sexta-feira, 31 de julho de 2026

Alguma da poesia portuguesa numa escolha original


desde a sua fundação por Snu Abecassis em 1965, a Editora tem permanentemente demonstrado um empenhamento sério na divulgação da poesia.

Manuel Alberto Valente, 60 anos de poesia: uma antologia


    É claro que se trata da editora D. Quixote, hoje parte do grande grupo Leya. Quanto a Manuel Alberto Valente, a sua distinta carreira como editor audaz vem desde a Asa, que publicou sempre alguns dos melhores escritores portugueses e estrangeiros em década recentes. Esta é uma seleção tão especial como original: escolhe o primeiro poema saído em livro na D. Quixote, indo desde Bocage a Salvador Santos, com notas bibliográficas pertinentes neste contexto e por ordem do nascimento de cada poeta. O que resulta é uma compilação de todo sedutora para qualquer leitor da nossa melhor poesia, como é evidente pelos nomes aqui presentes, alguns deles ainda no ativo neste e noutros géneros literários, que incluem ficção e até crítica literária, como no caso de Pedro Mexia e António Carlos Cortez entre outros. Pelo meio temos pelo menos três poetas de origem açoriana, todos eles começando e permanecendo quase toda a sua vida no continente: Antero de Quental, Natália Correia e João de Melo, este que continua numa pungente e diversa produção literária. 60 anos de poesia, e mesmo contendo um grande número de poetas, é um volume com menos de 100 páginas, esses que seguramos nas mãos e lemos com prazer em qualquer parte, a sequência torna-se um método secundário como é habitual a qualquer leitura do género. Uma antologia, para além dos seus critérios próprios, é sempre um ato de generosidade e respeito pela melhor literatura entre nós, facto de que ninguém duvide quando a colocamos entre todos os outros a nível mundial, contemporâneos ou não.

    Abro aqui um parêntese para mencionar algo que me parece justificar algumas das minhas palavras neste texto, assim como já o fiz noutros lugares e circunstâncias. Desde o século XVI que temos contribuindo para a reinvenção da grande literatura europeia sem nunca menosprezar todas as outras que conhecemos por vários modos e sensibilidade. Houve um período de tempo – segundo um texto de outro crítico em que três dos grandes autores europeus estavam vivos e a publicar em determinada época diferentes géneros literários, dramaturgia, poesia e ficção. William Shakespeare, inspirado nalgumas peças e outras literaturas romanas, retratava nessa sua intemporal obra de palco a noção de teatro puro, a sede de poder, ciúmes entre os seus contendores e violências, numa modernidade que perdura até hoje, como o Rei Lear, esse mesmo que Álvaro Cunhal viria a traduzir já nos nossos dias; Camões no oriente e em Portugal saia quase às escondidas com Os Lusíadas, um deles, Shakespeare, classificado como autor que “inventava” o humano, e o outro, Camões, que previa a guerra das civilizações antes de ninguém. Foi afirmado por Harold Bloom no seu O Cânone Ocidental: Os Livros e a Escola do Tempo, que incluiu insistentemente três dos nossos escritores, precisamente Camões, Fernando Pessoa e José Saramago, essa volumosa antologia cuja leitura se tornou quase obrigatória para quem com ele quer refletir ou brigar. Em Espanha foi Cervantes que nos introduz, também segundo certos historiadores da literatura, e que nos afirmam ser o primeiro romance moderno, D. Quixote, essa fábula satírica à cavalaria do seu país, então quase sempre em guerras. a luta pela luta, a conquista pela riqueza e glória que nunca deveriam ter fim.

    Já no século passado outra coincidência literária vinda da preferia europeia e norte-americana. James Joyce abandonava a Irlanda e passeava-se num doce exílio na Suíça enquanto, suponho, escrevia Ulisses, de imediato proibido de entrar nos Estados Unidos nos primeiros tempos da sua publicação pela mítica livraria parisiense Shakespeare & Company nos anos 20, o romance que mais ninguém quis editar, que levava a modernidade literária muito mais longe, inimitável, e ainda hoje lida quando não mesmo fonte de referência tanto em linguagens, estilos como, uma vez mais, em temáticas especialmente a partir dos anos 60 do século passado. Em Lisboa andava diariamente Fernando Pessoa entre dois cafés enquanto escrevia poemas em guardanapos ou qualquer papelinho à mão, sem um único livro publicado em vida para além de Mensagem. É desde alguns anos a esta parte um dos poetas portugueses mais elogiados no mundo, particularmente e ironicamente aquando da tradução da prosa algo dispersa e disruptiva do Livro do Desassossego. O modernista sem tréguas da Orpheu fazia sair a inesperada revista que provocou grande escândalo público e ruidoso, mais ou menos psiquiátrico, em Lisboa. Ao mesmo tempo, William Faulkner andava também meio transtornado pelo bourbon na sua pequena cidade de Oxford, Mississippi – ignorado pela sua estranheza, anos depois vencedor do Prémio Nobel. Deu a saber aos nova iorquinos e a outros arrogantes das redondezas que a sua “América” era mais e muito diferente do resto da nação, caída na guerra civil e ainda a lamber as feridas que nunca sararam. Eram todos, repita-se aqui, “periféricos”. São todos eles, séculos ou décadas depois, os grandes mestres da perpétua reinvenção na arte literária dita universalista, os que levavam a vida de cidade em cidade e ainda mais em recônditos que nunca motivaram qualquer busca de fama ou louvores em qualquer forma. A suposição é minha, mas fica em aberto para outros que pensam de outro modo ou juntam as peças noutros quadros de inteligentes malabarismos verbais ou por escrito.

    60 anos de poesia: uma antologia é daqueles livros que nos surpreendem não só pelos critérios do seu organizador, como nos vem lembrar do trabalho múltiplo de uma grande e corajosa editora em defesa da grande literatura. Os nomes dos seus cinquenta poetas estão aqui à vista, todos com o artífice da nossa melhor poesia modernista. Está aqui também Manuel Alegre com o poema “Fado”: Com que voz nos dirias com que voz/de lira já cansada e enrouquecida?/A gente cega e surda somos nós/o tempo se mudou mas não a vida.

    Nenhuma destas vozes se calaram, e nunca mais ficarão no silêncio de um tempo que valoriza a ignorância como saber, e o saber como atrevimento. Outras continuam a fazer-se ouvir aqui e ali nas mais diversas publicações do nosso país, outras delas atravessaram fronteiras para serem lidas noutras línguas.

    Não será só a forma artística destes poemas que continua a comover uma minoria de leitores ou apreciadores da grande arte em geral. É toda uma identidade na sua definição sempre ambígua ou fluida. Quer queiram ou não, são essas noções de quem fomos e quem somos, são os símbolos e as metáforas que definam toda a sensibilidade de uma cultura a um tempo marcado pela geografia e história, e pela sua inevitável inserção na condição humana vivida e cantada por todos os outros.

60 anos de poesia: uma antologia (organização e notas de Manuel Alberto Valente), D. Quixote/LeYa, Lisboa, 2026.

No BorderCrossings do Açoriano Oriental de 31 de julho de 2026.

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