas. A propósito destas minhas palavras: deixei os Estados Unidos há 35 anos, e para meus pecados estou em branco quanto à literatura mais recente dessa minha longa residência e formação na Califórnia. A lonjura, mais psicológica e outros projetos literários meus fizeram com que não continuasse a ler sistematicamente e a adicionar essas obras fundamentais à coleção aqui em casa – com especial falta dos autores americanos que então eram, talvez injustamente ou pelo menos erradamente, nomeados de “étnicos”. Seja como for, Os Livros Que Me Fizeram Americano é para mim essa referência que já me faltava, e ainda por outras razões que explicarei mais adiante. Diniz Borges começa com a literatura fundadora dos EUA, desde Anne Bradstreet, Herman Melville, Walt Whitman e Mark Twain, entre muitos outros, e segue em linha contínua com os modernistas do século passado até aos nossos dias. Por outras palavras, modernismo e pós-modernismo que completam e dialogam numa primorosa listagem que fica connosco, e faz ainda algo muito mais. Cada livro é seguido de um breve comentário que o situa a ele próprio em termos culturais e como imigrante desde criança em comunidades no vasto Vale de São Joaquim que se tornam simbólicas do que entende ser esse seu outro país e ser-se imigrante que aos pouco se integra na grande sociedade que o rodeia e a que pertence por inteiro.

    Diniz Borges faz ainda neste livro o que nenhum de nós pensou ou imaginou. Foram os livros que ele foi lendo ao longo da sua carreira académica e literária que nos trazem o processo da sua “americanização”, e a aceitação do que passaria a ser o seu inevitável destino – e de, uma vez mais, dos muitos dos seus conterrâneos reverem-se na sua prosa sobre cada um dos livros que escolhe como influências hoje indeléveis da nossa sorte na vida. Isto é uma obra especial. Quem não se rever nela ou é ignorante da vida a outro nível, ou então viveram a América com a obsessão da terra-pátria. Só que em nada destas páginas de breves comentários nos contradizem – dizem-nos como ninguém o teria dito antes. Diniz Borges é ainda mais original entre entre nós. Ler os escritores americanos é ler-nos a nós próprios, quer outros percebem isto ou não.

    Ele inclui escritores idos para a América das mais longínquas ou até há poucos anos improváveis geografias humanas. Os que não conhecíamos ou nunca temos lido. Eu tinha lido alguns deles com muita atenção pela afinidade imediata da primeira à última página. Não admira porque ele é formado a nível superior exatamente sobre a literatura dos que escreveram e publicaram com sucesso na sua terra nova. Levou-nos muito tempo, quando esquecemos, tanto na América como em Portugal, os mestres como, por exemplo, só ao acaso, Alfred Lewis. Há outra questão que devo acentuar: nem um escritor luso-americano para essas suas escolhas. No entanto, muito valorizados entre nós. A sua questão são os que lhe ajudaram a ser americano ou parte integral daquela sociedade, tal como muitos de nós. Estou em acordo absoluto com ele: esses sempre foram e são parte da nossa tradição na América em comunhão direta ou indireta com os nossos imigrantes e lusodescendentes. Os restantes autores de um cânone ou de outros mais recentes, companheiros de viagem é que nos são, neste contexto, muito especiais. Escrever, repito, sobre eles é escrever sobre nós. Aliás, o autor vai sempre interligando aos seus comentários sobre os escritores mais recentes à sua própria experiência de imigrante açoriano por dentro e fora das nossas comunidades.

    Os Livros Que Me fizeram Americano: 250 vozes para os 250 anos de América falam de uma América que nos recebeu do mesmo modo desde o seu início como nação independente, sem nunca ignorar o que Diniz Borges um dia escreveu sobre “festas e feridas”. Cada nacionalidade ou etnia teve os seus escritores supremos, e o melhor deles estão aqui nomeados e comentados em breve palavras. A formação superior de Diniz Borges levou-o a um livro que nunca tinha sido escrito entre nós. Quem ele menciona ou não é para uma descoberta de cada leitor. Eu que sempre me dediquei à literatura americana voltei a descobrir o que nunca tinha descoberto quanto à maioria dos escritores que levaram consigo outras tradições e linguagens para a terra nova. Só posso dizer que nem toda esta literatura, para além dos clássicos americanos, foi uma “notícia” para mim, como diria Ezra Pound na sua poesia e alguma prosa de interpretação mais ou menos problemática. São mais ou menos os restante escritores da nossa época vindos do longe e fazendo do seu país escolhido a casa do seu questionamento e perplexidade em prosas magistrais que requerem não só a leitura crítica e competente para nos podermos ver num outro espelho retorcido em que há uma luz esclarecida como nos tornamos um outro, e de seguida fazer desse território um espaço íntimo de que nos tornamos numa aceitação de que desconfiamos e depois confiamos. A literatura dos escritores menos conhecidos aqui na Europa justifica toda a bondade e justificação da busca sem fim.

    Este livro de Diniz Borges despertou-me toda a memória de como eu também procurava alguns dos nomes de identidade, que então se faziam notados a nível nacional nos Estados Unidos. Poucos deles estão traduzidos no nosso país, para perda nossa quando falamos de literatura americana. É certo que continua a haver por cá certos preconceitos até mesmo ante a escrita suprema de luso-americanos ou mesmo escritores da primeira geração, muitos deles formados nas melhores universidades daquele país. Os ignorantes é que perdem , não os criadores dalguma da melhor prosa do mundo atual em espasmos. Lembro-me de quando escrevi na revista LER sobre Toni Morrison quando ela venceu o Prémio Nobel. Tive uma resposta insinuada de um grande intelectual português. Era porque ela era uma americana de descendência africana, portanto era um prémio “politicamente correto”. Calei-me, claro está. O francesismo já tinha desaparecido entre nós, e ainda tentavam a habituar-se aos novos ventos literários que agora vinham de um país um tanto distante em tudo. O não saber, ou o pretender não saber, suponho, traz também um certo conforto.

    Diniz Borges com este seu livro nada tem a ver com isso. Só mostra a grandeza como uma nação se foi e vai construindo com as suas melhores e piores vozes.

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Diniz Borges, Os Livros Que Me Fizeram Americano: 250 vozes para os 250 anos da América, Bruma Publications e Moonwater Editions, Amazon, 2026.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental de 23 de outubro de 2026


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